Os ciclos repetidos da história

Por Luis Nassi, no Último Segundo

No meu livro Cabeças de Planilha recorri à analogia com o período 1889-1930 para antever o que ocorreu nos últimos tempos (depois da publicação do livro):

1. Crise financeira, pela disfuncionalidade dos mercados globais e profusão de novas ferramentas financeiras em controle.

2. A crise financeira provocando a crise econômica global.

3. Posterior crise da globalização e volta do nacionalismo, com protecionismo e restrição aos fluxos de capitais.

Quais os pontos pendentes? Se a crise de 2008 foi definitiva ou apenas o primeiro abalo sísmico, ao qual se seguirão outros abalos até se chegar ao novo modelo. A crise do início do século começou com a Primeira Guerra, teve seu epicentro em 1929, continuou durante toda a década, piorou em 1937 até chegar a Breton Woods em 1944,

A lógica é simples. O complexo financeiro entra em crise mas mantém a força política. Afinal, são os gestores de fundos que administram o capital financeiro de grandes investidores, empresários, políticos. A teia de interesses é enorme e sempre há a tentação de tentar encontrar remendos que resolvam a crise.

Com isso, prolonga-se a transição até que esgotam-se todas as artimanhas e se passa ao capítulo seguinte da história econômica.

Aqui, uma entrevista muito boa de Pedro Dias Leites, da Folha, com o economista Niall Freguson, em que ele se vale dessa analogia com os anos 30 para prever os próximos movimentos.

ENTREVISTA DA 2ª – NIALL FERGUSON

“Economia global pode entrar na Terceira Grande Depressão”

Historiador da Universidade Harvard prevê estagnação não tão profunda quanto a da década de 1930, mas longa, com um período de baixo crescimento dos EUA e deflação em vários países

PEDRO DIAS LEITE

DA REPORTAGEM LOCAL

Para o historiador, a decisão de permitir a continuidade de instituições “grandes demais para quebrar” vai contra um dos benefícios das crises financeiras: o fim de modelos que não funcionam e a criação e transformação de novos caminhos, bem-sucedidos. O professor de Harvard afirma que a crise pode levar a uma aceleração de um processo, que já vem acontecendo, de declínio dos Estados Unidos e ascensão da China como nova potência. “Seria perfeitamente familiar, do ponto de vista histórico”, diz. Em uma ou duas décadas, os PIBs dos dois serão equivalentes, aposta. O livro, que figurou na lista de mais vendidos do New York Times, será lançado no Brasil nesta semana. Leia abaixo a entrevista concedida por Ferguson à Folha, por telefone.

A depressão

NIALL FERGUSON – Temo cada vez mais que estejamos entrando na Terceira Depressão, não tão severa quanto a de 1929-33, mas provavelmente tão longa quanto a de 1873-1878. Temos pela frente um período de crescimento baixo na maior economia do mundo, os EUA, e também um ou dois anos de deflação em muitas economias.

FOLHA – Olhando historicamente, existe alguma diferença entre essa Terceira Grande Depressão e as anteriores, para a população?

NIALL FERGUSON – Uma das grandes diferenças é que os atuais sistemas de bem-estar social e de apoio aos desempregados são muito melhores que os anteriores. Os governos tiveram um papel muito mais ativo na condução da economia, então vimos ações extraordinárias dos bancos centrais para injetar liquidez no sistema -e também enormes déficits dos governos enquanto tentam impulsionar a economia. Isso vai ser diferente e é por isso que não estamos vendo um colapso severo como o dos anos 30. Mas não dá para conseguir tudo. Estamos começando a ver os limites das respostas monetárias e keynesianas a esta crise.

Os novos atores

FERGUSON – Há duas coisas diferentes. Primeiro, vai ser uma economia mundial em que países como China, Índia e, claro, o Brasil terão um papel muito maior, com os EUA, a Europa e o Japão menos dominantes.

