Milton grava novo CD com músicos mineiros

Em 1977, quando chamou os amigos para fazer o Show do Paraíso numa fazenda, Milton Nascimento queria “colocar Três Pontas no mapa”.

Agora é ele quem se recoloca musicalmente na cidade mineira onde viveu a infância e a adolescência. Milton está gravando o novo CD com vários músicos jovens da cidade, onde montou um estúdio (no teatro do Centro Cultural Milton Nascimento) e chamou o trespontano Wagner Tiso, antigo parceiro de Clube da Esquina, para coproduzir o álbum com ele e Marco Elizeo.

Entre os dias 10 e 13 de setembro, Tiso e Milton serão homenageados no Festival Música do Mundo, que alude ao Show do Paraíso, como se fosse uma espécie de retribuição à visibilidade que ele deu a Três Pontas. Se em 1977, naquele que ficou conhecido na mídia como o “Woodstock mineiro”, Milton teve a companhia de Chico Buarque, Clementina de Jesus, Fafá de Belém e Gonzaguinha, agora conta com o britânico Jon Anderson (ex-vocalista do Yes), o baiano Tom Zé, os mineiros Toninho Horta e Wilson Sideral, o francês Didier Lockwood, o paulista Ricardo Herz e o grupo uruguaio Ritual, entre outros.

Estes não são os únicos projetos envolvendo o compositor. Tempos atrás ele foi procurado pelo diretor Gulu Monteiro (brasileiro que mora em Los Angeles) com o pedido de autorização para filmar um roteiro baseado na letra da canção Morro Velho, um de seus mais belos clássicos, em que assina música e letra. “Disse a ele que permitia, mas queria também trabalhar na trilha sonora, não ser apenas o cara que fez a música principal do filme. Ele topou e me disse que seria uma honra. Para mim também é”, diz Milton.

Com a francesa Clara Bellar (de Inteligência Artificial), casada com Monteiro, e Rodrigo Santoro no elenco, o filme já está em andamento.

A gravação de Morro Velho que provavelmente vai entrar na trilha é a que Milton realizou com a dupla Lionel e Stéphane Belmondo, com arranjo de jazz sinfônico e, segundo Milton, Clara gostou muito. O CD foi lançado este ano no Brasil.

Além do filme de Monteiro, há um documentário sendo feito na França, sobre as participações de Milton no exterior, por uma brasileira que vive lá.

Foi também por mais uma dessas iniciativas estrangeiras que Milton, indiretamente, retornou à cena musical de Três Pontas. Mais precisamente o livro The Billboard Book of Brazilian Music: Samba, Bossa Nova and the Popular Music of Brazil, de Chris McGowan e Ricardo Pessanha. “Quando vi que sobre a música de Minas tinha Belo Horizonte e uma estradinha ligando a Três Pontas fiquei preocupado. Porque Três Pontas sempre foi visitada por japoneses, noruegueses, que vão lá em casa. Lendo aquilo no livro eles iriam querer ouvir uma música que não tem lá. Só que eu estava enganado”, conta.

Milton, que nasceu e mora no Rio, viaja regularmente à cidade para visitar família e amigos, mas ficou muito tempo “sem participar das coisas”, portanto, “não conhecia a maioria do pessoal novo de lá”.

Até que um dia o músico Marco Elizeo (integrante do grupo Änïmä Minas) armou um encontro com ele e 15 desses músicos, sem que ambas as partes soubessem, num restaurante isolado à beira de uma estrada.

“Eles começaram a tocar muito bem rocks que a gente adorava, Jethro Tull, Pink Floyd. Aquilo mexeu comigo. No dia seguinte, quando Marte ia se aproximar da Terra, fomos para outro encontro numa fazenda, com mais 15 pessoas tocando MPB, fazendo coral, vocal. Eu disse, mas o que é isso? No dia seguinte conheci mais um cantor e um pianista num bar.”

Elizeo virou o porta-voz de Milton junto aos jovens músicos.

“Tinha ideia de que eles participassem de uma ou duas faixas do meu próximo CD, mas na verdade eu queria fazer um disco inteiro. Só não falei porque essas coisas a gente tem de fazer com calma”, ensina o cantor e compositor. O projeto, enfim, agora se realiza. Milton, Tiso e Elizeo montaram um estúdio em Três Pontas para as gravações com os que permaneceram pela região. Outros estão gravando no Rio. “É tanta gente que não consigo lembrar os nomes de todos”, diz Milton.

“O CD vai ter música de um deles, músicas de outros que todos gostamos e composições minhas também.”

A primeira gravação dessa turma com Milton entrou como faixa bônus do DVD Pietà, como forma de cortesia a um outro músico brasileiro, admirador seu, Lenine, que deixou Milton muito comovido (e encabulado) num show em Roma.

“Ele começou a falar que aquela noite era especial, porque ele sempre falava de uma pessoa no Brasil e que pela primeira vez ele ia falar para essa pessoa. Disse coisas lindíssimas, cantou uma música e dedicou a mim. Sabe aquele bicho que enfia a cabeça, avestruz? Eu me senti esse bicho, de vergonha”, brinca Milton.

“Quis retribuir Lenine com uma coisa que me emocionasse também. Tinha acabado de conhecer a moçada de Três Pontas. Fizemos uma surpresa para ele e o chamei para participar da gravação, com 20 violões tocando ao mesmo tempo.”

A informação é da Agência Estado

 

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
Esse post foi publicado em Cultura e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s