O capitalismo segundo Georg Lukács

lukacs

Capitalismo e consciência de classe: as ideias de Georg Lukács
[Capitalism and Class Consciousness: the ideas of Georg Lukács ]
24/8/2010, Chris Nineham,[1] Counterfire – http://goo.gl/HSRauy

Traduzido por
Vila Vudu

“Lukács oferece como exemplo dessa reificação máxima os jornalistas, cujos poderes de empatia, juízos, conhecimentos e expressão são artificialmente separados da personalidade; e que são postos num ‘isolamento’ suposto ‘isento’ antinatural, quando confrontados aos fatos ou eventos que têm de ‘noticiar’. A ‘isenção’ de que os jornalistas fazem meio de vida, a prostituição das próprias experiências e crenças pessoais, só são compreensíveis como apogeu da reificação capitalista.”

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Georg Lukács foi o maior teórico da revolução no século 20. No processo de explicar os princípios da Revolução Russa, Lukács respondeu a algumas perguntas vitais: Como as ideias capitalistas tomam conta de nossa consciência? Em que circunstâncias as pessoas se tornam radicais? E como os socialistas podem construir genuínos movimentos revolucionários de massa?

As ideias revolucionárias de Lukács dos anos 1920s foram reprimidas por Stálin e marginalizadas pela Academia e até por muitos no campo da esquerda. Tiveram uma espécie de vida ‘clandestina’, mas reemergindo sempre que se discutia mudança fundamental. Esse livro é uma introdução às ideias de Lukács e argumenta que elas são crucialmente importantes para explicar e compreender nosso mundo contemporâneo de crises e guerra.


Texto integral (ing.) Capitalism and Class Consciousness: the ideas of Georg Lukacs by Chris Nineham
Excerto de Capitalism and Class Consciousness (aqui traduzido)
Um filósofo ativista

Lukács tornou-se revolucionário e marxista durante a maior onda de luta da classe trabalhadora em toda a história, desencadeada pela Revolução Russa ao final da 1ª Guerra Mundial. Já conhecido como intelectual na Hungria, meses antes de unir-se ao recém criado Partido Comunista da Hungria em dezembro de 1918, descobriu-se de repente como líder, nos eventos que levaram à breve república soviética da Hungria, em 1919. Foi Comissário do Povo para a Educação e por um curto período de tempo, comissário político no front de combate.

A República dos Trabalhadores Húngaros terminou em desastre. Aconteceu assim, como o próprio Lukács reconheceu adiante, porque a República era instável desde o início. O Partido Comunista da Hungria iniciou um insurreição, em fevereiro de 1919, muito antes de ter apoio da maioria dos conselhos de trabalhadores. O levante foi esmagado, quando ficou claro que radicalização de massa jamais seria substituto de preparação política. Ao mesmo tempo, a militância de camponeses e trabalhadores, e a anexação de partes do país por potências estrangeiras, levaram ao colapso do governo burguês, o que gerou um vácuo de poder.

A República Soviética Húngara nasceu em março de 1919, de uma fusão entre os comunistas e o Partido Social Democrático (PSD), partido reformista. A classe governante delegou poderes ao PSD, num derradeiro esforço para salvar o sistema. Lukács e a liderança do Partido Comunista interpretaram a nova aliança de reformistas e revolucionários como uma restauração espontânea da unidade proletária; de fato, como depois se constatou, não passou de receita para confusão e desastre.

Os líderes do Partido Comunista agiram como se estivessem num governo revolucionário, forçando a nacionalização da terra, sem qualquer preocupação com o que pensavam ou desejavam os camponeses; e a maioria dos operários permaneceu sob a liderança do partido reformista. Diante de novos ataques da aliança de poderes contrarrevolucionários, os líderes do PSD logo capitularam; e os comunistas ficaram isolados, sem qualquer apoio. Logo se constituiu um governo reacionário, que desencadeou campanha de terror contra a esquerda, executando mais de 5 mil e expulsando do país dezenas de milhares de militantes.

