Refazendo os caminhos de Ernest Hemingway em Cuba

No rastro de Hemingway em Cuba

Por Jota A. Botelho – Luis Nassif Online


Hemingway e o pescador Gregorio Fuentes (dir.), que inspirou o personagen
Santiago em O Vellho e O Mar

Ernest Hemingway pescando Marlin

O Prêmio Nobel da Literatura Ernest Hemingway pode se tornar o novo chamariz do turismo cubano, com o programa Hemingway e as Ilhas do Golfo,  que vai contar com a participação de guias ao ‘Museu Ernest Hemingway’, localizado em Finca La Vigía, a localidade escolhida pelo escritor norte-americano para residir durante duas décadas de sua vida na ilha caribenha. Além da visita em Finca La Vigía, haverá percursos programados por Havana, com passagem na ‘La Bodeguita del Medio’ e no restaurante ‘El Floridita’. A cereja no topo do bolo seria a inclusão no pacote de uma hospedagem no ‘Hotel Ambos Mundos’, que conserva o quarto 511, onde o romancista escreveu uma de suas obras, ‘Por Quem os Sinos Dobram’, no coração da velha Havana.

Hemingway na Cuba de Castro
por Pedro Correia (Adaptação)

Uma viagem a Cuba, para um leitor fiel de Ernest Hemingway, ficaria incompleta sem a visita à antiga propriedade do escritor, a Finca Vigía, 18km a sudeste da capital, na aldeia de San Francisco de Paula. Hemingway viveu lá mais de 20 anos, entre 1939 e 1960: nenhuma habitação o cativou tanto como este casarão inspirado na arquitetura colonial espanhola, no alto de uma colina verdejante. O escritor já conhecia Cuba desde 1928. Mas só se deixou fascinar pela Finca onze anos mais tarde. Ele e a terceira mulher, Martha Gellhorn, alugaram-na por cem dólares mensais a um industrial americano estabelecido na ilha. Em dezembro de 1940, tornou-se proprietário da Finca: os primeiros direitos de autor que lhe rendeu Por Quem os Sinos Dobram, um dos romances de maior sucesso da década, permitiram-lhe dar este passo. Hemingway era feliz em Cuba, onde escreveu a obra que lhe deu acesso direto ao Pulitzer e ao Nobel, além de lhe consolidar a fama: O Velho e o Mar. Quando não estava na Finca ou no Floridita, o seu bar favorito, encontrava-se a bordo do seu iate Pilar, em épicas jornadas de pescaria ao largo de Cuba. O Pilar está hoje nos jardim da elegante residência, junto à piscina onde Ava Gardner gostava de nadar nua. A casa, de piso térreo, contém os livros, as revistas e até as bebidas do escritor. Dir-se-ia que ele e Mary, a quarta mulher, saíram para um fim de semana prolongado. Na parede do WC, também repleto de livros, veem-se anotações nítidas, a lápis: são as flutuações diárias do peso registadas meticulosamente por um Hemingway preocupado com a linha. Há um edifício anexo, construído posteriormente, onde pernoitaram Marlene Dietrich, Ingrid Bergman, Spencer Tracy, Gary Cooper e Sartre, entre outros convidados. E uma torre de três pisos, que Mary mandou construir para o marido poder escrever com tranquilidade. Do alto, avista-se um panorama soberbo de Havana e do mar das Caraíbas. Esta propriedade pertence hoje ao Estado cubano, que a transformou em casa-museu. Foi confiscada poucos dias após o suicídio do escritor, em julho de 1961. A viúva levou joias, roupas, 25 livros que o casal mais estimava, alguns quadros (A Quinta, de Miró, Monumento ao Trabalho, de Paul Klee, O Guitarrista e  O Toureiro, de Juan Gris) e todos os manuscritos de Hemingway depositados num cofre-forte de um banco de Havana. Para trás ficaram a casa, o iate e mais de dez mil livros, tornados ‘propriedade’ do Estado cubano (leia aqui: Cuba abre o “arquivo Hemingway”/ A outra face de hemingway… / De Heminway, com amor). Hemingway e Fidel encontraram-se uma única vez, durante um concurso de pesca. Foi em maio de 1959, antes de o dirigente cubano se proclamar comunista. Castro ganhou o concurso e o escritor acedeu a entregar-lhe o troféu. O conjunto de fotos que registaram esse encontro está hoje em destaque no melhor restaurante de Cojímar, a aldeia de pesca onde Hemingway costumava atracar o seu barco. Fidel confessaria mais tarde que lia Por Quem os Sinos Dobram na Sierra Maestra: “Ensinou-nos muito sobre a tática de guerrilha.” O autor que simpatizara com a causa comunista na Guerra Civil de Espanha, saudara efusivamente o derrubada da ditadura de Fulgencio Batista em Cuba. Dez meses após a tomada do poder por Castro, em novembro de 1959, declarou aos jornalistas, no aeroporto de Havana, que a revolução fora o melhor acontecimento em Cuba. Em julho de 1960 partiu discretamente, sem nunca mais regressar. Não voltaria a falar com Fidel em público. Havana e Washington cortaram relações diplomáticas seis meses depois.

