Sobre o diploma para jornalista

Metalinguagem

Escrito pelo “Camarada Eduardo”, no blog Utopia Concreta

Depois de um longo periódo de grandes preocupações acadêmicas e tempo muito curto, finalmente volto a escrever aqui. E quero abordar justamente… o ato de escrever! Minha inspiração vem da decisão do STJ de pôr fim à exigência do diploma de Jornalismo, mas tem outras motivações também.

A sociedade evolui junto com a tecnologia, e os avanços tecnológicos abrem novas possibilidades e tornam mais fácil a prática de diversas tarefas. Entre elas, a de escrever. Houve um tempo em que as pessoas escreviam em tábuas de argila. A argila felizmente deu lugar ao papel, e tornou mais fácil a vida de quem, por necessidade ou prazer, registrava sua mensagem para a posteridade – uma minoria ínfima, pois até o século XX o mundo era composto por uma maioria esmagadora de analfabetos.

O papel e a tinta continuaram a servir por muito tempo aos escritores, dramaturgos, jornalistas, administradores, poetas e todos os outros que trabalhavam com a palavra. Foi no século XIX que surgiu uma invenção que tornaria mais fácil a escrita e publicação de textos: a máquina de escrever. Ainda que o papel e a caneta continuassem com sua importância e quebrassem um galho de vez em quando, a máquina de escrever continuou como o carro-chefe das publicações durante o século XX, auxiliada por mimeógrafos e outros trambolhos que hoje, em plena era da informática, assustam as crianças – que, de tão familiarizadas com o computador, não conseguem imaginar que algum dia houve outro tipo de máquina para digitar.

Àquela altura, a arte de colocar ideias no papel e narrar os fatos da vida pública ou privada já havia se desenvolvido de maneira considerável. A grande necessidade de profissionais qualificados para o setor de serviços no mundo economicamente desenvolvido abria as portas das universidades e cada vez mais gente saía do analfabetismo e era capaz não só de ler, como também de escrever e ser lida. Não é preciso dizer o quanto isso impulsionou a cultura e as ideias da chamada sociedade moderna.

Contudo, nem todos os países ofereciam um grau de liberdade tão grande à publicação e difusão de ideias. Neles, a máquina de escrever era vista com suspeita pelas autoridades. Como toda ditadura visa emburrecer sua população para dominá-la mais facilmente, nos países onde havia “regimes de exceção” a difusão de ideias era bastante restrita (e isso incluía os países do bloco soviético que – paradoxalmente – diziam-se defensores do socialismo, um conjunto de ideias baseado na razão, na crítica e na libertação dos trabalhadores das algemas materiais e também mentais, tarefa que necessitava, necessita e sempre necessitará de liberdade para difusão de ideias). Mas não era só do outro lado da “Cortina de Ferro” que havia ditaduras. Boa parte dos países alinhados com os EUA – defensores da “liberdade e democracia” – durante a Guerra Fria estava sob a opressão de regimes ditatoriais instalados com a ajuda direta ou indireta dos estadunidenses.

Nesse grupo não muito afortunado, estávamos nós. Muitas das medidas tomadas pela “revolução democrática” após 1964 tiveram como objetivo restringir a livre circulação de ideias e informações – com a velha e já manjada desculpa de “restaurar a ordem, a moral e os bons costumes e pôr fim à baderna”. Paralelamente aos censores, empregados para detectar e eliminar notícias que de alguma maneira desagradassem às autoridades, criou-se um outro artifício: o diploma de Jornalismo.

Antes dele, qualquer pessoa que escrevesse bem podia fazer parte de um jornal ou outra instituição que promovesse a difusão de informações. Isso abria as fileiras dos jornais para sociólogos, historiadores, cientistas políticos, economistas e também gente sem diploma mas igualmente capaz de criticar o regime com base em argumentações sólidas – contra as quais nenhuma ditadura possui defesa. Criou-se então um diploma novo, mais “técnico” e menos crítico, para evitar que toda sorte de “subversivo” pudesse usar sua máquina de escrever. Criaram-se impérios de faculdades de comunicação, lucrando com o novo filão de “clientes”. O jornalismo passou a ser um negócio para poucos. Ou talvez nem tanto – temos 500 faculdades de jornalismo no Brasil, bem mais que a média mundial. Mesmo assim, o Jornalismo na prática continua sendo restrito aos que podem entrar na universidade, aos que podem fazer parte da panela corporativista.

