E lá vem a CPI da Petrobras

Por Mino Carta, na CartaCapital

E noutro dia, como costumava escrever Mário de Andrade, aquele que decifrou o Brasil ao criar Macunaíma, e noutro dia verifiquei, graças a uma chamada da primeira página da Folha de S.Paulo, qual foi o erro imperdoável do presidente Lula. Se bem entendi, fatal para ele próprio e para o país que governa.

Trata-se da pretensão de inventar um candidato à sucessão desde o início do segundo mandato. Uma candidata, aliás, o que, vai ver, é pior ainda. Arrependido, contrito, fiquei presa do remorso. Pois três meses depois da posse de ex-metalúrgico para o seu segundo mandato vaticinei, no blog que mantinha então, e felizmente encerrei, a escolha de Dilma Rousseff para a candidatura petista nas eleições de 2010.

Não foi palpite feliz, adivinhação de parque de diversões, resultado de alguma conversa nos altos escalões. Cuidei de executar, apenas e tão somente, uma análise do quadro político e das alternativas oferecidas pela composição ministerial. Primeiro, comuniquei aos meus botões: eis aí dona Dilma, ela se destaca pela atuação, pelo passado, pela fidelidade, pela determinação. Em seguida, decidi ampliar o raio da minha audiência.

Não me detive. Meses após, fins de outubro de 2007, na festa do aniversário de CartaCapital, destinada, inclusive, a premiar as Empresas Mais Admiradas no Brasil, ao dar as boas-vindas aos convidados disse, impavidamente, que, no meu entendimento, Lula já tinha candidato, ou melhor, candidata. O deputado Arlindo Chinaglia, bem situado entre os presentes na qualidade de presidente da Câmara, chegou-se ao pé do meu ouvido e perguntou: “É a Dilma?” Anui, com a devida gravidade.

Vejam só do que sou capaz. Que hão de pensar de mim os colunistas da Folha? Teríamos de colocar um basta a este enredo tradicional da história do Brasil e, por que não, do mundo? Mal toma posse, o novo presidente, em qualquer canto do planeta, cogita fazer seu sucessor. Há exceções grandiosas, está claro. Fernando Henrique Cardoso pensou imediatamente em si mesmo e armou o plano para alcançar seu intento. Passava pela compra dos votos dos parlamentares vulneráveis, digamos assim. E se fez a emenda constitucional.

Ao tomar posse em janeiro de 2003, Lula tinha várias flechas em seu embornal. Na linha de frente, Zé Dirceu e Palocci. Valia a pena esperar, contudo, mesmo porque havia a válida perspectiva do segundo mandato a deitar adiante uma pradaria de oportunidades. Veio foi a tempestade do chamado mensalão, que, entre parênteses, nunca foi provado, embora provasse Lula, seus eventuais candidatos, seu governo e seu partido.

A campanha midiática contra o operário nordestino que ousou ser presidente da República mais uma vez fracassou clamorosamente e o homem foi reeleito. Sumiram, porém, tragados pelos eventos, os ungidos de outrora. Foi preciso enveredar por outra escolha. Quem seria? Tratei então de dar tratos à bola, com a inestimável contribuição dos meus botões.

E não é que Dilma Rousseff se transforma em uma candidata viável? Pesquisas encomendadas no momento pelo Planalto e pelo tucanato mostram que ela sobe vigorosamente na preferência dos eleitores. Cria-se, em consequência, uma onda de rumores, que chegam a propalar a perplexidade, quando não a incerteza, de outro candidato in pectore, o governador de São Paulo, José Serra.

Diga-se que este foi o sucessor designado desde logo quando da segunda posse de Fernando Henrique Cardoso, para ser o derrotado em 2002. De todo modo, é cedo para prognósticos, e Serra, determinado não menos que Dilma Rousseff, não é de entregar os pontos de graça. Talvez não o agrade saber, e talvez seja um motivo a mais para insistir na candidatura, que o Planalto apreciaria sobremaneira tê-lo como adversário da atual ministra-chefe da Casa Civil.

Não é de se excluir que Serra faça sua principal aposta no desfecho da CPI da Petrobras. Por trás da maior empresa brasileira está Dilma Rousseff, presidente do Conselho da companhia. CartaCapital percebe que a CPI é a enésima tentativa de turvar as águas, quem sabe a derradeira. Engendrada por uma oposição que conta com a mídia mas já viveu a triste experiência de não contar com a maioria do eleitorado.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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