O assédio moral não mata, mas mói (e muito)

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Por Mariana de Araújo Barbosa, no site Ionline

Imagine que tem um blogue pessoal onde escreve e assina com um pseudónimo, e que o seu patrão e colegas de trabalho se reúnem numa tarde, sem o consultar, para falarem do assunto. No dia seguinte comunicam-lhe que tem de fechar o blogue e que, caso não o faça, irão até às últimas consequências. “Entendi o aviso como uma ameaça de despedimento”, conta ao i Daniel Luís, ex-professor assistente da Universidade do Minho.

Em Dezembro de 2007, 14 colegas do departamento universitário onde dava aulas reuniram–se e decidiram que o professor devia fechar o blogue, aberto desde 2004. “Disseram-me que um professor universitário tem de se dar ao respeito e não deve dedicar-se a conversas patetas. Recebi ameaças de pessoas acima de mim, e de colegas”, lamenta, acrescentando: “Fui cobarde, fechei o blogue.” Daniel Luís considera que as pressões dos colegas alteraram o seu comportamento. “Deixei de ir à universidade. Sentia-me mal, nervoso e comecei a ser acompanhado por um psicólogo”, relembra.

Ana Verdasca, investigadora da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), assegura que fugir à realidade não é a melhor atitude quando se procura ajuda. “Face à pressão, a pessoa degrada-se, mas os advogados querem defender o resistente, quem aguentou e enfrentou as dificuldades”, assegura. Um estudo recente da UTL refere que 5,9% dos portugueses são vítimas de assédio moral frequentemente, e 24,8% sofrem ocasionalmente agressões psicológicas.

Destes, apenas 6,1% abando- nam o local de trabalho. “As pessoas não falam por três razões essenciais: medo de perderem o emprego, desconhecimento das leis e das instituições a quem recorrer, ou por não acreditarem que a justiça consiga resolver o problema em tempo útil”, explica o advogado Carlos Pinto Abreu ao i. A maioria das vezes os casos denunciados arrastam–se nas teias da “prática judiciária ainda incipiente e que, quando funciona, é tardia”. Maria Costa (nome fictício), 35 anos, nem procurou a justiça. Recém–chegada a Évora para um novo trabalho, a convite do antigo orientador de estágio, tentou ignorar os sinais.

“Tentava abstrair-me. Ele gozava, fazia brincadeiras que enervavam e criticava agressivamente qualquer trabalho. Os abusos foram-se sucedendo com uma ira cada vez maior”, conta ao i. Maria era recém-licenciada e não sabia como lidar com a situação. “Considerava-o uma excelente pessoa, mas ele revelou uma agressividade enorme e, quando o contrato acabou, saí.” Mais tarde consultou uma psicoterapeuta, sem saber que a origem das suas angústias estava ali. “Não fazia a mínima ideia mas li sobre o assunto e era tal e qual aquilo por que tinha passado.”

Em Portugal, os casos de bullying/mobbing operados por superiores hierárquicos são os mais comuns. “Os valores são ligeiramente superiores para o assédio de cargos mais altos a subordinados, mas a diferença não é assim tão elevada quando comparada com pressões entre pares”, revela Ana Verdasca. No entanto, a tendência está muito relacionada com o tipo de organização: “Em Portugal, é mais comum estratificar, porque as empresas são organizadas mais verticalmente. Nos países nórdicos, o fenómeno regista-se predominantemente entre pares, já que as organizações são mais planas. Mas o fenómeno não é linear.”

Definições Murahachibu no Japão, bossing no Reino Unido, molestie psicologiche em Itália, psicoterrorismo em Espanha, mobbing na Alemanha. Todos os termos designam bullying ou mobbing em ambiente laboral. Em Portugal, as duas palavras são válidas, mas em questões jurídicas as agressões psicológicas no trabalho são designadas por assédio moral. O fenómeno foi apresentado pela primeira vez à comunidade científica pelo alemão Heinz Leymann, em 1984, que analisou pressões interpessoais entre crianças e transferiu mais tarde o conceito para o mundo do trabalho.

No entanto, só em 1992 o conceito foi divulgado amplamente, através de uma série de programas na rádio BBC, em que o jornalista Andrea Adams abordava as diferentes formas de violência no trabalho. A partir desse momento sucederam-se os estudos sobre o tema, sobretudo em França e nos países nórdicos – os primeiros a reconhecerem a existência de problemas “que envolvem a coacção física ou psicológica na relação de trabalho”, diz Glória Rebelo, professora universitária e investigadora do Dinâmia/ISCTE.

Problema de sexo? Em matéria de sexos e de sectores mais atingidos pelo bullying, a realidade não é consensual. Vários estudo nacionais e internacionais apontam o facto de as mulheres serem mais frequentemente vítimas de assédio. No entanto, os sectores que evidenciam uma presença predominantemente feminina – saúde e educação – são aqueles onde o fenómeno é mais intenso. “Alguns estudos consideram que as mulheres são mais competitivas entre elas do que com os homens”, justifica Salvador Araújo, investigador da Universidade do Minho.

Glória Rebelo não atribui o fenómeno a qualquer dos sexos em particular. “Prende-se com as especificidades da sociedade contemporânea.” Isso torna-o inevitável? “Não. Mas quanto mais informadas as pessoas estiverem melhor saberão defender-se”, responde Ana Verdasca.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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