Fotos de Finca La Vigía

O Museu Heminway em Finca La Vigía


Ernest Hemingway na Floridita

El Floridita & La Bodeguita del Medio
Bares frequentados por Heminway em Cuba


Fotos do Hotel Ambos Mundos

Hotel Ambos Mundos & Finca La Vigía
Locais onde Heminway morou em Cuba


Hemingway e Fidel Castro numa competição de pesca em Havana 

Fidel Castro e Hemingway durante um concurso de pesca
Fidel Castro, com Che Guevara e Ernest Hemingway, vence uma competição de pesca em Havana em maio de 1959. Ele ganhou o troféu pela captura de um peixe Marlin.


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Onde Hemingway deixou clássicos e sua história
Por Clarissa Pont e Eduardo Seidl (fotos), para a RBA

Um ano depois da revolução, em entrevista ao jornalista Rodolfo Walsh, Hemingway teria dito: “Vamos a ganar, nosostros, los cubanos, vamos a ganar. I’m no a yankee, you know”


Fidel Castro, junto à última mulher de Hemingway, se comprometeu em manter a casa Finca Vigia intacta e transformá-la em museu

Havana – A cidade de cerca de 2,4 milhões se une à região metropolitana como tantas outras capitais do mundo. Bem perto de Havana, em São Francisco de Paula, a mais ou menos meia hora de táxi, está a Finca Vigía, onde o escritor Ernest Hemingway viveu. Nesta casa e no Hotel Ambos Mundos, na Habana Vieja, o escritor morou em território cubano por 28 anos, entre idas e vindas. Ali escreveu, em pé, Por Quem os Sinos DobramAtravés do RioEntre as ÁrvoresO Velho e o MarParis é uma Festa e As Ilhas da Corrente.

O Ambos Mundos foi uma residência quase permanente quando Hemingway voltou da Guerra Civil espanhola. A vista do quarto que mais frequentou, no quinto andar, era assim descrita por ele: “Suas janelas davam para a antiga catedral, e para a entrada do porto e para o mar pelo norte, e ao sul para a península de Casablanca e para os telhados das casas que se estendem até o porto”. Agora, em frente à janela está um enorme edifício que fere um pouco a paisagem de arquitetura predominantemente colonial. Neste quarto, uma exposição que muda a cada ano marca sua estadia. A de 2014 era sobre bebida, marca registrada na vida do escritor. A deste ano sobre quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1954.

Hemingway chegou pela primeira vez em Havana em abril de 1928, junto com Pauline Pfeifer, que estava grávida. Iam em direção a Cayo Hueso. O escritor tinha 28 anos e terminaria na praia seu segundo romance, Adeus às Armas, depois de ter sido correspondente na Europa e ter dirigido ambulâncias durante a Primeira Guerra Mundial. Pauline abandonou o quarto e o escritor ainda no Ambos Mundos e dizem que foi Martha Gellhorn, com quem ele se casou pouco tempo depois, quem encontrou e comprou a Finca Vigía.

É de Gabriel García Márquez a abertura da principal biografia sobre Hemingway, escrita pelo jornalista cubano Norberto Fuentes. “Havana era naquele tempo – e continua sendo até hoje – uma das cidades mais belas do mundo”, descreve García Márquez em Hemingway em Cuba. “O passeio pelo Malecón, a avenida à beira-mar, cujas obras de proteção e embelezamento tinham sido começadas em outra época, estava sendo prolongado até sua dimensão atual, e novas avenidas com árvores e mansões de milionários surgiam ao oeste da cidade velha”, prossegue o colombiano, relatando exatamente o que se vê ainda hoje sendo restaurado em Habana Vieja.


A casa tem vista privilegiada para Havana e guarda 9 mil livros do escritor

A casa da Finca Vigía permanece intacta. Até a biblioteca do escritor, com 9 mil volumes, está ali. É possível farejar cada recanto através das janelas e portas – só não é permitido circular na casa. Ali Hemingway teve, além dos livros, quatro cães e 59 gatos. As peças de caça, os sapatos e sandálias do escritor, os óculos de armação metálica, as espingardas e as varas de pescar. A Finca está em um dos lugares mais altos da região e a vista desde lá sobre Havana é magnífica. Atrás da casa, o escritor mantinha um mirante que também é aberto à visitação.

