China: o céu é o limite

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A terceira superpotência espacial

O salto orbital quântico da cápsula Senzhou

Beijing – O teste de um sistema de mísseis para destruir satélites em órbita, realizado em 2007, foi considerado o mais sério indício da ambição espacial chinesa. Desde o histórico lançamento de Senzhou (Embarcação Divina, em tradução livre), em outubro de 2003, a China tornou-se o terceiro país do mundo em condição de lançar e manter seres humanos em órbita espacial.

O Programa Espacial da China que, atualmente, opera a partir de seis centros de lançamento de satélites e mísseis, na realidade, foi iniciado há cinco décadas e, a exemplo do que ocorreu, também, com todas as demais superpotências, os primeiros mísseis que lançou no espaço foram mísseis balísticos transformados e, somente, na década de 1990 trocou a instituição organizacional e, entregou o controle dos lançamentos à Agência Nacional do Espaço, enquanto, o veículo espacial Senzu foi baseado nos projetos da Soyuz russa, mas, desde então está sendo desenvolvida tecnologia própria.

Após as duas primeiras missões tripuladas, a China lançou uma missão na órbita em torno da Lua, quase, simultaneamente, com a correspondente tentativa do Japão. A missão chinesa integra-se no âmbito do programa que prevê alunissagem na superfície lunar e, retorno com amostras em até 2020. Também, algumas autoridades do programa mencionaram a existência de planos para lançamento de uma estação espacial e instalação de uma base na Lua, enquanto, aguarda-se para breve o início do programa para Marte com horizonte em 2060.

A China não exclui agora cooperações espaciais com a Rússia e até a União Européia (UE) e, já formalizou todas as convenções da Organização das Nações Unidas (ONU) com relação ao espaço. Contudo, apesar de suas asseverações para o uso pacífico do espaço, é óbvio que o governo de Beijing não pretende permanecer apenas mero espectador da atividade espacial dos EUA. A tecnologia de eliminação de satélites – revelada pela China – preocupou o Pentágono (conforme revelam seus vários relatórios a respeito), considerando que poderá atingir as redes de espionagem, comunicação e, defesa antimísseis.

A decisão dos EUA de destruírem no início de 2008 um satélite que mostrou vários defeitos, foi considerada – em parte – resposta ao correspondente teste chinês. E os milhares de fragmentos que deixaram em órbita, tanto os EUA, quanto a China, talvez sejam os primeiros indícios de uma possível guerra fria espacial.

Energia elétrica

A gigantesca barragem das Três Gargantas, construída pela China para domar o rio Yangtze é a maior usina hidrelétrica do mundo e revela, tanto grandiosidade, quanto ameaça de catástrofe bíblica. Na realidade, a Barragem das Três Gargantas protege contra as inundações e gera abundante energia elétrica, mas, também, expulsou de suas casas milhões de habitantes e cobriu dezenas de áreas arqueológicas, enquanto, ameaça o Yangtse com catástrofe ecológica.

Os aspectos favoráveis e desfavoráveis estão sendo discutidos desde a década de 1920, quando a idéia da barragem foi proposta pela primeira vez. O projeto foi aprovado com a mínima maioria possível quando foi apresentado no Parlamento pelo então Primeiro-Ministro, Li Peng, em 1992. A faraônica obra dos US$ 25 bilhões, construído na região de Hubei, foi inaugurada, oficialmente, em maio de 2006 e, concluída em 2012. A muralha de concreto da barragem tem comprimento de 2.335 metros de margem à margem e, altura de 101 metros e, cria um lago com 640 quilômetros de comprimento e capacidade de quase 40 quilômetros cúbicos.

Mas este lago formado pela barragem obrigou, até hoje, 1,4 milhão de pessoas a abandonarem suas casas e suas terras, enquanto, avalia-se que será necessária a retirada de mais quatro milhões. Para o governo de Beijing, o sacrifício dos habitantes da região atende o bem comum. A principal função da barragem é proteger pelas cheias do Yangtze, as quais, ameaçam várias grandes cidades, entre as quais Xangai, distante a 1.600 quilômetros da barragem.

A segunda função da obra é a geração de energia elétrica, a qual, já atingiu o volume de 22,5 Gigawatt com a instalação e início de funcionamento da últimas das 34 turbinas. Este total de geração de energia elétrica corresponde a 3% do total de consumo de energia da China. Por outro lado, o governo de Beijing considera que a barragem contribui, sobremaneira, para a proteção do meio ambiente, considerando que reduz o uso de carvão de pedra para geração de energia elétrica em 31 milhões de toneladas por ano, volume que corresponde à emissão de 100 milhões de toneladas de dióxido da carvão. Outra redução de emissões obtém-se com as duas hidrobarreiras que facilitam a navegação e reduzem os fretes.

