Brasil não tem vigilância adequada para gripe A, diz infectologista

Por Aloisio Milani, na Terra Magazine.

A gripe A (vírus H1n1) cresce em número de casos e mortes no Brasil. E qual o papel dos gestores da política de saúde contra a epidemia? Para a infectologista Nancy Bellei, médica e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante do comitê científico de influenza da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o modelo de combate à gripe A não está adequado. E precisa mudar.

– O Ministério da Saúde não possui sistema de vigilância adequado para saber facilmente onde os casos estão ocorrendo. (…) Há um descontrole da situação em determinadas áreas. A estratégia de tratamento também deveria ser individualizada para determinadas regiões.

Nesta quarta-feira, 22, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, citou inclusive que é necessário regionalizar as medidas de combate. “Cada realidade é uma realidade. Veja que o vírus circula no território nacional, mas com intensidade muito diferente nos vários Estados”, disse. Para a infectologista, contudo, é necessário haver uma mudança nas diretrizes de combate e prevenção do vírus – especificamente no protocolo da ação.

– Não acredito em protocolo único de controle e vigilância da doença no país considerando a diversidade (do país).

Doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias, Nancy Cristina Junqueira Bellei é professora e pesquisadora. Seu currículo indica experiência em Infectologia e Virologia clínica, atuando principalmente com viroses respiratórias, gripe, influenza e pandemia, rinovírus e metapneumovirus.

A seguir, a entrevista.

Terra Magazine – Com 22 mortes e mais de 1.100 casos confirmados, a gripe A avança no Brasil. Primeiramente, gostaria que a senhora definisse a gravidade da doença no País em relação à periculosidade do vírus e sua a situação do mundo.

Nancy Bellei – O Brasil possui diversidade climática e social muito grande avaliando as diversas regiões do pais. Assim é possível que o maior impacto na morbidade e mortalidade pelo vírus ocorram na região Sul e Sudeste para onde deveriam ser focadas as intervenções de maior custo, ou seja, diagnóstico e tratamento de casos ainda que leves. O vírus tem um paroxismo interessante: a maior parte de casos leves e a menor parte, infelizmente, de casos graves em jovens ou pacientes de risco com mortalidade evitável apenas com suporte avançado de terapia intensiva.

Existe, claro, um limite de atuação dos gestores e das políticas públicas de saúde quando o assunto é epidemia. É possível avaliar positivamente ou negativamente a ação do Ministério da Saúde e outros órgãos de fiscalização? Sobretudo em relação às estratégias de vigilância e atenção básica?

Não acredito em protocolo único de controle e vigilância da doença no país considerando a diversidade que já comentei. O Ministério da Saúde não possui sistema de vigilância adequado para saber facilmente onde os casos estão ocorrendo. Considero que a transição entre realizar exames em todos e não realizar exames em todos os casos foi demasiadamente acelerada. O que levou ao descontrole da situação em determinadas áreas. A estratégia de tratamento também deveria ser individualizada para determinadas regiões e ou localidades do país.

Começam a aparecer notícias sobre uma vacina contra este vírus. Até a disseminação dela e à incorporação da vacina nas campanhas de imunização qual deve ser o perfil da epidemia pelo mundo?

Muitos casos leves vão ocorrer e infelizmente muitas mortes. A disponibilidade de vacinas dependerá da produção nacional ou da compra de vacinas importadas. Obviamente esta decisão deverá ser tomada agora porque os fabricantes estão vendendo seus futuros estoques. Ou seja, não basta só ter dinheiro para comprar vacina. O país deve decidir o montante antes mesmo da produção terminada.

Uma pergunta básica. Existem estimativas, inclusive uma citada no site do Ministério da Saúde, de que a letalidade do vírus H1N1 é de cerca de 0,5%. Esse dado é correto? Se for, é um índice semelhante ao que se registra nos casos graves da gripe comum mesmo com vacinas desenvolvidas. Certo? Então, por que a paranóia com este novo vírus?

Olha, tem muito número errado nisto. Primeiro a gripe comum mata muito menos do que isto segundo artigos científicos publicados. Veja a edição da New England Journal Medicine 2009. Alguém disse este número e daí virou regra. Também não sabemos mais quanto esta gripe mata porque a Organização Mundial de Saúde (OMS) parou de contabilizar números. Veja os Estados Unidos: tinham 293 mortes e contavam 40 mil casos, mas estimavam a infecção em 1 milhão. Daí veja como é complicado calcular mortalidade. A questão é que morre gente jovem com gripe A mais do que com a gripe comum. E não temos vacina. Isto já e um problema grande. Depois, o vírus é novo e ninguém sabe como vai evoluir.

O que a senhora acredita que deveria ser feito contra a gripe A no Brasil?

Infelizmente no inicio de pandemia não dá para conter recursos e isto as autoridades deveriam entender. Segundo: a observação criteriosa de dados é fundamental e isto no Brasil é muito problemático em saúde pública. Terceiro: a transparência com a população a abertura da discussão com as sociedades cientificas e fundamental para mitigar os danos e isto deve deixar de lado questões políticas o que, em nosso país, também e muito complicado.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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