Em Cuba, Hemingway foi fiel freqüentador do Floridita, um bar com restaurante nos fundos que existe no final da Rua Obispo. Ali turistas de todo o mundo ainda hoje se sentam para tomar o daiquiri, uma combinação de rum cubano com gelo picado e limão que o escritor ajudou a divulgar pelo mundo. Segundo Hemingway conta em artigo escrito logo após receber o Prêmio Nobel, ir ao Floridita significava sentir-se em casa. “Eram pessoas de todos os Estados Unidos e de muitos lugares onde morei.” De marinheiros a agentes do FBI, entre alguns cubanos, todos frequentavam o Floridita. Dizem que o escritor também frequentava a Bodeguita del Medio, intacto até hoje e onde se podem ver as assinaturas de milhares de visitantes que cobrem as paredes, ali estão o autógrafo de Salvador Allende e um poema de Nicolás Guillén.


O Malecón (Avenida à beira-mar) e La Bodeguita del Medio

Sobre o escritor, o que os cubanos dizem é que seu pensamento político, tão expresso durante a Guerra Civil espanhola, parecia um enigma frente ao drama que vivia Cuba antes da Revolução. Suas relações eram com estadunidenses que visitavam a ilha e com alguns cubanos, mas não há indícios de que tenha tentado fazer contato com o ambiente cultural local – e tampouco conheceu muito mais da América Latina.

Ainda no livro de Norberto Fuentes, há uma passagem interessante. “Quase um ano depois do triunfo da Revolução e quando já estava evidente a hostilidade do governo dos Estados Unidos, o jornalista argentino Rodolfo Walsh fez uma entrevista rápida com Hemingway, aos empurrões e gritos de uma multidão engarrafada no aeroporto de Havana. Nessa entrevista, Hemingway teria dito em espanhol correto: “Vamos a ganar, nosostros, los cubanos, vamos a ganar”. E acrescentou em inglês: “I’m no a yankee, you know”.

De toda forma, pelas ruas de Havana, nenhum escritor – a não ser é claro José Martí – parece ser alvo de tantas homenagens. Difícil encontrar um bar ou restaurante de Havana que não tenha uma foto de Hemingway pendurada na parede. Fidel Castro foi quem, junto à última esposa de Hemingway, se comprometeu em manter a Finca Vigía intacta e transformá-la em museu. Em 1977, Fidel teria declarado a um grupo de jornalistas estadunidenses que Hemingway era seu autor preferido.

Como era a vida de Hemingway em Cuba foi justamente a pergunta que se fez o então jovem jornalista cubano Norberto Fuentes em julho de 1961, quando seu chefe de redação chamou-o até a Finca Vigía para que escrevesse um artigo sobre o escritor que na semana anterior tinha se dado um tiro de rifle no céu da boca. O livro, que foi editado em português pela L&PM, conta inúmeras histórias sobre Cuba e é um ótimo guia para conhecer a Finca Vigía e a Habana Vieja.
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As mulheres de Hemingway
por J.C.S


Na sequência, de cima p/ baixo: Elizabeth Hadley Richardson, Pauline Pfeiffer, Martha Gellhorn e Mary Welsh

Se “O Jardim do Éden” fala de uma relação a três muito semelhante àquela por que Hemingway passou, então não é despropositado falar das mulheres na vida do Nobel da Literatura. Com 21 anos, conheceu Elizabeth Hadley Richardson, oito anos mais velha. Hadley, como ele lhe chamava, tinha ido de Chicago para St. Louis recuperar da morte da mãe e encontrou em festas um rapaz que os amigos tratavam por muitos nomes – Ernie, Nesto, Oinbones, Wemmedge, Hemmy, Stein, Hemingstein. É assim que conta o escritor britânico Anthony Burgess na sua curta biografia de Hemingway. Apaixonaram-se e casaram em 1921. Destino: França. Era o lugar certo para um escritor. Um filho, Bumby, nasceu pouco depois.

Verão de 1926: ao sol da Côte d’Azur ou nas “fiestas” de Pamplona, os Hemingway partilham emoções com um casal amigo: os Murphy. E, pelo meio, surge Pauline Pfeiffer, que tinha sido editora de moda da Vogue e parecia, garantem, saída das páginas da revista. Hadley e Pauline são amigas. A ‘petite’ Pauline confessa o seu amor por Hemingway. Ele responde que também a ama. Hadley não faz drama: se ele e Pauline concordassem em separar-se por cem dias e se no fim ainda se amassem, ela concedia-lhe o divórcio. Os cem dias passaram, o divórcio seguiu-se; ele, apesar de Pauline, nunca deixou de pensar que tinha destruído o casamento, repetia a todos que era um filho da puta. “Chorou como uma criança quando Hadley determinou a divisão da mobília”, escreveu Burgess.

