Glênio Sá: O tempo passa, mas a memória permanecerá viva em nossos corações!

aaaaaaaaglenioPor Jana Sá*

Escrevo hoje com a mesma dor de quem escreveu em seu diário há 19 anos: Painho, agora que sei que sua casa é no céu, queria pedir para jogar uma estrela como presente. E porque não dizer com a mesma saudade. Como define Pablo Neruda, a saudade é amar um passado que ainda não passou e recusar um presente que nos machuca.

A única diferença que o tempo me coloca é o verso. Quem não se lembra do poema de Bertold Brecht sobre os que lutam um dia, um ano ou até anos a fio? São bons, muito bons, alguns melhores. Mas imprescindíveis são os que lutam a vida toda. Do exemplo da vida à militância, são homens imprescindíveis como o meu Pai, Glênio Sá, que conferem consistência histórica aos partidos portadores de um programa revolucionário, como o Partido Comunista do Brasil.

Não rara as vezes, pedem-me para falar de Glênio Sá. Dizem conhecê-lo como líder político, mas têm a curiosidade de saber um pouco mais dele como homem, da sua vida. Como filha, tenho as melhores recordações. Era um pai carinhoso, brincalhão, amável. Tenho do meu pai a lembrança de uma pessoa muito doce, calma, calada e presente. Sempre que falo ou penso nele me vem a sua imagem sorrindo. Seu aspecto era o de uma pessoa que sabia seu papel na vida e vivia como se tivesse ainda todo o tempo do mundo pela frente.

Possuía a coragem e a paciência de quem fez uma descoberta de vida na vivência do sofrimento e a internalizou definitivamente como sabedoria. Aqueles que o conheceram mais de perto, sabem que era de um temperamento afável no trato com as pessoas, um homem de muita compreensão com o lado humano.

Homem de Partido era arguto e ágil no pensar e no agir. Incansável, infundido confiança, jamais se dobrou às dificuldades, nunca temeu sacrifícios e riscos nem pensou em si mesmo ou em comodidades. Nem podia, como verdadeiro comunista não escolhia tarefas. Estava disposto a realizar qualquer missão designada pelo PCdoB.

No combate à Ditadura Militar, empenhou-se para que o Partido estivesse à altura de cumprir seu papel, e para que nós pudéssemos viver em democracia e desfrutássemos das liberdades individuais e sociais conquistadas.

Impossível terminar sem a saudação tão entranhadamente latino-americana:

Camarada Glênio Sá, Presente! Agora, e Sempre!

 * Jornalista, filha do guerrilheiro Glênio Sá

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Glênio Sá morreu no dia 26 de julho de 1990 em um acidente automobilístico.

Sobrevivente da Guerrilha do Araguaia, o relato de sua dura experiência como guerrilheiro e vítima da ditadura militar está em um folheto publicado pela editora Anita Garibaldi (Relato de um Guerrilheiro).

Desde as primeiras linhas, ele revela sua indignação de estudante secundarista com as injustiças.

E mostra como o descontentamento ganha corpo e tem escoadouro na militância revolucionária ao ingressar no Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Daí para aderir com entusiasmo à resistência armada no Araguaia foi apenas questão de tempo.  

No dia de sua morte, ele e seu camarada Alírio Guerra, candidatos a senador e a deputado estadual respectivamente pelo Rio Grande Norte, percorriam o Estado em campanha.

No dia 26 de julho daquele ano, depois de terem participado de manifestações em Caicó e Currais Novos, quando seguiam para a cidade de Jaçanã, o carro — um fusca — conduzido por Alírio, foi atingido por um automóvel irresponsavelmente dirigido por uma pessoa embriagada.

Glênio e Alírio morreram imediatamente, ficando gravemente feridos o advogado Antenor Roberto e o farmacêutico Valdo Teodósio, que os acompanhavam.

Esse fato trágico comoveu os norte-rio-grandenses, levando milhares de pessoas às ruas de Natal no dia do sepultamento daqueles bravos líderes populares e comunistas.

 

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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