Sobrevivente do Araguaia: há acordo com militares

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Por Patrícia França, de Salvador (BA), na Terra Magazine.

Foi num final de tarde que a estudante de Ciências Sociais da Ufba, Luzia Ribeiro, nascida em Jequié e então com 22 anos, desembarcou em Xambioá, às margens do Rio Araguaia, em Goiás, em área hoje pertencente ao estado do Tocantins. Era janeiro de 1972. Chegou acompanhada do carioca Tobias Barreto, também filiado ao PCdoB, para integrar o Destacamento C, onde já estavam os baianos Rosalino Souza, o casal Dinalva e Antonio Carlos Monteiro e o cearense Bergson Gurjão Farias.

Começava a história de luta na selva dessa combente, a única sobrevivente dos 11 baianos que integraram a Guerrilha do Araguaia. Sua permanência ali foi rápida, apenas seis meses, dois dos quais em luta armada, quando ocorreu sua prisão após ser delatada por um camponês.

Passados 35 anos do fim da guerrilha, Luzia, codinome “Lúcia”, volta no tempo. Nesta entrevista à jornalista Patrícia França, do jornal baiano A TARDE, a ex-guerrilheira, funcionária aposentada do extinto banco estadual Baneb, com quase 60 anos, faz um relato emotivo: voz pausada, algumas vezes embargada. Marcas das torturas de um período sombrio da história brasileira. Para Luzia, o tenente-coronel Sebastião Curió – para quem as Forças Armadas executaram pelo menos 41 guerrilheiros – deve ser julgado como “criminoso de guerra”. Indagada se vê empenho no governo Lula em abrir os arquivos da ditadura, afirma que não; e acusa setores do PT de terem feito acordo com os militares.

Confira a entrevista:

Como você recebeu a notícia sobre o arquivo particular do coronel Curió (que comprovaria a execução de 41 militantes do PCdoB)? Qual foi sua sensação?

Luzia Ribeiro – Foi muito triste quando eu li o que Curió está relando e mostrando em documentação. Claro que o jornal (Estado de S. Paulo) só mostrou um pouco, mas demasiadamente forte. Eu convivi, desde a Bahia, com José Lima Piauy Dourado, o Ivo, que a Veja, na reportagem “Memórias do Extermínio”, sobre o mesmo assunto, traz o relo de um militar, que não se identifica, mas que fazia parte do grupo de Curió, que participou do extermínio de três dos nossos companheiros, entre eles o cearense Teodoro de Castro (conhecido como Raúl), o estudante gaúcho Cilon Brun (Simião), que não conheci, e José Lima, que era um garoto tranquilo. Ele estudava na Escola Técnica, no bairro de Nazaré, era fotógrafo e cameraman da TV Itapoan. Me lembro da casa dele, onde nos encontrávamos, às vezes clandestinamente, mas também nos movimento estudantil de rua, em 1968, quando eu ainda era secundarista. O movimento saía do Colégio Central para as passeatas. E quando a gente vê na revista, por mais que você imagine como ele morreu – porque eu imagino muitos detalhes, eu participei e sofri também de muitas torturas, embora não cheguei a sofrer o pau-de-arara. Ele, um cara tão tímido e tão valente. Muito chocante o relato.

Surpreendeu a declaração de Curió de que a maioria dos combatentes foram mortos depois de capturados sem esboçar qualquer ameaça aos militares?

Eu fazia parte do grupo do Pau Preto, do Destacamento C, que fazia um trabalho de preparo do solo, de plantio com os camponeses, na roça de arroz e mandioca. Fui presa pelo Exército nas primeiras emboscadas em Xambioá, praticamente três meses depois de iniciada a guerra. Quando Curió diz que 41 foram presos, como eu, torturados, porque todos nós fomos torturados, mesmo aqueles que disseram que se entregaram… (a tortura) é crime, um assassínio. Porque você não ter direito a advogado, não ter processo, fica desamparada. Você ser presa no meio do mato, a família sem saber, eles ameaçando jogar de cima do avião, te amarrando em corda e simulando que vão te empurrar…. Mas apesar de tudo isso, nós sobrevivemos. Você vê que eu não enlouqueci, apesar de ter companheiros, como Danilo Carneiro, que quase enlouquece. Mas saber que 41 não tiveram a mesma chance dos 14 primeiros capturados, e foram assassinados friamente (para de falar, depois continua com a voz embargada e os olhos marejados), além do mais torturados e assassinados depois.