Em 1936, nos Estados Unidos, Hemingway prepara-se para partir para Espanha, onde estalara a Guerra Civil. Pauline é contra, tem um presságio mau. Provavelmente não o da morte do marido, mas o da morte do casamento. É ainda na Florida que ele encontra Martha Gellhorn, uma das mais extraordinárias repórteres de guerra do século XX (sem dúvida muito melhor do que Hemingway neste campo). É já na Espanha, no meio do horror, que se envolvem. Digamos que, no intervalo das reportagens de guerra, ele era o primeiro amante dela e ela a primeira amante dele, mas que não havia exclusividade. Ele ainda era casado. A relação, pública, durou anos e era quase sempre tumultuosa, mas ainda assim casaram em 1940. Hemingway tinha ciúmes do trabalho de Martha Gellhorn, que inclusive desembarcou na Normandia, na Segunda Guerra Mundial, antes dele.

Nesse ano, 1944, em Londres, ele conheceu Mary Welsh, jornalista do “Daily Express” casada com um colega do “Daily Mail”. O tempo desse encontro amoroso foi também o do desencontro final com Martha. Hemingway está presente na libertação de Paris. Instala-se no Ritz e recebe quem o vai visitar por entre champanhe e conhaque. Uma das primeiras visitas é a da Mary Welsh. “O quarto 31 do Ritz é consagrado às alegrias do amor pré-marital com Mary, breve mas apaixonado, acompanhado por champanhe Lanson Brut” (ainda Burgess). Casam em 1946. Ela será a quarta e última senhora Hemingway.

Em 2 de Julho de 1961, quando ele, doente e psicótico, se matou de manhã muito cedo, na entrada da casa de Ketchum, Idaho, ela estava lá dentro, dormindo.
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Hemingway & Martha
(Adaptação)


Fotos de Martha Gellhorm: no alto, como Correspondente de Guerra. Abaixo, qdo.
se casou com Hemingway

Eu sou uma correspondente de guerra. Mas existem guerras e guerras, diz Martha Ellis Gellhorn (a terceira das quatro esposas de Ernest Miller Hemingway, Prêmio Nobel de Literatura de 1954). Ela estava se referindo, entre outras coisas, ao desperdício de energia que envolve alguns rituais da masculinidade: boxe, álcool, caça, pesca, guerra e, evidentemente, sexo. Ela quer dizer, embora não diga, que, independente das circunstâncias, os homem se vestem com as lendas que tecem para si mesmos – e, por isso mesmo, a diferença entre a verdade e a mentira jamais será suficiente para fornecer um mínimo de compreensão substantiva aos acontecimentos (reais ou ficcionais). Ernest Hemingway foi um personagem literário insuperável: narcisista, paranóico, sedutor, mentiroso, ciumento, fanfarrão, alcoólatra, misógino, proprietário de múltiplos desvios de caráter, eternamente preocupado com a própria virilidade. Cercado de amigos e admiradores, como o escritor John Dos Passos e o fotógrafo Robert Capa, atraia a atenção dos jornalistas para as causas que defendia. Durante a guerra civil espanhola (1936-1939), não teve dúvidas, atravessou o Atlântico. Foi ajudar os republicanos, que estavam lutando contra o fascismo dos militares comandados por Francisco Franco. Ajudar talvez não seja a terminologia correta, pois foram dias e noites de festas em bares e bordéis. Mas, mesmo assim, ele estava lá, saudando a bandeira da democracia ao lado de heróis de todas as partes do mundo. Além disso, confirmando que parte da história da Espanha foi escrita com sangue. Por Quem os Sinos Dobram é um excelente romance sobre aquele período histórico. Martha Gellhorn estava junto nessa aventura. E em muitas outras. A história amorosa que (des)uniu Ernest Hemingway e Martha Gellhorn é complicada. Repleta de mal-entendidos e violência. Como ela faz questão de explicar: Éramos bons na guerra. E quando não havia guerras, criávamos uma dentro de casa. A batalha que não sobreviveríamos era a vida doméstica. Hemingway gostava de mulheres que não o desafiassem. Mesmo assim, casou com Martha em 1940. Talvez tivesse a esperança que ela ficasse quieta em casa, na Finca Vigía, em Cuba, cuidando da casa e dos gatos. Ela detestava a vida doméstica e… os gatos (que faziam barulho e a impediam de trabalhar com miados e animada atividade sexual). Mas, detestava com maior intensidade todos aqueles que reuniam em torno de Ernest. Não conseguia suportar aquele bando de homens bêbados 24 horas por dia, que usavam o Pilar (o barco) para pescar e lutar boxe. E, eventualmente, contratar os serviços de dezenas de prostitutas. Os amigos de Hemingway destruíram o maior projeto de Martha: manter o marido na linha. Ela queria que ele fosse amoroso, bebesse menos e escrevesse mais. Não conseguiu nada. Talvez o que tenha destruído o relacionamento entre os dois foi a viagem à China. No outro lado do mundo, as diferenças se acentuaram. Hemingway detestou a posição subalterna que lhe coube naquela circunstância. E reagiu agressivamente. Ou seja, destruiu as últimas possibilidades de reconciliação. Ele substituiu rapidamente Martha Gellhorn por Mary Welch. Diante do inevitável, Martha facilitou as coisas viajando para a Europa, onde foi cobrir a participação americana na II Guerra Mundial. Ela morreu em 1998, trinta e sete anos depois de Hemingway – que se suicidou (tiro de espingarda) em 02 de julho de 1961. (leia aqui: 1961: Escritor Ernest Hemingway comete suicídio)

