Stiglitz: economias de mercado não produzem ou transmitem conhecimento de forma eficiente

Joseph
Nobel de Economia, o norte-americano Joseph Stiglitz é professor da Columbia University. Autor da obra A globalização e seus malefícios, acaba de lançar o livro Creating a learning society – a new approach to growth, development, and social progress, escrito em parceria com o economista Bruce C. Greenwald.

Fronteiras do pensamento

No livro, os autores explicam porque a produção de conhecimento difere da produção de bens de consumo e porque as economias de mercado não produzem ou transmitem conhecimento de forma eficiente. Para eles, a divisão entre países desenvolvidos e não desenvolvidos não é apenas um gap de recursos ou produção, mas sim um gap de conhecimento. A velocidade de desenvolvimento de um país seria, portanto, medida pelo ritmo com que este abismo do conhecimento é fechado. Os autores sustentam que fechar os gaps de conhecimento e ajudar aqueles com dificuldade de aprendizado são elementos centrais para o crescimento e desenvolvimento de uma nação.

Leia abaixo o artigo homônimo à obra de Stiglitz, Creating a learning society, para o Projeto Syndicate:

Os cidadãos dos países mais ricos do mundo passaram a pensar suas economias enquanto economias baseadas em inovação. Mas a inovação tem sido parte da economia do mundo desenvolvido por mais de dois séculos. De fato, por milhares de anos, até a Revolução Industrial, as rendas estagnaram. Então, a renda per capita subiu cada vez mais ano após ano, interrompida unicamente pelos efeitos ocasionais de flutuações cíclicas.

O Prêmio Nobel em economia Robert Solow observou, por volta de 60 anos atrás, que as rendas em elevação deveriam ser atribuídas, principalmente, não à acumulação de capital, mas ao progresso tecnológico – em aprender como fazer melhor as coisas. Enquanto parte da elevação da produtividade reflete o impacto de descobertas dramáticas, muito dela tem se dado devido a mudanças pequenas e graduais. E, sendo esse o caso, faz sentido focar a atenção em como as sociedades aprendem – incluindo como elas aprendem a aprender.

Um século atrás, o economista e cientista político Joseph Schumpeter afirmou que a virtude principal de uma economia de mercado era a sua capacidade de inovar. Ele sustentou que o enfoque tradicional dos economistas nos mercados competitivos era equivocado; o que importava era a competição para o mercado, não a competição no mercado. A competição para o mercado impulsionou a inovação. Uma sucessão de monopolistas levaria, segundo ele, a maiores padrões de vida em longo prazo.

As conclusões de Schumpeter não passaram incontestadas. Monopolistas e empresas dominantes, como a Microsoft, podem, de fato, suprimir a inovação. A não ser que geridas por autoridades antitruste, elas podem desenvolver um comportamento anticompetitivo que reforça o seu poder de monopólio.

Além disso, os mercados podem ser ineficientes seja em relação ao nível ou à direção dos investimentos em pesquisa e aprendizado. Incentivos privados não são bem alinhados com benefícios sociais: empresas podem ganhar com inovações que aumentem o seu poder de mercado, possibilitando-lhes contornar regulamentos, ou canalizar rendas que poderiam de outra forma ir para outros.

Mas uma das ideias fundamentais de Schumpeter se manteve atual: políticas convencionais focadas em eficiência em curto prazo podem ser indesejáveis, caso se tome uma perspectiva de inovação/aprendizado em longo prazo. Isso é especialmente verdadeiro para países em desenvolvimento e mercados emergentes.

Políticas industriais – nas quais governos intervêm na alocação de recursos entre setores ou favorecem algumas tecnologias em vez de outras – podem auxiliar “economias lactentes” a aprender. A aprendizagem pode ser mais acentuada em certos setores (tais como a manufatura industrial) do que em outros, e os benefícios dessa aprendizagem, incluindo o desenvolvimento institucional necessário ao sucesso, podem se derramar sobre outras atividades econômicas.

Tais políticas, quando adotadas, têm sido frequente alvo de críticas. Diz-se muito que o governo não deveria se envolver na escolha de vencedores. O mercado é mais eficiente no que se refere a fazer tais julgamentos.

Mas a prova disso não é tão convincente quanto afirmam os defensores do livre-mercado. O setor privado dos EUA foi notoriamente infeliz em alocar capital e gerir risco nos anos que antecederam a crise financeira global, enquanto estudos mostram que os retornos médios à economia provindos de projetos de pesquisa governamentais são de fato mais elevados do que os relativos a projetos do setor privado – especialmente porque o governo investe mais fortemente em pesquisas básicas importantes. É apenas necessário que se observe os benefícios sociais resultantes das pesquisas que levaram ao desenvolvimento da internet ou à descoberta do DNA.

Mas, colocando de lado tais histórias de sucesso, o objetivo da política industrial não é escolher vencedores. Em vez disso, políticas industriais de sucesso identificam as fontes de efeitos externos positivos – setores onde o aprendizado pode gerar benefícios em outros aspectos da economia.

Ao se observar as políticas econômicas através das lentes da aprendizagem, proporciona-se uma perspectiva diferente em relação a diversas questões. O grande economista Kenneth Arrow enfatizou a importância do aprender fazendo. A única forma de se aprender o que é necessário para o crescimento industrial, por exemplo, é ter indústria. E isso pode exigir que fique assegurado que a taxa de câmbio seja competitiva ou que certas indústrias tenham acesso privilegiado ao crédito – assim como vários países do leste asiático fizeram como parte de suas notavelmente bem-sucedidas estratégias de desenvolvimento.

Há um convincente argumento de economia nascente para o protecionismo industrial. Além disso, a liberação do mercado financeiro pode vir a prejudicar a habilidade dos países de aprender um novo conjunto de habilidades que são essenciais ao desenvolvimento: como alocar recursos e gerir risco.

Da mesma forma, a propriedade intelectual, se não for projetada corretamente, pode ser uma faca de dois gumes quando vista sob a perspectiva do aprendizado. Enquanto ela pode aumentar incentivos para o investimento em pesquisa, ela também pode aumentar os incentivos para a confidencialidade – impedindo o fluxo de conhecimento que é essencial ao aprendizado enquanto encoraja empresas a maximizarem o que colhem do conjunto de conhecimento coletivo e a minimizarem sua contribuição. Nesse cenário, o ritmo da inovação é, de fato, reduzido.

Mais amplamente, muitas das políticas (especialmente aquelas associadas ao “Consenso de Washington” neoliberal) impostas aos países em desenvolvimento com o nobre objetivo de promover a eficiência da alocação de recursos, nos dias de hoje, acabam impedindo o aprendizado e, assim, levando a padrões de vida mais baixos em longo prazo.

Virtualmente, toda a política de governo, intencionalmente ou não, para melhor ou para pior, tem efeitos diretos ou indiretos na aprendizagem. Países em desenvolvimento onde os formadores de políticas são cientes de tais efeitos têm mais propensão a diminuir o vão de conhecimento que os separa dos países mais desenvolvidos. Países desenvolvidos, enquanto isso, têm a oportunidade de diminuir o vão entre a média e as melhores práticas, e evitar o perigo da estagnação secular.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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