Entretanto, há muitos considerando que as consequências ambientais da barragem superam quaisquer vantagens. Apesar da construção de dezenas de novas unidades de reaproveitamento de materiais, a consequente redução de fluxo do rio resulta em acúmulo de matérias orgânicas e anorgânicas que ameaça necrosar as águas. Aliás, a barragem é considerada um dos motivos que resultaram no desaparecimento do “golfinho de rio” da China e, espera-se que afetará, negativamente, tanto o peixe de Yangtze, quanto, também, os grous de Sibéria, uma ave em vésperas de extinção. Além disso, a barragem impede o fluxo normal de lama que enriquece o delta do Yangtse com conteúdo rico. Mas, ao invés de chegar até o delta, a lama acumula-se atrás da muralha da barragem e, até com ritmo preocupante, criando temores de que, gradualmente, começará impedir o funcionamento normal das turbinas e, inundará a obra totalmente.

A fim de restringir o acúmulo de lama e prorrogar a vida da barragem, o governo de Beijing está preparando a construção de mais quatro barragens em posições mais acima do fluxo de Yangtse.

O pesadelo ambiental

As águas do Rio Amarelo fluem negras e, aqui em Beijing o ceu está permanentemente carregado de nuvens negras. Ceu azul, aqui em Beijing, constitui fenômeno raro, fato que não tem nenhuma relação com o tempo, mas, com a contaminação do meio ambiente. A China sofre. Mas, o inimigo não é externo, mas, é doméstico. O país está sendo destruído pelo seu próprio sucesso. Primeira vítima o ambiente natural. O Rio Amarelo – a alma da China – está morrendo, os cidadãos sofrem pela falta de água, extensas regiões agrícolas tornaram-se desérticas, enquanto, os casos de câncer crescem assustadoramente.

Quang Tzinan, um dos mais destacados ambientalistas chineses em entrevista no jornal New York Times, afirmou: “É uma situação perplexa para o país, de vez que, nossa maior obra é, também, nosso maior problema”. De fato, os dados são preocupantes: A China superará – para muitos já superou – os EUA em volumes de emissão de dióxido de carvão, ocupando assim o primeiro lugar na classificação mundial. E mais chocante, ainda, é o fato que a mudança ocorreu em apenas 30 anos, tempo-recorde para os fundamentos de um país em desenvolvimento.

O Rio Amarelo que, no passado constituía o orgulho da China, hoje constitui fonte de tristeza. Lixos industriais e orgânicos tornaram suas águas tóxicas e, segundo a National Geographic, “o Rio Amarelo é considerado biologicamente, morto em percentual de 50%, enquanto, barragens mal planejadas o esgotam.

O Banco Mundial (Bird) avalia que, “haverá consequências catastróficas para as próximas gerações, enquanto, os casos de câncer que por causa da contaminação do meio ambiente crescem ano após ano, já somam dezenas de milhares”. Adicionalmente, centenas de milhares de chineses são os refugiados ambientais que têm abandonado suas casas por causa da contaminação do ar e da água. De acordo com dados do Bird, “apenas 1% da população chinesa respira ar considerado seguro pela União Européia, enquanto, 15 das 20 mais contaminadas cidades do planeta encontram-se aqui, na China.

O já existente e, grave, problema da falta de água já cresceu nos últimos anos. Em um total de 660 cidades da China, mais de 400 sofrem pela falta de água. E já afetou a produção de grãos, fato que provoca preocupações para os aumentos nos preços dos alimentos. Obviamente, as consequências são também, econômicas. A destruição do meio ambiente custa para o país, pelo menos, 3% de seu Produto Interno Bruto anual, mas, muitos mencionam 5%.

O governo esforça-se para salvar os rios do país por intermédio de um programa de bombardeio das nuvens e, embora, não mostra-se preparado, ainda para fazer os recuos que são necessários, as reclamações dos cidadãos que vêem a situação agravando-se, considera-se, que funcionará como alavanca de pressão para adoção de medidas. Autoridades do governo de Beijing destacam que, “a China já investiu – até 2010 – US$ 180 bilhões na defesa do meio ambiente. E tudo isso, enquanto novas fábricas brotam, incessantemente, às dezenas em ambas as margens do Rio Amarelo.

O problema da China constitui, também, problema do mundo. A comunidade internacional convoca-se agora para convencer o governo de Beijing de que a política ambiental constitui sua prioridade. Até lá, o céu de Beijing permanecerá negro.

Política demográfica

A política de um filho por família, embora, limite a explosão populacional, cria paradoxos. Mas, foi necessária a ocorrência há vários anos do terrível terremoto que custou a vida para 70.000 chineses, para o governo de Beijing mostrar flexibilidade com relação a “política de um filho por família” que vigora na China desde o final da década de 1970. Contudo, desde quando foi anunciada a “flexibilidade” da medida legal, o governo de Beijing tornou claro que, sua decisão diz respeito apenas as regiões do país que foram as mais atingidas pelas consequências do terremoto.

A China, país de 1,3 bilhão de habitantes, é o único no mundo que adotou a política de controle dos nascimentos. A legislação em vigor, foi aprovada em 1979, a fim de ser estabilizado até 2000 o total da população. E responsável pela para manutenção da lei é a Comissão Nacional de População e Política Familiar. Mas, afinal, o determina esta legislação?