Martha Gellhorn & Ernest Hemingway

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Ernest Hemingway: um cubano “sato”
Por Eduardo Pardo Cernadas (Adaptação)


Fotos de Hemingway com populares e Gregorio Fuentes (ao lado)
(…)
Nos arquivos de filmes e vídeos da Televisão Cubana existem velhos tesouros e imagens. Entre uma dessas joias arquivadas se encontra uma entrevista realizada por Juan Manuel Martínez a Hemingway após a notícia de que a Academia Sueca lhe tinha outorgado o Prêmio Nobel de Literatura, em 28 de outubro de 1954. O cenário em que ocorreu a entrevista não foi outro senão na sua residência, de Finca Vigía, hoje Museu Ernest Hemingway, em San Francisco de Paula.

A entrevista original, filmada com fita de cinema em 16 mm e preservada nos arquivos é curta. O jornalista fez apenas duas perguntas. Num primeiro momento da entrevista, Ernest Hemingway se declarou como “o primeiro cubano sato a receber este prêmio.” Imaginemos qual o sorriso de complacência no telespectador que tenha escutado tal auto-definição de “cubano sato”. Este adjetivo é um cubanismo, que não figura no dicionário da Real Academia Espanhola, mas sim, no Novo catálogo de cubanismos de Fernando Ortiz, e em nossa fala cotidiana, sobretudo bastante usado nas províncias centrais e orientais.

O uso do adjetivo “sato” por parte de Ernest Hemingway, demonstra que ele tinha uma profunda relação com os cubanos comuns, e como artista sabia escutar e assimilar as suas gírias e expressões idiomáticas populares, tanto que podia empregá-las acertadamente e no momento preciso. É muito provável que nenhum outro estrangeiro residente em Cuba, nem mesmo aqueles que fala espanhol por muito acostumados (estrageiros acriolados) que fossem, lhes brotariam espontaneamente como o famoso escritor, em meio a uma resposta improvisada, tal vocábulo lapidar e sintetizador para se manifestar como ele se sentia parte do povo cubano.

Aqui está a reprodução da entrevista realizada na Finca Villa Vigía, em San Francisco de Paula, em 28 de Outubro de 1954, na ocasião em que correu a notícia da atribuição do Prêmio Nobel da Literatura a Ernest Miller Hemingway, feita pelo jornalista Juan Manuel Martínez para o noticiário da Televisão Cubana.

MARTINEZ: Como os espectadores já sabem que o escritor norte-americano Ernest Hemingway ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Por tratar-se de uma notícia importantíssima para Cuba, nos encontramos em sua casa, na Finca Villa Vigía, em San Francisco de Paula.  Ele acabou de ganhar o maior prêmio concedido aos escritores. Mr. Hemingway, nós queríamos saber o que você experimentou, que sensação, que emoção você teve em ganhar o Prêmio Nobel de Literatura?

