Cinema: a obra progressista de Roberto Rossellini

“Ver os filmes de Rossellini ajuda a perceber de onde vimos”

Apresentou em Lisboa uma das sessões do programa dedicado a Roberto Rossellini, no Espaço Nimas. Conversou com o PÚBLICO sobre as suas memórias do trabalho com o pai, os filmes “realizados verdadeiramente a quatro mãos”, como O General della Rovere, Ou do projecto de um épico para “dar a conhecer o mundo islâmico”.

Renzo Rossellini, nascido em 1941, fruto do segundo casamento de Roberto Rossellini (com a figurinista Marcella de Marchis) não é só o “filho de Rossellini” mas porventura a pessoa que, durante mais tempo e mais directamente, colaborou com ele.

Depois da morte do pai, em 1977, construiu uma carreira como produtor, tendo trabalhado ainda com alguns outros grandes nomes do cinema italiano, como Michelangelo Antonioni (em Identificação de uma Mulher) ou Federico Fellini (em O Navio). Em Lisboa para acompanhar o lançamento da “operação Rossellini” que traz de novo aos ecrãs nacionais (Espaço Nimas até, pelo menos, 29 de Abril; no Porto, chegarão ao Tetro Municipal do Campo Alegre no dia 9 de Abril), dez filmes do lendário cineasta em cópias novas digitais, conversou com o PÚBLICO sobre as suas memórias do trabalho com o pai: os casos filmes “realizados verdadeiramente a quatro mãos”, como O General della Rovere (1959) – depois do Leão de Ouro em Veneza o pai ofereceu o prémio ao filho – ou do projecto, que a morte de Rossellini não deixou concretizar, de um épico para “dar a conhecer o mundo islâmico. E de o conhecer melhor ele também, porque para ele o cinema era sobretudo um instrumento de conhecimento”.

Não é só o filho de Roberto Rossellini, mas alguém que foi um dos seus colaboradores mais próximos…
…desde 1957…

…até à morte dele, em 1977. Foram vinte anos de trabalho. Como começou a trabalhar com o seu pai?
Foi algo de muito natural. Como acontece com muitos pais, ele quis ensinar-me o seu ofício. Mas o seu ofício tal como ele o entendia e como ele o queria. De modo que, muito naturalmente, desde muito jovem me vi envolvido no cinema e no trabalho do meu pai.

A que ponto é que se envolvia? Ele discutia consigo os projectos, as ideias?
Depende. Nalguns casos sim. Mas dum modo geral as minhas funções eram muito práticas. Ele entregava-me sobretudo tarefas de organização. A gestão do plateau, a supervisão da iluminação, as relações com os actores, por exemplo.

Mas nalguns casos, como na grandes séries televisivas que o seu pai concebeu (A Idade do Ferro ou A Luta do Homem pela sua Sobrevivência), foi o senhor o realizador efectivo, não é verdade?
Sim. Mas houve casos de filmes realizados verdadeiramente a quatro mãos. O General della Rovere (1959), por exemplo. Foi uma rodagem muito rápida, por imperativos de produção, e era preciso avançar muito depressa. Então o meu pai rodou todas as cenas com o protagonista (Vittorio de Sica) e eu dirigi as cenas em que de Sica não estava presente. O filme depois foi a Veneza e ganhou um Leão de Ouro. O meu pai ofereceu-me o Leão, tenho-o em minha casa.

Há um filme sobre a obra televisiva do seu pai (L’Ultima Utopia, de Adriano Aprá) em que o senhor conta um episódio divertido e significativo sobre a sua colaboração com ele. A história daquele plano que rodou para A Tomada do Poder por Luís XIV(1966)…
Ah sim. O filme foi rodado numa altura em que a minha irmã Isabella estava doente, ia ser operada, e o meu pai passava muito tempo com ela. Incumbiu-me de filmar a última cena, aquela que mostra a refeição do rei. Era um plano muito complicado, pela questão do espaço e da quantidade de figurantes. E filmei-o recorrendo a um movimento de grua, que era um procedimento que o meu pai não apreciava e nunca utilizava, mas suficientemente disfarçado para parecer um travelling normal. Fiquei sempre à espera que ele me repreendesse, mas acho que nunca percebeu o que eu realmente fiz nesse plano…

Quando há dias esteve na Cinemateca a apresentar India, mencionou que o último projecto do seu pai era uma espécie de grande fresco, em cinco episódios, sobre o Islão. Ele deixou o projecto acabado?
Sim. Ele acreditava – e estávamos em 1977 – que a pouco e pouco se iam reunindo as condições para que se viesse a repetir uma predisposição genocida em grande escala, agora com os muçulmanos como alvo. Então pensou nessa série como uma maneira de dar a conhecer o mundo islâmico. E de o conhecer melhor ele também, porque para ele o cinema era sobretudo um instrumento de conhecimento.

Mas não passou dessa fase de projecto?
Não. Quando ele morreu [de ataque cardíaco, em 1977, com 71 anos] estava a dias de começar rodagem de mais um filme histórico, centrada na figura do jovem Karl Marx, que se chamava Trabalhar para a Humanidade, título de um trabalho universitário de Marx. Esse projecto sobre o Islão fi-lo publicar. Hoje em dia era impossível convencer uma televisão a financiar uma série sobre a compreensão do Islão. Chamavam logo a polícia…

O seu pai foi um homem do século XX, e a obra dele, por razões históricas e intelectuais, está muito ligada a momentos e a preocupações desse século. Que acha que a obra de Roberto Rossellini pode dizer aos espectadores de hoje, 15 anos pelo século XXI adentro?
O meu pai dizia muitas vezes: “quando não sabes para onde hás-de ir, lembra-te de onde vens”. A obra dele representa uma grande preocupação de compreensão. De compreensão do momento presente e de compreensão da História. Penso que ver os filmes dele ajuda a perceber de onde vimos. Ele detestava em absoluto o cinema como coisa distractiva. Deve ter sido o único realizador do mundo que nunca filmou, por exemplo, uma mulher nua…

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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