Lukács escreveu seus trabalhos chaves dos anos 1920s – Lênin: Estudo sobre a unidade de seu pensamento [em espanhol, em Rebelión], História e Consciência de Classe e Em defesa de História e Consciência de Classe: o Seguidismo’ e a Dialética [em espanhol em Libro español] logo depois dessa experiência, enquanto viveu como exilado, em Viena. Hoje se vê com clareza que aquele foi momento decisivo para o movimento socialista. Antes da guerra, o movimento socialista mundial se organizara na II Internacional, cuja completa acomodação no sistema vê-se claramente no apoio que os partidos principais deram à 1ª Guerra Mundial. Os russos bolcheviques puseram-se contra essa traição, e lideraram uma revolução bem-sucedida, que se tornou inspiração para milhões em todo o mundo.

Os dois livros de Luckács, História e Consciência de Classe e Lênin: Estudo sobre a Unidade de seu Pensamento, manifestam o potencial revolucionário do momento, e o medo de que ninguém estivesse cuidando de extrair as lições daquela experiência. Em 1925, quando Lukács escreveu O Seguidismo e a Dialética, havia sinais de que o isolamento da revolução russa estava estimulando uma nova modalidade de fatalismo.

A vida sob o capitalismo

Em História e Consciência de Classe, Lukács discute o papel das instituições do capitalismo, como elementos de mediação. Mas expõe – como resultado da experiência vivida do capitalismo –, a capacidade que essas instituições têm para assegurarem-se a aquiescência dos trabalhadores. Explica também como e por quê essa mesma experiência vivida do capitalismo pode criar oposições.

O ponto de partida de Lukács é o fato de que o capitalismo converte tudo em mercadoria, uma unidade de produto cujo objetivo é gerar lucros para os capitalistas. Lukács argumenta que não é acaso que a mercadoria tenha sido também o ponto do qual Marx partiu, em seus trabalhos principais, quando decidiu “expor a nu a natureza fundamental da sociedade capitalista”:

“O problema das mercadorias não deve ser considerado isoladamente nem considerado problema central só da economia, mas problema central, estrutural, da sociedade capitalista em todos os seus aspectos. Só assim se consegue ver como a estrutura das relações de mercadoria é um modelo para todas as formas objetivas da sociedade burguesa, com todas as formas subjetivas que lhes correspondem ” (Luckács, Hist. e Consc. de Classe).

A produção da mercadoria modela o modo como experienciamos e compreendemos o mundo. Ela reduz qualidade a quantidade e esconde o processo generalizado de exploração num mundo imediato de comprar e vender. Ecoando as palavras de Marx em Capital, Lukács descreveu como a mercadorização tem o efeito de dar às relações entre as pessoas o caráter de coisas: a conversão em mercadoria [a mercadorização] reifica [transforma em coisa] todas as relações.

Nesse processo, as relações adquirem uma ‘objetividade fantasma’ e uma autonomia “que parece tão estritamente racional e extensiva a tudo, a ponto de ocultar todo e qualquer traço da natureza fundamental daquelas relações”. Por isso as mercadorias têm o que Marx chamou de “caráter de fetiche”. Como os fetiches primitivos que os homens criaram e imediatamente passaram a adorar como se fossem deuses, as mercadorias vieram para nos comandar e comandar nossa vida, apesar de serem criadas por nós.

Só se consegue perceber o total impacto desse processo de reificação quando entendemos que a condição essencial para a vitória da forma mercadoria é a transformação do próprio trabalho, também, em mercadoria. Se o valor dos bens será determinado pelo tempo de trabalho necessário para produzi-lo, a força de trabalho tem de ser totalmente integrada nesse sistema racional universalmente quantificado. O trabalhador tem de vender sua força de trabalho, como qualquer outra mercadoria, no mercado.

