Comentário: custos e compaixão

Por Paul Krugman, do The New York Times, na Terra Magazine

Os pretensiosos da TV a cabo criticaram severamente a coletiva do presidente Barack Obama, realizada na última quarta-feira. Veja você, ele não distribuiu um monte de piadas sociáveis.

Vergonha para eles. O sistema de saúde está em crise. O destino da classe média dos Estados Unidos está incerto. E nas nossas TVs estava um presidente com um domínio impressionante dos assuntos, que verdadeiramente entende os riscos.

Obama foi especialmente bem quando falou sobre controlar os custos médicos. E há uma questão crucial aqui – a saber, que quando se trata de reformar o sistema de saúde, a compaixão e a boa relação custo-benefício andam de mãos dadas.

Para entender o que eu quero dizer, compare o que Obama disse e fez quanto ao sistema de saúde com as declarações e ações do seu predecessor.

O presidente George W. Bush, você deve lembrar, estava notavelmente indiferente aos apertos dos não segurados. “Quero dizer, as pessoas têm acesso a saúde pública nos Estados Unidos”, comentou uma vez. “Afinal, você simplesmente vai até uma emergência”.

Enquanto isso, Bush alegava ser contra os gastos excessivos do governo. Então o que ele fez para refrear os custos da Medicare, a maior instituição individual a conduzir os gastos federais?

Nada. Na realidade, o Ato de Modernização da Medicare, de 2003, elevou os custos ao evitar as negociações a respeito dos preços de medicamentos e ao garantir subsídios às seguradoras.

Agora, Obama está tentando oferecer acesso ao seguro-saúde para todos os americanos – e ele também está fazendo mais para controlar os custos da assistência médica do que qualquer outro presidente antes dele.

Não sei quantas pessoas entendem o significado da proposta de Obama de dar ao MedPAC, o conselho consultivo de especialistas para a Medicare, um poder de verdade. Mas é um passo importante em direção à redução dos gastos desnecessários – a proliferação de procedimentos sem benefícios médicos – que incham os custos da saúde pública dos Estados Unidos.

E também, tanto a administração Obama quanto os democratas no congresso vêm enfatizando a importância da “pesquisa comparativa de eficiência” – ver quais procedimentos médicos realmente funcionam.

Portanto, o compromisso da administração Obama com a saúde pública para todos acompanha uma disposição nunca vista de levar a sério a questão de gastar com sabedoria os dólares da saúde pública. E isto é parte de um padrão mais amplo.

Muitos especialistas em saúde pública acreditam que um dos principais motivos de gastarmos mais em saúde do que qualquer outra nação avançada, sem melhores resultados em saúde, é o sistema de pagamento por serviço, no qual os hospitais e médicos recebem por procedimentos, não por resultados. Como o presidente disse na quarta-feira, isto cria um incentivo para que os fornecedores de serviços em saúde façam mais testes, mais operações e assim por diante, sem levar em conta se estes procedimentos ajudam os pacientes ou não.

Então, onde nos Estados Unidos há uma consideração séria com relação a afastar-se do sistema de pagamento por serviço para uma abordagem mais inclusiva e integrada com respeito à saúde pública? A resposta é: Massachusetts – que apresentou um plano de saúde pública três anos atrás que foi, em alguns aspectos, um ensaio geral para a reforma na saúde nacional, e que agora está buscando maneiras de ajudar a controlar os custos.

Por que uma ação significativa nos custos médicos concorda com compaixão? Uma resposta é que a compaixão significa não fechar os seus olhos para as consequências humanas da elevação dos custos. Quando os prêmios de seguros-saúde dobraram durante os anos Bush, o nosso sistema de saúde “controlou os custos” ao reduzir a cobertura para muitos trabalhadores – mas de acordo com a administração Bush, isto não era um problema. Se você acredita em cobertura universal, por outro lado, isto é um problema, e exige uma solução.

Além disso, eu sugeriria que os supostos reformistas da saúde não terão a autoridade moral de enfrentar a ineficiência do nosso sistema a menos que eles também estejam preparados para dar um fim à sua crueldade. Se Bush tivesse tentado refrear os gastos da Medicare, ele teria sido acusado, com justiça considerável, de cortar benefícios para que ele pudesse dar aos ricos ainda mais cortes em impostos. Obama, em contrapartida, pode ligar a reforma da Medicare ao objetivo de proteger os americanos menos afortunados e tornar a classe média mais segura.

Como um assunto prático e político, então, controlar os custos da saúde pública e expandir o acesso a ela não são alternativas opostas – você precisa fazer ambas, ou nenhuma delas.

Em um certo ponto de suas declarações, Obama falava sobre uma pílula vermelha e uma pílula azul. Eu suspeito, apesar de não ter certeza, que ele fazia alusão à cena do filme “Matrix”, na qual uma pílula traz ignorância e, a outra, conhecimento.

Bem, no caso da saúde pública, uma pílula significa continuar no nosso caminho atual – um caminho no qual os prêmios de saúde continuarão a decolar, o número de americanos não segurados disparará e os custos da Medicare quebrarão o orçamento federal. A outra pílula significa reformar o nosso sistema, garantindo saúde pública para todos os americanos, ao mesmo tempo em que tornamos a medicina mais eficaz em termos de custos.

Qual pílula você escolherá?

Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

 

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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