Cinco notas

Por Sírio Possenti*, de Campinas (SP), na Terra Magazine

Leio a coluna de Carlos Heitor Cony na Folha de S. Paulo de domingo (12/07/2009). O título é “O morfema”. O cronista, jornalista, romancista, membro da Academia Brasileira de Letras, entre outras coisas, conta singelamente que, lendo um livro de crítica literária, deparou-se com a palavra “morfema”. Não a conhecendo, foi ao Houaiss, que, na definição, empregava outra sua desconhecida, “semantema” (confesso que acho a definição do Houaiss suspeita!!). Finalmente, recorreu a Bechara, que lhe explicou de que se tratava. Cony poderia muito bem ter lido sobre o item na gramática de seu colega de Academia!

O caso ilustra como nenhum outro a quantas anda nossa cultura gramatical. A palavra “morfema” circula há pelo menos 80 anos. Para uma idéia do escândalo que significa um letrado desconhecê-la, lá vai uma comparação: é como se um engenheiro não conhecesse a palavra “átomo” ou um médico, a palavra “gene”. Digo “engenheiro” e “médico”, e não “físico” ou “biólogo”, para manter alguma analogia: Cony, afinal, não é gramático nem dicionarista. Mas vive de escrever, vive da língua. Podia ter algum interesse por ela.

O fato é um sintoma: ele indica que, quando um dos nossos intelectuais quer ler alguma coisa sobre língua, pega logo o manual de redação do jornal em que trabalha. Ou telefona para um amigo. Nossos intelectuais estudam de tudo, reconheça-se. Menos língua. Disso eles não sabem nada!

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Muitos colunistas, de todas as áreas (esporte, política, gramática) têm falado de dificuldades que a nova ortografia impõe. Ou mesmo a velha. Com isso, querem mostrar ou que as novas regras impedem boas leituras ou que certos sinais (como o acento grave) são cruciais: sem eles não se poderia ler.

Vi, em algum mural, um artigo que pretendia mostrar que o sinal de crase é fundamental para distinguir, por exemplo, “escreve a Machado de Assis” e “escreve à Machado de Assis”. Sim, é claro, se isso cair numa prova (isto é, se algum idiota colocar isso uma prova sem o devido contexto ou texto). Mas, por esse critério, pode-se perguntar também como se poderia distinguir “lá” de “lã” se uma palavra não contiver acento agudo e a outra o til, ou como distinguir “maga” de “manga” sem o “n” em uma delas? Questões de jerico, disfarçadas de grandes problemas!

É por essas e outras que um cara como Cony nunca ouviu falar de morfema.

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Os que estudam leitura consideram, como é óbvio, que os leitores devem conhecer a língua. Esse conhecimento inclui, como é também óbvio, o do sentido das palavras, do papel das estruturas sintáticas etc. Mas, mais fundamental do que esse conhecimento é dar-se conta do campo a que o texto pertence (se é economia, biologia, literatura, direito), até porque as palavras e estruturas só adquirem um sentido mais ou menos preciso no campo em que aparecem. Por exemplo, “posição” não quer dizer exatamente a mesma coisa em sintaxe, em sexologia e em futebol. Sem mencionar casos como “manga” e “ponto” (o leitor pode ver num dicionário o quanto se precisa saber para distinguir um ponto de ônibus de um de bordado de um de teatro etc.).

Ora, se estou lendo um texto que fala do estilo de um escritor e lá se diz que Fulano escreve “a Machado de Assis”, com frases assim e assado, logo descubro que o texto não está dizendo que Fulano manda cartas a Machado, mesmo que o acento grave esteja ausente. Aliás, se uma lei derrubasse esse acento, nos enganaríamos sempre?

E como entendemos “matéria atrai matéria na razão direta das massas e na inversa do quadrado das distâncias”, se não soubermos preencher vazios sintáticos para ler “direta das massas” como “direta das massas dessas mesmas matérias” e “quadrado das distâncias” como “quadrado das distâncias entre elas, as massas dessas matérias”? Que acento grave ou agudo resolve isso?

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Dito isso, é claro que há textos ambíguos! O diabo é que, em geral, eles são melhores do que os claros. A escola – as provas, as aulas – ganharia se considerasse mais esses textos do que aqueles cuja leitura depende de desarmar um truque gráfico. Por exemplo, o slogan de uma empresa distribuidora de energia elétrica diz “nossa energia vai toda pra você”. Ao mesmo tempo, ela diz que “me” entrega energia (elétrica) e que toda a empresa se dedica a mim (a empresa gasta sua energia, isto é, seus esforços e pensamentos “positivos”, por mim, em meu favor, ela só pensa em mim). O slogan da estatal brasileira de petróleo diz que “O Brasil se encontra aqui”, significando, ao mesmo tempo, que ela é o lugar de encontro dos brasileiros e que ela (aqui, isto é, lá) é que encontra o Brasil, o verdadeiro Brasil. Etc.

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Repito o mote (na verdade, a pergunta) ao qual volto de vez em quando: por que será que os estudiosos de língua (ou os que pensam que a estudam e conhecem) não a tratam como um objeto histórico, social, de múltiplas faces, como tratam qualquer outro objeto de conhecimento? Por que somos levados a pensar que há sempre muito a descobrir e a retificar em todos os campos (economia, biologia, astronomia), mas achamos que tudo se sabe sobre a língua e que tudo o que se sabe ou é preciso saber cabe numa pequena lista do tamanho da lista de ossos ou de músculos ou de elementos químicos?

Por que um “intelectual” terá em sua biblioteca mil ou dois mil livros sobre qualquer assunto (futebol, culinária, filosofia, sociologia) e apenas um mísero manual de redação (ou uma gramática) e um dicionário?

*Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

 

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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