G-14 ou G-20?

Paulo Nogueira Batista Jr.* 

“Contra o tédio até os deuses lutam em vão”, escreveu Nietzsche. Tédio -essa é a palavra que me ocorre para sintetizar o resultado da cúpula de líderes do G8, na Itália, na semana passada. O comunicado final é rigorosamente ilegível. Dele se pode dizer o que Churchill observou certa vez a respeito de um longo memorando oficial: “Por seu próprio tamanho, esse texto se defende contra o risco de ser lido”. O G8 escreveu o próprio epitáfio em 134 (!) parágrafos.

Epitáfio é exagero. O G8 pode muito bem sobreviver de alguma maneira. Afinal, do grupo fazem parte os principais países desenvolvidos (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) e a Rússia (que, aliás, nunca chegou a ser um membro pleno do G8). Quem pode impedi-los de continuar se reunindo?

Mas é o crepúsculo dos deuses. Tudo indica que terminaram os dias do G8 como “diretório mundial”. Na Itália, Obama declarou que não se pode lidar com “alguns desafios globais sem grandes potências como China, Índia e Brasil”.

Grande potência! O leitor sabe: o brasileiro ainda é um tímido, um cerimonioso, traz o subdesenvolvimento impresso na alma. Quando li a declaração do presidente americano, o meu patriotismo deu “arrancos triunfais de cachorro atropelado”.

Quem sucederá o G8? Por enquanto, o bastão passou para o G20. Mas, na Itália, houve quem defendesse a ampliação do G8 para G14 (os seis novos integrantes seriam China, Índia, Brasil, México, África do Sul e Egito). Essa é a posição dos líderes da França e da Itália. O presidente dos EUA declarou que “estamos em um período de transição, tentando encontrar o formato certo”.

Na prática, seria inviável a coexistência de um eventual G14 com o G20, ambos como foros de chefes de Estado e de governo. Já se nota uma certa fadiga provocada pelo excesso de reuniões de cúpula. Portanto: é um ou outro.

Qual o formato melhor para o Brasil? Lula indicou a sua preferência: “Se eu tivesse que escolher entre o G14 e o G20, ficaria com o G20, que tem mais representatividade”. E indicou também que o G8 perdeu credibilidade ao demorar tanto tempo para se adaptar à realidade mundial e incorporar novos membros.

É natural que o Brasil prefira o G20. Um eventual G14, além de incluir os sete principais países desenvolvidos (o antigo G7), incorporaria três países em desenvolvimento que têm demonstrado pouca capacidade de atuar de forma independente. Só os Brics -o Brasil, a Rússia, a Índia e a China- têm condições de fazer alguma diferença. Não são grandes potências (o companheiro Obama exagerou), mas são países de grande dimensão territorial, demográfica e econômica. Isso lhes dá condições de ter influência real, sobretudo se souberem coordenar as suas posições (aqui no FMI, diga-se de passagem, os Brics têm procurado trabalhar de forma coordenada -e temos tido algum sucesso).

O G20 tem lá os seus problemas de governança, que já comentei nesta coluna, mas já está em funcionamento e é um campo mais propício para nós. O G20 inclui todos os membros de um eventual G14 (com exceção do Egito) e mais a Austrália, a Argentina, a Arábia Saudita, a Indonésia, a Turquia e a Coreia do Sul.

A Argentina é a nossa aliada mais próxima. Em menor ou maior grau, os outros cinco países, mesmo a Austrália, podem somar a sua voz à do Brasil em diversas questões -pelo menos é o que sugere a nossa experiência recente no G20 e no FMI. Não vamos passar de cavalo a burro.”

*Diretor-executivo no FMI, onde representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago). Publicado no jornal Folha de São Paulo de 16/07/2009.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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