HEMINGWAY: Primeiro eu experimentei uma sensação de alegria, depois um pouco mais de alegria e, depois mais um pouco. Estou muito contente em ser o primeiro cubano “sato” a ganhar este prêmio . E alegre porque disse às autoridades que se baseia em uma paisagem cubana que é Cojímar, mais ou menos o meu povo. (Segue no vídeo…)

Entrevista de Ernest Hemingway quando ganhou o Nobel de Literatura


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À Sombra de Hemingway

Aos 101 Anos, Gregorio Fuentes, o Pescador retratado em “O Velho e O Mar”, lembra a vida do escritor em Cuba
Especial para O GLOBO · HAVANA – sábado 14/02/1998 – Norma Couri


Fotos de Gregorio Fuentes

O “velho” tem 101 anos. Sobreviveu 40 ao escritor que o imortalizou em dois livros e tornou- se monumento em Cuba. Gregorio Fuentes, pescador solitário, o velho de “O velho e o mar” e o capitão Antonio de “As ilhas da corrente”, é a memória viva para rota dos anos de Ernest Hemingway em Cuba, antes da revolução. De 1938 até o verão de 1960, Gregorio conviveu com o homem grandalhão, briguento, extravagante, caçador, ex-chofer de ambulância na Primeira Guerra e correspondente na Segunda, que foi parar em Cuba arrebatado pela paixão por galos de briga e um desafio: pescar o marlin azul. Por causa de “O velho e o mar”, Hemingway ganhou um Prêmio Pulitzer em 1953 e o Nobel em 54. Hemingway está presente no desenho do boné que Gregorio não tira da cabeça e na fotografia que cobre a parede da pequena casa verde e azul de Cojímar, a dez minutos de Havana, comprada com os US$ 250 mensais que o pescador recebia de “Papa”. – Ele distribuía notas de US$ 50 aos pobres da rua, principalmente quando escrevia 1.500 palavras, o dobro de sua meta de um dia – conta. – Não gosto de americanos, mas matei de sopapo dois fulanos que chamaram “Papa” de mulherengo e bêbado. Cojímar foi cenário de vários contos. “Papa” Hemingway era mulherengo (“Ele gostava das ruivas, de cabelo curto”, revela Gregorio) e tomava pileques históricos. Gregorio viu tudo, mas era cego de admiração por Hemingway, como acontecia com bodegueiros, com prostitutas, com Fidel Castro e com os pescadores de Cojímar, que rasparam o bronze dos próprios barcos para fazer o busto do escritor quando ele morreu, em pleno bloqueio econômico dos anos pós-revolução. Cojímar foi cenário dos contos de Hemingway e de várias edições especiais das revistas “Time”, “Esquire” e “Life” sobre “O velho e o mar”. A dois quilômetros da rua Pajuela, 209, onde mora Gregorio, fica o restaurante La Terraza, com destaque para a mesa onde Hemingway costumava se sentar. Não para comer. – Ele chegava cedo com a Royal portátil, papel de máquina e meia dúzia de lápis número 2 – lembra Gregorio. – Pedia rum Habana Club, uísque White Horse ou Johnnie Walker e, enquanto me aguardava com o copo sempre cheio que levava com ele, bebia em pé, encostado ao balcão. O restaurante fica em frente à praia onde Gregorio ancorava o barco “Pilar”, junto a dezenas de barbatanas secando ao sol. Hemingway ordenava: “Capitão, encarregue-se de prover o departamento etílico!”. – Poucas coisas lhe davam tanto prazer: renunciava a um jantar, nunca a uma garrafa, que agarrava pelo gargalo. “As mulheres, pela cintura”, ensinava. Na época da lei seca, Gregorio conta que Hemingway contrabandeou da Casa Recalt, de Havana, mil caixas de conhaque, cada uma com 24 garrafas que carregava pela praia Jamanitas e trazia a bordo do “Anita”, emprestado pelo amigo Joe Russell, dono de um bar em Key West: – Ele conseguia por US$ 0,40 a garrafa que custava US$ 3,50 nos Estados Unidos. Juntou US$ 4 mil e foi para a África. Gregorio lembra o cotidiano de Hemingway em Cajímar. O escritor americano chegou a cravar um arpão no marlin azul, mas o peixe conseguiu escapar depois de 10 horas de luta. “O velho e o mar” começa com o companheiro de pesca de Santiago oferecendo-lhe uma cerveja no La Terraza. Quando Hemingway e Gregorio brigaram, o escritor lhe ofereceu vários tragos no La Terraza e lhe disse: “Se você não me perdoar vou queimar ‘Pilar’, a casa, vou embora de Cuba e não volto” – No trago, ficou tudo bem – conta Gregorio. Gregorio, o Santiago de “O velho e o mar”, foi o pescador que pegou o castero, nome cubano do marlin azul, também chamado de peixe-agulha. O marlin azul é o maior desafio do pescador, obra de macho. Óbvio, Hemingway era fascinado pelo peixe que fervilhava na zona da corrente do Golfo e resistia até 15 horas ao pescador. Depois, não raro, ganhava. O próprio Hemingway cravou o arpão num deles em Cuba, em 1931, e o peixe escapou depois de dez horas de luta. Gregorio conheceu Hemingway durante uma tempestade. O marinheiro Gregorio nasceu em Lanzarote, nas ilhas Canárias, mas fugiu menino de um barco que passava por Cuba e nunca mais saiu de lá. A descrição de “O velho e o mar” é real: “O velho era magro e marcado por rugas profundas em seu pescoço. As manchas marrons na pele, do câncer benigno que o sol costuma provocar com seus reflexos no mar dos trópicos, se espalhavam por sua face. As manchas corriam por todo o rosto, e as mãos tinham cicatrizes fundas por já terem segurado tanto peixe pesado nas cordas. Mas nenhuma dessas cicatrizes era nova. Todas eram velhas como erosões num deserto sem peixes. Tudo nele era velho, menos seus olhos, que tinham a cor do mar e eram alegres e nunca haviam sido vencidos”. O rosto de Gregorio continua manchado, a pele curtida pelos 70 anos que passou no mar. Já não fuma charutos nem bebe mas – nota-se pelo olhar – ele não foi vencido. – Nós nos encontramos pela primeira vez na Baía de las Tortugas, no Golfo do México, durante uma tempestade tropical. Nossos veleiros se abrigaram