De Assaré a São Paulo

aaaaapataiva

Por Rui Daher*, de São Paulo, na Terra Magazine

A dura lida na roça não permite que muitos cheguem aos 100 anos de idade. Não tivesse morrido em 2002, o agricultor Antônio Gonçalves da Silva, em março deste ano, teria completado um século de vida.

Cantador e poeta autodidata, dez livros publicados, esse lavrador que nunca deixou sua pequena plantação, ficou famoso com o apelido que tomava emprestado os nomes de um pássaro de lindo canto e do município do Ceará onde nasceu e morreu.

Patativa do Assaré se tornou popular depois que Luiz Gonzaga, em 1964, gravou a toada “A Triste Partida”, um poema longo, de quase 180 versos, contando a trajetória de um retirante nordestino que, depois de esperar vários meses pela chuva, parte para São Paulo:

“Setembro passou/Outubro e Novembro/Já tamo em Dezembro/Meu Deus, que é de nós (…) Descamba Janeiro/Depois Fevereiro/E o mesmo verão (…) Apela pra Março/ Que é o mês preferido/Do santo querido/Sinhô São José/Mas nada de chuva/Tá tudo sem jeito/Lhe foge do peito/O resto da fé”.

Num reverso talvez estranho, o que me fez lembrar esses versos foi o sofrimento que a agropecuária brasileira passou, a partir de setembro de 2008, quando se resolveu que, assim como o retirante do poeta, todos deveriam rumar para um idealizado “São Paulo” e tentar nova vida.

Recordam? O mundo não comeria, não teríamos para quem produzir e exportar, não haveria crédito, e uma apressada Kátia Abreu exortava os agricultores a botarem o pé no freio do plantio e do uso de tecnologia na próxima safra.

Desastrosos seriam os resultados de balança comercial, receita agrícola, preços das commodities. Evitava-se notar que esses desempenhos eram comparados com anos excepcionais, de difícil repetição continuada. Evitava-se considerar que, detectada uma recessão, seria inevitável a desaceleração das economias emergentes, porém, de intensidade menor da que se verificaria nos países ricos.

Afora das instâncias governamentais que estiveram no poder, durante esta década proliferaram previsões pessimistas. Enquanto os primeiros jogavam com a obrigação de dizer que tudo ia bem para assegurar continuidade, os demais não pouparam ameaças de que um dia a casa iria cair.

Sabem disso George W. Bush, Alan Greenspan e os governos brasileiros mais recentes. Também o sabem Nouriel Roubini, Paul Krugman e os economistas de oposição.

Ao distinto público, sempre restou dúvida ou indiferença.

Não é de hoje que o pessimismo é tido como postura mais vantajosa de analistas. Como o desenvolvimento do capitalismo ocorre em ciclos, um dia realmente a casa cai, e quem o previu vira guru. Se, por outro lado, a bonança se prolonga, as pessoas consomem, comemoram, ficam felizes, e nem dão bola para quem fez as previsões equivocadas.

O fato é que, passado quase um ano, felizmente, sabemos que o mundo agrícola não desabou. O Departamento de Agricultura dos EUA divulgou na semana passada previsão de um aumento de 1,6% na produção de milho na safra recém plantada. Com isso, subirão os estoques, mas ainda serão 12,4% inferiores ao do ano passado. A soja permanecerá estável. A produção mundial de arroz crescerá quase 2%.

O Brasil, apesar da queda de 7% na produção de grãos, influenciada pelo clima, e dos preços mais baixos das commodities, experimentará uma diminuição de 3,8% no valor bruto da produção, nova designação da receita agrícola. No passado, chegou-se a falar em mais de 10%.

Também são positivos os prognósticos para a safra que será plantada no 2° semestre, no que diz respeito à oferta de crédito e aos preços e demanda de insumos.

Enfim, não estou aqui para vender otimismo, mas ao contrário da dura realidade mostrada por Patativa do Assaré, quem reclama de barriga cheia merece castigo.

*Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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