Nas regiões densamente habitadas é permitido aos casais de gerarem apenas um filho (a medida exclui os casais que já têm um filho deficiente físico ou mental), enquanto, nas cidades agrícolas é permitido aos casais de terem dois filhos, se o primeiro é de sexo feminino. Quanto para três filhos…nem pensar, considerando que os casais transgressores serão, severamente, multados e, não só.

Indicativos da severidade com que o governo de Beijing pune os casais transgressores são os dados divulgados pela Anistia Internacional, segundo os quais, não são poucas as mulheres que são submetidas não só a aborto obrigatório, mas, também, à esterilização. Já para as solteiras, o aborto é obrigatório. Sim. Mas, até que ponto tem sido eficaz a adoção da “política de um filho por família”?

Apesar de o governo de Beijing sustentar que graças a adoção desta lei restritiva foram evitados cerca de 400 milhões de nascimentos, os resultados de pesquisas oficiais comprovam que a população do país começou a envelhecer preocupadamente, considerando que os nascimentos por mulher atingem 1,8 número muito menor do ritmo de renovação da população (2,1 filho por cada mulher). Mas, em dados oficiais registra-se que, a desanáloga relação entre os nascimentos de crianças do sexo masculino e as crianças do sexo feminino, considerando que muitas famílias – habitantes, principalmente, em regiões agrícolas – optam por uma criança de sexo masculino, abortando fetos de sexo feminino. Assim, em cada 100 crianças do sexo feminino nascidas, correspondem 118 crianças do sexo masculino.

Calcula-se que, em 2020, os homens em idade de casamento serão 30 milhões mais do que as mulheres em idade correspondente.

Queda-de-braço

A ilha de Taiwan quer ser chamada República da China, mas, a República Popular da China (a China Continental) considera a ilha de Taiwan uma região sua apenas. Esta ‘queda-de-braço’ da República Popular da China com a ilha de Taiwan iniciou-se em 1948, quando as forças comunistas expulsaram os nacionalistas da China Continental para a ilha de Formosa, como era então o nome da ilha de Taiwan. Esta pequena ilha tornou-se um pseudo-estado, quando a vitória do Exército de Libertação, liderado pelo Mao Tse Tung, obrigou os 30.000 partidários do general nacionalista, Chiang Kai-shek de buscarem refúgio na ilha de Formosa, acompanhando dois milhões de imigrantes.

Hoje o governo de Beijing considera a ilha de Taiwan uma região apóstata. Por sua vez, a ilha de Taiwan, que autodenomina-se como República da China, em oposição a República Popular da China (a China continental), busca sua independência, a qual, aliás, no passado havia ameaçado declará-la unilateralmente, tendo que enfrentar as ameaças de declaração de guerra pelo lado do governo de Beijing. Embora, durante a Guerra Fria as maioria dos países do Ocidente tenham reconhecido a ilha de Taiwan, relações oficiais e diplomáticas com Taiwan mantêm apenas 27 países, principalmente, da África, da América Latina e, do Pacífico. Outros mantêm escritórios de representação, os quais, hesitam denominá-los de embaixadas. Além disso, a ilha de Taiwan não é membro da Organização das Nações Unidas(ONU), enquanto, todos os seus esforços para conseguir uma vaga têm sido bloqueados pelo Governo de Beijing.

Apesar do isolamento diplomático, a ilha de Taiwan tornou-se uma das maiores forças comerciais da Ásia. Muitos consideram que conseguiu um milagre econômico, ao transformar-se em um dos maiores fabricantes de tecnologia de computadores eletrônicos.

Entretanto, por muitos anos, as relações entre as duas Chinas poderiam caracterizar-se como atos de Guerra Fria. Os estreitos entre a ilha de Taiwan e a China Continental constituem hoje as zonas mais militarizadas do mundo.

Os primeiros esforços de aproximação entre as duas Chinas foram iniciados em 1993, mas, foram interrompidos em 1999 quando, Chen Shui-bian, claramente, posicionado a favor de independência da ilha de Taiwan, foi eleito presidente da República da China.

Contudo, apesar da eleição de Ma Ying jeou, em março de 2008, para presidente de Taiwan, as relações entre as duas Chinas têm melhorado muito. “E a ilha de Taiwan não quer, simplesmente, segurança e bem-estar. Quer sua dignidade. Só quando a República da China deixar de ser isolada pela Comunidade Internacional, poderemos enfrentar nossas relações bilaterais com a China com maior autoconfiança”, declarou o novo presidente eleito de Taiwan.

Seguiram contatos bilaterais e formalizado acordo para instalação de escritórios de ligação entre as duas Chinas, nas respectivas capitais, enquanto, iniciou-se a ligação aérea entre Taiwan e Beijing.

Essencialmente, os contatos têm com alvo principal a solução de problemas práticos, sem que isto mude o fato de que o futuro de existência política de Taiwan permanece incerto. O governo de Beijing é favorável à uma situação de semi-autonomia nos moldes de Hong Kong, perspectiva que a ilha de Taiwan não mostra-se propensa a aceitar.

Lee Wong – Monitor Mercantil

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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