Felizmente – e surpreendentemente para todos aqueles que por resignação nunca esperariam nada de positivo do STF depois do caso Dantas – o STF derrubou esse que era um dos resquícios dos “gloriosos” tempos da ditadura militar. A manutenção do diploma de jornalista foi – e ainda é – defendida pela maior parte dos jornalistas e membros de faculdades de comunicação, mas por mero interesse corporativo. Por que seria “essencial para a atuação do jornalista” a posse de um diploma? Por acaso o jornalismo brasileiro antes da década de 1960, quando não existia a exigência, era pior que depois que o diploma foi instituído como obrigatório? Se a exigência do diploma é “vital para a democracia”, por que então muitos países democráticos (Alemanha, Suécia, França, Holanda, EUA, Espanha, Dinamarca, Reino Unido, Irlanda, Luxemburgo, Peru, Grécia, Finlândia, Argentina, Polônia e Bélgica, entre tantos outros) não exigem diploma? O caso da Costa Rica é emblemático, e resultou numa humilhação para os que defendem o diploma: em 1985, o país foi obrigado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos a extinguir sua exigência de diploma de jornalismo. A Corte tomou a decisão de maneira unânime, por acreditar que a exigência feria a liberdade de expressão, após o caso de um jornalista estadunidense cerceado pelo governo da Costa Rica porque não tinha diploma.

Há entre os defensores do diploma obrigatório a ideia de que só com o diploma o indivíduo incorpora a ética necessária para o exercício da profissão. É sem dúvida um argumento capaz de provocar risadas. A podridão moral de nossa mídia, sozinha, já é um argumento suficiente para derrubar essa falácia. Ética não se aprende na faculdade, e sim na vida! Não-jornalistas podem muito bem fazer reportagens de grande destaque – e o contrário também é verdadeiro. Falcão, Meninos do Tráfico, foi concebido pelo músico MV Bill. Estação Carandiru, pelo médico Dráuzio Varella. Obras muito melhores do que as de muito jornalista por aí.

Contudo, os bons jornalistas não precisam ficar preocupados, pois não perderão o emprego com o fim da obrigatoriedade. As empresas de comunicação continuarão a recrutar muitos jornalistas formados, por suas bases acadêmicas sólidas, a exemplo do que acontece nos países onde o diploma não é obrigatório. As boas faculdades de comunicação também não vão a falência, pois boa parte dos jornalistas continuará a sair delas. A diferença é que, de agora para frente, esses jornalistas formados e talentosos terão a companhia de outros profissionais, igualmente talentosos, mas sem o diploma. Quem ganha é a sociedade, que terá acesso às obras e opiniões de indivíduos formados em outras áreas, provavelmente com outros pontos de vista. A diversidade é condição indispensável para a liberdade de expressão.

Mas não só de diploma de Jornalismo é esse texto. Quero ressaltar também uma outra revolução, bem menos perceptível, no modo de se fazer notícia e opinião, e também de se fazer poesia, conto e toda e qualquer forma de texto. Trata-se dos blogs, como este e tantos outros, e de outros instrumentos de difusão que a internet permite. A chamada “Era da Informação” revolucionou definitivamente a maneira de se fazer textos. Se antes era necessário imprimir milhares ou milhões de cópias em um mimeógrafo ou uma xerox para tornar um texto acessível a uma grande quantidade de leitores, hoje é possível fazer a mesma coisa apenas publicando-o em algum site pessoal. Grandes autores, dramaturgos e poetas, se antes eram reféns de grandes editoras para se tornar conhecidos, hoje só precisam de um espaço na internet para abrigar sua arte – e muitos novos talentos podem ser revelados assim.

A grande mídia, antes monopolizadora da informação e da opinião por ser a única com recursos suficientes para difundir-se em grande escala, perde cada vez mais espaço para pequenos autores independentes, espalhados pelo mundo, com visões de mundo próprias. A visão de mundo hegemônica da grande mídia (também no sentido gramsciano de hegemonia) cede forçadamente espaço para visões de mundo diferentes. E, mais uma vez, isso é bom. Quanto mais variedade e diversidade, melhor.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
Esse post foi publicado em mídia e marcado , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Sobre o diploma para jornalista

  1. Giselle disse:

    Há! e desculpe se contradiz um pouco sua opinião! Mas essa é a minha, e como futura jornalista está ai a minha crítica.

  2. Giselle disse:

    Olá, eu sou estudante do 3° ano do Ensino Médio, vou prestar o vestibular na UFG nesse fim de ano…. O curso que quero é Jornalismo! Amo a profissão desde já, tenho como objetivo ser uma grande profissional na minha área, e acredito que com meu esforço e dedicação chego lá!
    E não será a essa altura do campeonato, por uma decisão absurda do Governo,que irei abandonar o sonho de ingressar na Universidade! Pois grandes profissionais que hoje admiro muito, não cairam lá de pára-quedas, todos concerteza passaram por todo um processo preparatório pois ninguém nasce sabendo não é? A etapa mais importante não pode ser vetada, pois é na faculdade assim como toda uma vida escolar, que erramos para lá fora podermos acertar!

    Um abração parabéns pelo post!
    Giselle

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s