no mesmo lugar. Aquele homem imenso gritou que se chamava Ernest Hemingway, que havia partido de Key West oito dias antes e que estava sem combustível e comida. “Estivemos a bordo da embarcação de Gregorio Fuentes com o objetivo de comprar cebolas. Não quis receber dinheiro e ofereceu-nos rum”, Hemingway escreveu em “O grande rio azul”. – Avisei que só não tínhamos gasolina – conta Gregorio. – Ele alertou-me que eram nove pessoas. “Que sejam 20”, respondi, e ofereci comida para todos, deixando duas garrafas de rum nas mãos dele. Hemingway voltou para Key West, e não esqueceu. Dez anos depois apareceu em Cuba, louco atrás de Gregorio. – Mal me encontrou em Cojímar, me convidou para ser o capitão de “Pilar”. Nunca se arrependeu. Anos depois dizia que graças a mim “Pilar” foi salva de três furacões. Ele gostava de escrever a bordo quando nos refugiávamos por até quatro semanas em Cayo Paraíso. Dormia, comia tomava banho de mar, corria nu na praia com a mulher e pescava. Eu cozinhava e, se alguém nos incomodasse, mudava de Cayo. Conhecia aquelas ilhas como ninguém. Depois da sesta, Hemingway escrevia até de manhã. “Pilar” foi o iate que Hemingway construiu depois de “Por quem os sinos dobram”, e sobre o qual navegou em águas cubanas durante a Segunda Guerra, caçando submarinos nazistas. Com o rum de Gregorio e a dica de outro escritor, John Dos Passos, Hemingway chegou em 1928 a Key West, ponta final da Florida, para escrever – de pé – na máquina Royal pela manhã, pescar à tarde e criar 49 gatos nos intervalos. Tinha 29 anos, estava divorciado de Hadley Richardson e casado pela segunda vez com Pauline Pfeiffer, grávida. Planejava ficar 45 dias. Ficou 10 anos. De lá rumou para Cuba, que ficava a 120 quilômetros. Passou seus 22 melhores anos de escritor. Morava a 20 quilômetros de Havana, na casa de Finca Vigía, hoje museu. Em Cuba escreveu vários de seus oito romances – parte de “Por quem os sinos dobram”, “Através do rio, entre as árvores”, “O velho e o mar”, “As ilhas da corrente” e o autobiográfico “Paris é uma festa”. A mulher já era outra, Martha Gelhorn, e foi trocada pela quarta, a correspondente do “Times” em Londres, Mary Welsh, com quem viveu entre cabeças de bichos embalsamadas, cem mangueiras, flamboyants, 57 gatos, muitos cães além das lápides de quatro (Black, Negrita, Linda, Neron) enterrados no quintal e nove mil livros sobre tauromaquia, caça, pesca, artes militares e literatura. Na piscina, Ava Cardner tomou banho nua. A máquina era a Smith Corona portátil. A bebida, uísque, gim, vermute ou rum. Hemingway imortalizou o daiquiri sem açúcar do Floridita, o mojito da Bodeguita del Medio, e Gregorio Fuentes. “You soy tu y ty eres yo”, Gregorio repete as palavras de “Papa”. No seu testamento, Hemingway deixou “Pilar”, avaliado em meio milhão de dólares, para Gregorio – que, depois da morte do patrão, não trabalhou para mais ninguém. “Cuida-te e cuida de ‘Pilar’ como só tu sabes”, disse o escritor antes de ir embora para os Estados Unidos. – Foram as últimas palavras que ouvi dele – diz Gregorio. O escritor definiu o suicídio como a sua morte predileta. Em 1961, com o corpo comido por hepatite, diabetes, hipertensão, sofrendo de impotência, e com a mente tomada pela depressão, pelo terror da perseguição do FBI e pelo bloqueio para escrever, Hemingway manchou a barba branca de pólvora e sangue ao sucumbir à bala da própria carabina de cano duplo que disparou contra a mandíbula – um suicídio cometido num domingo na casa de Ketchum, Idaho, que repetia o de seu pai, seria imitado cinco anos depois pela irmã e, no ano passado, pela neta Margaux. Ele fez de verdade o gesto que costumava fazer de brincadeira, ao definir sua morte predileta. Gregorio permaneceu no porto seguro da sua memória no mar. – Fidel me pediu que contasse as histórias de “Papa” aos estrangeiros que me procurassem, porque ele é o americano mais amado em Cuba – conta. Gregorio também participou da filmagem de “O velho e o mar”, no Peru, e é constantemente consultado por autores de romances, ensaios ou documentários. Dos recuerdos de “Papa”, seu maior orgulho continua sendo aquele que Hemingway deixou no Santuário da Virgem do Cobre, prova maior de gratidão a Cuba e a ele próprio: a medalha do Premio Nobel por “O Velho e o Mar”. O Autor anunciou o suicídio em Cuba. Lançado em 1952, o romance “O velho e o mar” já vendeu cerca de 60 milhões de exemplares nos mais de 40 países em que foi publicado. Só no Brasil foram 500 mil, em 41 edições da Civilização Brasileira, com tradução de Fernando de Castro. O livro valeu a Hemingway o Prêmio Pulitzer em 1953 e teve importância decisiva para o Nobel no ano seguinte. Não é exatamente o livro mais movimentado de Hemingway. A luta do pescador Santiago com o marlin azul consome 100 das 120 páginas do romance. Trata-se de uma luta metafórica, é claro: nas entrelinhas, Hemingway discute o significado da vida e a importância de se ter algo por que valha a pena lutar. Mas o próprio autor se referia com reservas ao livro, na época do lançamento: “Por que alguém se interessaria pela história de um velho fracassado?”, Hemingway se perguntava. “O velho e o mar” ganhou duas adaptações no cinema: a primeira em 1958, dirigida por John Sturges e protagonizada por Spencer Tracy; a segunda, bem inferior, em 1990, com Anthony Quinn no papel principal. Foi em Cuba, onde viveu durante 22 anos, que Hemingway anunciou que ia se matar. Chegou a encenar o gesto para alguns amigos, apoiando o dedão do pé no gatilho de seu fuzil sem balas. Após o estalido, ele sorria e comentava: “O céu da boca é a parte mais suave da cabeça”. (leia aqui: A morte e a ressurreição de Hemingway)