“Nem objetivamente nem em relação com seu trabalho, o homem aparece como autêntico senhor do processo; ao contrário, ele é uma parte mecânica incorporada num sistema mecânico. O homem descobre que o sistema é pré-existente e autossuficiente, que funciona independente dele, e o homem tem de se conformar às suas leis, goste ou não goste”[Luckács, Hist.e Consc. Classe].

A mercadorização modela o próprio processo físico do trabalho e também a compreensão que temos dele. O trabalho torna-se dominado pela racionalização, uma alta divisão do trabalho, repetição e obsessão com a quantidade, não com a qualidade. O artigo acabado já não parece ser objeto de processo algum. O processo fragmentado de produção do objeto acaba por produzir um sujeito fragmentado:

“À personalidade nada resta, além de olhar desconsoladamente, enquanto sua própria existência é reduzida a uma partícula isolada inserida num sistema alienado” [Luckács, Hist.e Consc. Classe].

A reificação então tem três efeitos que se reforçam mutuamente sobre a consciência. Ela oculta, esconde, as reais relações humanas do capitalismo; faz o sistema parecer como se fosse comandado por uma lógica pré-ordenada, inumana; e faz os trabalhadores sentirem-se sem forças para fazer coisa alguma.

Muitos já observaram que Lukács, pela leitura que faz de Capital, chegou a um conceito quase idêntico à ideia de alienação que aparece em Manuscritos Econômico-filosóficos de Marx, escritos em 1844, mas só publicados em 1932.

Mas Luckács fez mais que isso. Luckács abriu novos caminhos, ao mostrar como a reificação permeia toda a sociedade capitalista e lançou as bases para a primeira “estrutura unificada de consciência na história”. Explorou, inclusive, as implicações disso tudo para a política radical.

Para Lukács, o estado mental gerado pela experiência do trabalho na ponta final da produção capitalista aparece difundido por todas as instituições da sociedade capitalista.

“A atomização dos indivíduos é, então, só o reflexo na consciência do fato de que as ‘leis naturais’ da produção capitalista foram estendidas para cobrir toda e qualquer manifestação de vida em sociedade; que, pela primeira vez na história toda a sociedade é submetida ou tende a ser submetida a um processo econômico unificado; e que o destino de cada membro da sociedade é determinado por leis econômicas unificadas” [Luckács, Hist.e Consc. Classe].

Para Lukács, por exemplo, as burocracias são corolários do sistema das fábricas:

“Burocracia implica ajustamento ao modo de vida de alguém, ao seu modo de trabalhar e, pois, à sua consciência, às premissas socioeconômicas gerais da economia capitalista, semelhante à que se viu no caso do empregado que trabalha para patrão privado. A padronização formal da justiça, do estado, do funcionalismo público etc. significa objetivamente e factualmente uma redução comparável de todas as funções sociais aos seus elementos, uma busca comparável pelas leis racionais formais desses sistemas parciais cuidadosamente segregados” [Luckács, Hist.e Consc. Classe].

Assim, muito mais que nos locais de trabalho que visa ao lucro, também nas instituições de toda a sociedade as tarefas são reduzidas a funções quantificáveis, à taxa de transferência efetiva de um sistema, em processos que ganham autonomia em relação à pessoa, à personalidade e, portanto, em relação à razão/juízo humano. Mesmo para os que lidam diretamente com outros seres humanos, perdeu-se o senso de objetivo mais amplo, e todo o sentido de causa e efeito foi apagado.

Lukács oferece como exemplo dessa reificação máxima os jornalistas cujos poderes de empatia, juízos, conhecimentos e expressão são artificialmente separados da personalidade, e que são postos num ‘isolamento’ suposto ‘isento’ antinatural, quando confrontados aos fatos ou eventos que têm de ‘noticiar’. A ‘isenção’ de que os jornalistas fazem meio de vida, a prostituição das próprias experiências e crenças pessoais, só são compreensíveis como apogeu da reificação capitalista.

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[1] Chris Nineham é membro fundador de Stop the War e Counterfire. É autor de The People Versus Tony Blair e Capitalism and Class Consciousness: the ideas of Georg Lukacs.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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