EUA retiram vistos de funcionários de Honduras

Por Pablo Calvi, de Nova York, na Terra Magazine

Um mês após o golpe que derrocou o presidente hondurenho Manuel Zelaya, o governo dos Estados Unidos enviou uma mensagem muito forte ao governo de fato encabeçado por Roberto Micheletti ao retirar os vistos diplomáticos de quatro dos seus funcionários. Segundo fontes do governo interino hondurenho, nenhum dos afetados está nos Estados Unidos, e dois dos vistos retirados correspondem ao juiz da Corte Suprema de Honduras, Tomás Arita, que ordenou a detenção de Zelaya no dia 28 de junho, e ao presidente do Congresso hondurenho, José Alfredo Saavedro.

“É uma boa medida”, disse na conversa exclusiva com Terra Magazine o embaixador de Honduras na OEA, Carlos Sosa Coello. “Quem conhece os hondurenhos sabe que estes golpistas são pessoas que por múltiplas razões têm certa fascinação por Miami”, disse. “É um tipo de fascinação que muitas das classes poderosas têm na América Latina e embora a remoção dos seus vistos pareça, para qualquer observador, algo irrelevante, para estas pessoas é muito doloroso não poder ir a Miami para comprar bobagens. Conhecendo a idiossincrasia destes senhores de lá, esta medida é algo que os afeta e os assusta, pois como cresceram com uma espécie de tropismo positivo com relação aos Estados Unidos, ficar sem o visto é quase fatal para eles”, acrescentou.

A medida da qual o presidente deposto vem reclamando a mais de uma semana, junto com o endurecimento da posição norte-americana diante do golpe, caiu como um balde de água fria sobre os setores de Washington, que impulsionam uma conciliação com o governo interino em Honduras. Segundo peritos, Micheletti, quem na segunda-feira assinou um artigo no jornal Wall Street Journal, no qual explicava as oito razões pelas quais os seus partidários não consideram que a saída de Zelaya tenha constituído um golpe de estado, deverá revisar a sua estratégia imediatamente, antes de esgotar os caminhos do diálogo.

“O raciocínio de Micheletti — no seu artigo do Wall Street Journal — é uma aberração jurídica”, garantiu a Terra Magazine José Miguel Vivanco, diretor da Human Rights Watch Americas. “Ali evidentemente aconteceu um golpe de estado; não há constituição democrática no mundo que autorize o exército a deter na madrugada o presidente e tirá-lo à força do país. Isso é um golpe, é um ato de insubordinação dos militares diante do governo democrático e civil”, disse.

Segundo Vivanco, a posição do governo de Obama se manteve firme no último mês em apoio ao governo de Zelaya. E a reação de hoje constitui uma primeira chamada séria a Micheletti para que volte à mesa de negociações moderada pelo presidente costarriquenho Oscar Arias.

A retirada dos vistos responde, segundo Sosa Coello, a um pedido expresso do presidente Zelaya: “Nós pedimos ao departamento de Estado que implemente medidas pontuais. O cancelamento dos vistos é um exemplo, mas também pedimos o congelamento das contas destes senhores golpistas”, revelou o funcionário. “Estes senhores devem sentir que a responsabilidade histórica na que incorreram é de caráter pessoal e não de caráter institucional. Estes senhores são delinquentes dessa constituição de maneira pessoal. São eles os delinquentes e não as forças armadas nem o congresso hondurenho como um todo. Os golpistas têm nome e sobrenome: Romero Vásquez e Roberto Micheletti. E isso tem que ser assim considerado pela comunidade internacional”, acrescentou o funcionário.

De acordo com o politólogo e professor da New York University Patricio Navia, a medida de ontem é a primeira de uma série de ações de média intensidade que o governo norte-americano começava a implementar para exercer cada vez mais pressão sobre o cargo de Micheletti.

“Eu acho que os Estados Unidos ainda estão firmes atrás da idéia de que Zelaya deve voltar ao poder, e de não reconhecer o governo de fato”, disse o perito que também concorda com os que afirmam que as explicações no artigo que Micheletti assinou no Wall Street Journal não condizem com os fatos. “Foi um golpe de estado e ponto, o caso é que não creio que os Estados Unidos possam fazer mais que simplesmente não reconhecer o governo, retirar os vistos e implementar algumas sanções econômicas pontuais. Não vão invadir Honduras para colocar novamente Zelaya no seu lugar”, acrescentou Navia.

No entanto, segundo o analista a medida de retirar os vistos é exemplar, pois abre uma vez mais a oportunidade para que o governo norte-americano sinta o precedente de que os golpes de estado não são aceitáveis na América Latina.

“A situação para nós é clara”, disse Sarah Mangiaracina, porta-voz do Departamento de Estado no diálogo com Terra Magazine. “O que buscamos é a restauração pacífica da ordem constitucional em Honduras e estamos urgindo às partes a que considerem o plano que colocou sobre a mesa o presidente costarriquenho Oscar Arias na semana passada. É um bom plano e achamos que as partes deveriam aceitá-lo para dar um passo à frente”, acrescentou.

De acordo com o embaixador hondurenho, Zelaya retornaria a Washington nesta sexta-feira e haveria possibilidades de que se reunisse com a Secretária de Estado Hillary Clinton nesse mesmo dia à tarde.

“Quando o presidente decidir voltar a Washington nós abriremos as portas para continuar o diálogo com ele”, acrescentou Mangiaracina.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
Esse post foi publicado em América Latina, Estados Unidos e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s