Juros: um tigre no Banco Central

aaaaaaaatigreorkutOs dados do último boletim Focus, do Banco Central, revelam que na equipe econômica falta convicção política para desatar os nós existentes — representados pela política monetária conservadora. E não há espaço para uma análise crível da situação atual, para prever os cenários futuros e operar as profilaxias necessárias. Existe uma  pasmaceira, típica de um ambiente medíocre e amedrontado.

Por Osvaldo Bertolino

A política monetária brasileira sempre foi um nó górdio no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Todas as tentativas de enfrentar o totalitarismo do ”mercado” não deram bom resultado. O escopo do Estado foi aumentado, mas os ”analistas de mercado” — uma meia-dúzia de funcionários das instituições financeiras que é semanalmente consultada pelo Banco Central (a pesquisa publicada no boletim Focus, que apura as ”previsões” de instituições do ”mercado” para diversas variáveis macroeconômicas) — continuam ditando o ritmo da macroeconomia brasileira.

Nesta semana, os dados do Focus voltaram a mostrar a tradicional sintonia do Banco Central com o seu catecismo. Os “analistas do mercado” disseram que que não haverá mais cortes na taxa básica de juros, a Selic, neste ano — previsão que deve ser confirmada na próxima quinta-feira, quando o Banco Central divulga a ata da reunião do colegiado da semana passada com justificativas para a decisão tomada, indicação da atuação futura e análise do cenário econômico. Mas essa não é a pior das “previsões”.

Todos contra um

Para 2010, os “analistas de mercado” dizem que o Copom pode aumentar a taxa básica, que deve chegar ao fim do ano em 9,25%. Estas cartomancias são baseadas nos fundamentos do Banco Central, que manipula a Selic ao sabor das metas de inflação fixada pelo petit-comite que controla o Conselho Monetário Nacional — que, por sua vez, é controlado pelo esquema do Banco Central. A própria dinâmica da inflação é “prevista” pelos “analistas de mercado”, que manipulam os dados de acordo com os interesses do setor financeiro.

A maioria do governo sempre identificou na raiz do crescimento sofrível do PIB a alta taxa básica de juros. Isso fez de Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, protagonista de uma espécie de gincana ao estilo ”todos contra um”. Até o ministro da Fazenda, Guido Mantega, é um crítico contumaz do conservadorismo monetário do Banco Central. Meirelles tem se sustentado no cargo porque, com o auxílio inestimável da mídia, consegue combinar o gosto pelo comando com o amor à manobra.

Questão ideológica

Ele é perspicaz, furtivo, orgulhoso e solitário. No mundo dos predadores, seria um tigre. Meirelles não deixa de abrir atalhos com as próprias mãos para fugir dos críticos à sua política e encontrar alternativas para caminhar rumo ao seu objetivo, mesmo por rotas tortuosas. Como trata de enorme quantidade de assuntos, a rede de atalhos do presidente do Banco Central se transformou em um labirinto subterrâneo, cujo domínio exclusivo lhe pertence.

No fundo, a questão é ideológica. Mairelles não está no comando do Banco Central há tanto tempo por ignorância de alguém. A ignorância pode ser bem-intencionada, santificada mesmo, como dizia Nelson Rodrigues. Não confundi-la com a ideologia é um ato de prudência. Ignorar é não saber alguma coisa. Ideologia é fazer uma opção sabendo a diferença entre o certo e o errado para uns e para outros. A política do Banco Central é baseada em uma ideologia conservadora, que nada tem de santificada, sustentada por uma cruzada folhetinesca — como é o caso do boletim Focus e sua repercussão na mídia.

Capinzal seco

O mínimo que se pode cobrar em troca é que os defensores dessa posição conservadora apresentem pelo menos um (unzinho) argumento lógico capaz de explicá-la como benéfica para o país. Sentido estratégico? Não é. Base para o crescimento sustentado? Também não é. O cidadão brasileiro que não tem acesso aos benefícios da ciranda financeira é tão beneficiado por essa política quanto um cidadão somali.

Meirelles vive dizendo que o Brasil não pode abrir mão das ”conquistas” da ”estabilidade monetária”. Que tal ele mostrar com números críveis o que são essas ”conquistas” e por que os juros precisam ser tão altos para mantê-las? Mais: conquistas para quem? A verdade é que dessa política monetária não se pode esperar nada de bom para o país. Ela é como um capinzal seco — além de não produzir coisa alguma, uma faísca pode gerar um incêndio de grandes proporções. O que talvez não fosse uma idéia de todo má. Ao menos espantaria o tigre.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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