Qual sua opinião sobre o coronel Curió?

Esse homem, que eu não considero isso, um homem, considero um bicho, foi quem comandou a Marajoara, a terceira e última operação do Araguaia, que exterminou os 41 combatentes da guerrilha. Ele diz que estava no lado contrário, que obedecia ordens e que por isso é inocente. Mas ele tinha de ser julgado como criminoso de guerra. Em vários países existe isso, e aqui no Brasil este homem fica impune. Isso é que dói mais.

A Advocacia Geral da União (AGU) pediu à Justiça, na semana passada, que intime o coronel Curió para falar da Guerrilha do Araguaia. Você acredita que o coronel vai entregar todo o seu arquivo?

Curió já foi convocado várias vezes pela Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça, mas ele sempre se nega a ir. Acredito que, agora, com essa nova conjuntura, também porque ele está no fim da vida, está com câncer, pode ser. Apesar de achar que ali não é gente, acho que não toca o coração dele, porque as famílias estão ali, sedentas para saber, querer enterrar dignamente seus filhos. Existem mães, como a de Dinaelza Santana Coqueiro, com quase 90 anos, que não quer morrer antes de enterrar sua filha. Eles (militares) têm que achar as ossadas; alguns eles podem ter queimado, mas não todos os 41.

Você acredita que muitos outros militares têm, também, documentos e registros do Araguaia?

Não tanto como o Curió. Acho que quem tem mais documentos é ele. Tenho documento que me foi dado pelos jornalistas Eumano Silva e Tais Morais (autores do livro Operação Araguaia e donos de grande acervo), com todas as operações (Sucuri, Papagaio e Marajoara), que foram eles (militares) que passaram. Não foi oficialmente que ele conseguiu isso. O Exército nega, são documentos extra-oficiais, são cópias que militares detêm em arquivo pessoal para seu uso. Vem escrito “Secreto”. Foram militares que participaram da guerrilha e passam por debaixo do pano para jornalistas. Estes documentos, foi o pai de Tais Morais que passou para ela, de todas as operações, é a última, a Marajoara, que foi a do extermínio. Eu acredito que muitos tenham, tanto que estão aí saindo.

Você acha que o governo Lula está empenhado neste processo de abertura dos arquivos da ditadura e nas investigação dos anos de chumbo?

Eu creio que não. O Lula está aí há quantos anos? No início, ele tinha um compromisso com os familiares da guerrilha da Araguaia. Inclusive o PCdoB participa do governo, mas não tem a força suficiente para fazer com que o governo Lula abrace isso. Tudo o que está acontecendo é em função de pressões nacional e internacional, de reportagens investigativas e de familiares. Porque o tempo que a Comissão de Mortos e Desaparecidos, que tem familiares representados, como é o caso de Diva Santana (presidente da seccional baiana do Tortura Nunca Mais e irmão da guerrilheira Dinaelza), não consegue muita coisa no governo Lula. Só agora conseguiu-se a identificação do X2 (ossadas de Bergson Farias encontradas em Xambioá em 1996, que está há 13 anos em posse da Comissão de Mortos e Desaparecidos, do Ministério da Justiça); por falta de boa vontade do conjunto, porque existe no governo Lula acordos.

Acordos em que sentido?

Acordo com militares e não é o PT todo, onde existe gente que quer abrir os arquivos. Mas há grupos dentro do PT que não querem que abram os arquivos.

E não querem por quê?

Na minha avaliação eles fizeram acordo com os militares. São grupos dentro do PT. A Comissão de Mortos e Desaparecidos não foi nem incluída na comissão que o Ministério da Defesa constituiu para localizar os desaparecidos. Na minha opinião deveria ter pelo menos uns dois representantes, um de familiares outro da sociedade civil, além do governo. Mas não seria como eles definiram, apenas como observadores. É para ser ativo, dar opinião, para mostrar caminhos.

Mas quais seriam os grupos petistas que não querem reabrir os arquivos? E que tipo de acordo teriam com os militares?

