A direita e o ódio social

Boff 3/4/2015

Leonardo Boff – O Tempo

Como desmontar o ódio social que perpassa a humanidade?

Estamos constatando que vigora atualmente muito ódio e raiva na sociedade pela situação geral de insatisfação que perpassa a humanidade. Nosso mal-estar é singular e deriva das vitórias do PT com suas políticas de inclusão social, que beneficiaram 36 milhões de pessoas e elevaram 44 milhões à classe média. Os privilegiados históricos, as classes alta e média, se assustaram com o pouco de igualdade conseguida por aqueles que estavam fora. O fato é que, por um lado, vigora uma concentração espantosa de renda e, por outro, uma desigualdade social que se conta entre as maiores do mundo. Essa desigualdade, segundo Marcio Pochmann, no segundo volume de seu “Atlas da Exclusão Social no Brasil”, diminuiu significativamente nos últimos dez anos, mas é ainda muito profunda e um fator permanente de desestabilização social.

Como notou bem o economista e analista social (do PSDB) Luiz Carlos Bresser Pereira, tal fato “fez surgir um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo; é ódio”. Estimo correta essa interpretação, que corrobora o que escrevi neste espaço em dois artigos sobre o que se esconde atrás do ódio ao PT.

O problema agora é como desmontar esse ódio. Uma sociedade que deixa esse espírito se alastrar destrói os laços mínimos de convivência, sem os quais ela não se sustenta. Corre o risco de romper o ritmo democrático e instaurar a violência social. Depois das amargas experiências que tivemos de autoritarismo e da penosa conquista da democracia, devemos, por todos os modos, evitar as condições que tornem o caminho da violência incontrolável ou até irreversível.

Em primeiro lugar, faz-se urgente um novo pacto social que vá além daquele criado pela Constituição de 1988, que distribua melhor os ônus da superação da atual crise (que é global) e convoque os rentistas e os ricos, geralmente articulados com os capitais transnacionais, a darem a sua contribuição.

Deve-se mudar não apenas a música, mas também a letra. Em outras palavras, importa pensar mais no Brasil como nação e menos nos partidos, que devem dar centralidade ao bem geral e unir forças ao redor de alguns valores e princípios fundamentais, buscando convergências na diversidade em função de um projeto Brasil viável e que torne menos perversa a desigualdade.

Creio na força transformadora do amor, como vem expresso na oração de são Francisco: “Onde houver ódio, que eu leve o amor”. O amor aqui é mais que um afeto subjetivo. Ele ganha uma feição coletiva e social: o amor a uma causa comum, amor ao povo e à nação etc.

Se não encontrarmos nem escutarmos o outro, como vamos saber o que pensa e pretende fazer? Então, começamos a imaginar e a projetar visões distorcidas, a alimentar preconceitos e destruímos as pontes possíveis que ligam as margens.

Precisamos dar mais espaço a nossa cordialidade positiva (pois há também a negativa), que nos permite sermos mais generosos, capazes de olhar para frente e para cima, e deixar para trás o que ficou para trás, sem deixar que o ressentimento alimente a raiva, a raiva, o ódio, e o ódio, a violência, que destrói a convivência e sacrifica vidas.

As igrejas, os caminhos espirituais, os grupos de reflexão e ação – especialmente a mídia – e todas as pessoas de boa-vontade podem colaborar no desmonte dessa carga negativa. Contamos para isso com a força integradora dos contrários, o espírito criador que perpassa a história e a vida pessoal de cada um.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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