Pepe Escobar na República Popular em luta de Donets

Uivo em Donetsk

Uivo em Donetsk. 21912.jpeg

Estou chegando da República Popular em luta de Donetsk. Volto pois à esplêndida arrogância e insolência do OTANstão. Muita gente – no Donbass, em Moscou e agora na Europa – quis saber o que mais me abalou em toda a visita. Poderia começar parafraseando Allen Ginsberg em Uivo – “Vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura”. Mas eram os anos da Guerra Fria, meados dos anos 1950s. Agora estamos na Guerra Fria 2.0 do início do século 21. Assim sendo, o que vi foram os horrendos efeitos colaterais das piores cabeças da minha geração – e de mais uma geração subsequente – corroídas pela loucura (da guerra). Vi refugiados no lado russo da fronteira, a maioria famílias da nossa classe média europeia, cujos filhos, quando entraram pela primeira vez no abrigo antibombas, corriam para baixo das mesas, quando ouviam barulho de avião no céu. Vi o Dylan de Donetsk encolhido em seu quarto numa antiga moradia de veteranos convertida em abrigo para refugiados, que, para enfrentar a tristeza e a desesperança, canta cantos de amor e heroísmo. O Dylan de Donetsk Imagem em http://atimes.com/wp-content/uploads/2015/03/The-Dylan-of-Donetsk.jpg Vi famílias inteiras amontoadas em abrigos antibombas completamente decorados da era soviética, assustados demais para sair à rua durante o dia, traumatizados pelos bombardeios orquestrados pelas “operações antiterroristas” de Kiev. Abrigo antibombas, da era soviética Vi uma cidade moderna, industrial, de muito trabalho, esvaziada, pela metade, no mínimo, e parcialmente destruída, mas nem por isso curvada, ainda capaz de sobreviver das próprias entranhas e do próprio talento, com pequena ajuda dos comboios humanitários russos. Vi belas moças conversando ao pé da estátua de Lênin numa praça central, lamentando que só tivessem, para ir, festinhas familiares nas casas umas das outras, porque a vida noturna morreu e “estamos em guerra”. Moças de Donetsk, junto à estátua de Lênin Vi praticamente todo o bairro de Oktyabrski próximo ao aeroporto bombardeado como Grozny e praticamente deserto, exceto por algumas poucas babushkas solitárias e sem ter para onde ir, orgulhosas demais para abandonar as fotos de família de heróis da 2ª Guerra Mundial. Bairro de Oktyabrski, bombardeado até virar ruína

Vi postos policiais de controle, como se estivesse em Bagdá na ‘avançada’ de Petraeus. Vi o principal médio traumatologista no principal hospital de Donetsk confirmar que não houve nenhuma ajuda da Cruz Vermelha nem qualquer ajuda humanitária internacional para o povo de Donetsk. Hospital de Oktyabrski, bombardeado
Imagem em http://atimes.com/wp-content/uploads/2015/03/Oktyabrski-neighborhood-bombed-hospital-in-the-background.jpg
Vi Stanislava, das melhores e mais experientes atiradoras de precisão da República Popular de Donetsk, encarregada de nossa segurança, chorar ao depor uma flor no local de batalha feroz, na qual o grupo dela esteve sob fogo pesado, 20 soldados gravemente feridos e um morto, e ela foi ferida por estilhaços, mas sobreviveu. Vi igrejas ortodoxas completamente destruídas pelas bombas de Kiev.
Vi a bandeira russa ainda no topo de um prédio anti-Maidan, que é agora a Casa do Governo da RPD. Vi a fulgurante arena do Donbass, casa do time de Shaktar Donetsk e como OVNI numa cidade em ruínas, vazia, sem vivalma nas arquibancadas. Vi a estação de trens de Donetsk, bombardeada pelos bandidos de Kiev.
Vi um mendigo sem-teto gritando “Robert Plant!” e “Jimmy Page!” e quando descobri que ele continuava apaixonado por Led Zeppelin e guardava os vinis. Vi uma pilha de livros jamais derrotados ou rendidos por trás do vidro quebrado de janelas bombardeadas em Oktyabrski. Vi os túmulos recentes onde a República Popular de Donetsk enterra os heróis de sua resistência.
Vi o topo da colina em Saur-mogila que a resistência da RPD perdeu e depois reconquistou, e aquela solitária bandeira vermelha-branca-azul que lá tremula ao vento. Alto da colina em Saur-moglia
Imagem em http://atimes.com/wp-content/uploads/2015/03/Top-of-the-hill-at-Saur-mogila.jpg
Vi o Super-homem erguendo-se da destruição em Saur-mogila – a estátua tombada num monumento aos heróis da 2ª Guerra Mundial, que 70 anos atrás combatia o fascismo e agora foi ferido, mas não destruído, por fascistas. Estátua do super-homem erguendo-se da destruição, em Saur-mogila
Imagem em http://atimes.com/wp-content/uploads/2015/03/The-superman-rising-from-the-destruction-at-Saur-mogila.jpg
Vi o caldeirão de Debaltsevo ao longe, e pude ver, na geografia, como as táticas da RPD cercaram e esmagaram os desmoralizados combatentes de Kiev. Vi os militares da RPD em manobras ao lado da estrada, de Donetsk a Lugansk. Vi o ministro de Relações Exteriores da RPD, esperançoso de que haja solução política, em vez de guerra, e admitindo que ele, pessoalmente, sonha com uma RPD como nação independente. Vi dois comandantes cossacos casca grossíssima, que me disseram, numa fazenda de criação de cavalos na terra santa dos cossacos, que a verdadeira guerra ainda nem começou.
Não pude ver o aeroporto de Donetsk totalmente destruído, porque os militares da RPD estavam muito preocupados com nossa segurança e não concordaram com nos dar autorização para aquela área, porque o aeroporto ainda está sendo bombardeado – como desafio contra Minsk-2; mas vi a destruição e a pilha de cadáveres de soldados do exército ucraniano no telefone celular de um combatente sérvio da resistência na RPD.
Não vi – nem os observadores internacionais da Organização para Segurança e Cooperação na Europa tampouco viram -, as colunas e mais colunas de tanques e soldados russos que o “Dr. Fantástico” atualmente de plantão na OTAN, o generalBreedlove, digo, Breed-ódio, vê todos os dias em seus sonhos alucinados de ‘Rússia-invadiu-Ucrânia’, que se repetem sem parar.
E não vi a arrogância, a ignorância, a pouca-vergonha e as mentiras que distorcem todas as caras manicuradas em Kiev, Washington e Bruxelas, que só fazem repetir, e repetir, e repetir, que toda a população do Donbass, babushkas e crianças traumatizadas incluídas, não passariam de “terroristas”. Afinal, são a “civilização” ocidental – covardes bem equipados que não se atrevem nem a mostrar as suas caras sujas, ao povo do Donbass. Esse então é o meu presente para eles. Um uivo de raiva e meu ilimitado desprezo

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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