Hemingway velejando e pescando no barco Pilar

Gregorio Fuentes & Heminway
Gregorio Fuentes, o pescador retratado em “O Velho e O Mar”, morreu em 2002, com 104 anos.


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Adaptações de ‘O Velho e O Mar’ e Documentário sobre a vida de Hemingway

O Velho e O Mar
Cenas do filme de 1958, com direção de John Sturges, e Stop-Motion de Marcel Schindler

O Velho e O Mar
O Velho e O Mar (The Old Man and the Sea), curta-metragem de 1999, de Alexander Petrov, baseado no texto homônimo de Ernest Hemingway. Foi indicado e venceu o Oscar de Melhor Curta de Animação de 2000.

Documentário Ernest Hemingway
Dos Rios para o Mar
Documentário contado nas palavras do próprio Hemingway. Extratos das ficções mais famosas do autor, suas memórias em “Paris é uma Festa” são evocados, bem como suas relações pessoais reveladas através de cartas, fotografias e vídeos caseiros. Há ainda entrevistas com pessoas próximas a Hemingway. Como uma colagem lírica, o filme cria um panorama íntimo da vida do escritor. (Prefirimos aqui a versão dublada. A versão legendada se encontra aqui, cujo título é Rios correm para o mar)

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Fontes: 
Site Público / Blog Delito de Opinião / Site História Viva / DCM / Carta Capital / Site Rede Brasil Atual / Público – Coleção Mil Folhas / Blog Raul e a Literatura / DW / Blog La Pluma del Tocororo / Intervox / Clic RBS / SYNAPSE / Blog Robert Lobato
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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
Esse post foi publicado em Cuba, Ernest Hemingway, história. Bookmark o link permanente.

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