Acho que existem interesses escusos de grupos em não mexer na questão, em não identificar. Acordos com militares mesmo, eu não sei o que pode ser, mas isso existe. Há grupos que não têm interesse. Não quero citar nomes, mas existem pessoas que foram da Secretaria da Justiça, da Secretaria de Direitos Humanos, que nunca tiveram interesse. Não é à toa que tenham aí esqueletos guardados, inconclusivos na própria Comissão de Mortos e Desaparecidos.

Seria um caso parecido com documentos da Aeronáutica queimados, em 2002, em terreno próximo ao Aeroporto de Salvador, que hoje não se sabe direito o que aconteceu?

Como é possível as investigações não terem ido à frente? Como aquilo pode ter sido jogado debaixo do tapete? Isto é um descaso à memória.

O governador Jaques Wagner criou uma comissão na Secretaria de Justiça e Direitos Humanos para dar consequência às investigações do período da ditadura na Bahia. Qual sua expectiva?

A Diva Santana, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais na Bahia, foi convidada para fazer parte da comissão. Eu não sou mais do PCdoB. Sou do Cebrapaz, movimento latinoamericano pela paz, cuja eleição para a nova diretoria, hoje em mãos do PCdoB, será no dia 25 no Rio de Janeiro. Se não houver um trabalho de divulgação e vontade política tudo vai para debaixo do tapete. Temos que fazer a abertura dos arquivos porque isso é imprescindível para a memória. Em março de 2010 vão inaugurar o Memórial da Anisita, em Belo Horizonte.

A nossa luta, também, é para fazer um memorial específico da região do Araguaia, seja dos ribeirinhos, da luta dos camponeses, dos guerrilheiros. Porque voltando a Curió, ele ganhou muito com o extermínio, enriqueceu, ganhou prestígio, é dono de vários hectares de terra em Serra Pelada, tem uma cidade com seu nome. Foi eleito deputado federal (2004) por meio de uma série de coisas erradas e com ameaças aos garimpeiros. Foi eleito pelo terror. É só investigar as contas do Curió. Ele não ganhou o controle da região à toa. Ele foi direcionado.

O que te motivou ir para o Araguaia, há 36 anos, o que te motiva a continuar lutando?

Quando a gente volta àqueles períodos negros e as consequências daquele governo que cassou a imprensa, os direitos, a sociedade civil ficou praticamente sem opção. Ou se fazia de morto ou escolheria uma das formas de luta. A luta armada era o caminho que nós achávamos que poderia dar uma continuidade à resistência contra a ditadura. Essa foi a forma que o PCdoB escolheu para levar seus quadros para o campo, assim como outros partidos revolucionários também resistiram à ditadura através da luta armada. Na época não havia saída. A casa de meus pais vivia com agentes federais, minha mãe desesperada, chorando, eu tinha que sair. José Dourado foi por opção. O irmão dele, Nelson Dourado, já tinha ido, e era convicto de que a vida dele era para ser dedicada à transformação social. Porque o PCdoB mostrava que era contra a ditadura, pela democracia, pela volta da liberdade de expressão, de organização das entidades, e não implantar o comunismo, como afirma Curió.

Esses 41 revolucionários mortos deram suas vidas para uma sociedade nova, acreditando que estavam construindo uma nova etapa e eles contribuíram, não morreram em vão. Agora , fico indignada quando militares prendem pessoas famélicas, doentes e desarmados, porque a munição já tinha acabado. Prendessem, botassem para ser julgados. Porque nem nós, os 14 que sobreviveram, tivemos julgamento, nem processo. E mesmo depois de soltos, nada que pudéssemos fazer escapava às perseguições. Eu fiz concurso para o Programa de Ensino Médio, o antigo Prenem, passei entre os 20 primeiros colocados. O major Britto, chefe regional do Prenem, me chamou e disse que eu desistisse da educação, que fizesse concurso para a área financeira. Eu desisti e fiz ciências econômicas, porque eu não aguentava mais passar necessidade e viver às custas de meu pai. Fui trabalhar no Baneb, onde passei a vida toda. Hoje, tenho um filho e um companheiro chileno. Sigo o curso da vida, no exercício da democracia e na luta pela paz.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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