A volta dos bancos conservadores

O segundo ponto importante é que as economias desenvolvidas, particularmente os EUA, não serão capazes de reavivar o antigo modelo de securitização [em que dívidas são aglutinadas, transformadas em títulos e vendidas como investimento], de bancos de investimento e de crédito ao consumidor. O que vamos ver nos EUA e também na Europa é um retorno a um modelo financeiro mais antiquado. Digo isso com alguma hesitação, porque neste momento os governos desses países estão falando em novas regulações que parecem mirar em reviver esses dinossauros e mantê-los vivos. Em outras palavras, medidas estão sendo tomadas para impulsionar instituições que eram vistas como “grandes demais para quebrar”. E eu concordo com os que dizem que, se algo é grande demais para quebrar, é grande demais mesmo, e provavelmente não deveria existir. Mas a tendência da nova regulação é a de manter esses dinossauros vivos, o que vai criar mais problemas. O que mais precisamos neste momento é um retorno a instituições financeiras menores e menos vulneráveis, mas o que vamos pegar é um tipo de megassuperbanco nacionalizado.

A década perdida

FOLHA – Então, nesse caso, o curso natural da história não está sendo respeitado e pode ser a semente de uma nova crise mais para a frente?

FERGUSON – O perigo de intervir desse modo é acabar com um tipo de “década perdida”, no estilo japonês, em escala global. Minha esperança é que serão tomadas medidas para quebrar esses gigantes perigosos, como o Citigroup e o Bank of America. Se essas instituições forem divididas e houver novas instituições, aí pode haver razões para otimismo. Senão, as perspectivas são bastante ruins.

História e economia

FOLHA – Seu livro vai até a origem do dinheiro. Sempre é feita a comparação da economia de agora com a da década de 30, mas, sob um ponto de vista mais amplo, com que outros pontos da história a atual era pode ser comparada?

FERGUSON – Há muitos paralelos. Parte do objetivo do livro é mostrar como a história financeira explica a geopolítica. Pense no declínio dos impérios português e espanhol, que nos 1600 pareciam os protagonistas da economia global. O declínio da Espanha foi claramente financeiro, porque a disponibilidade de prata do Novo Mundo teve o efeito de minar a saúde institucional do império espanhol e abrir o caminho para novas potências financeiras. Primeiro a Holanda, e depois, claro, a Inglaterra. A França era um império poderoso no século 18, mas, financeiramente, um império fraco, que em última análise caiu exatamente por isso -a Marinha britânica era muito maior, porque os franceses não tinham um mercado de “bonds”, não tinham a capacidade de se financiar naquela escala. No século 20, é o Reino Unido que está em problemas, como consequência de dívida e baixo crescimento, especialmente depois de 1945. Então seria perfeitamente familiar, de um ponto de vista histórico, se essa crise financeira levasse a uma aceleração da mudança dos Estados Unidos para a China. Nós já vimos nos últimos dez anos que a liderança parece estar mudando em direção à China. Embora isso leve tempo e seja imprevisível -já que a China pode sempre entrar em dificuldades-, é razoável dizer que em 10 ou 20 anos os PIBs da China e dos EUA não serão diferentes.

A Chiméria

FOLHA – O senhor cria a “Chimérica” no seu livro, o que é isso?

FERGUSON – Meu argumento é que, para entender a economia mundial, é necessário entender a relação entre a China e a América [EUA]. A China exportadora, a América importadora. A China poupadora, a América gastadora. Essa relação esteve no centro da economia global nos últimos dez anos, e o interessante é perguntar se a crise levará ao fim da “Chimérica”. A China tem reclamado cada vez mais do modo como os EUA lidam com a crise.

FOLHA – A China tem falado constantemente numa alternativa ao dólar.

FERGUSON – Isso tem se tornado tão frequente de Pequim que parece que eles realmente querem dizer isso. Eles têm US$ 1,5 trilhão em títulos em dólar e ficam muito nervosos com os EUA tomando medidas que podem enfraquecer o dólar e, assim, suas reservas. Isso pode parecer o fim desse casamento. Quando cunhei essa expressão, pensei na palavra quimera, uma criatura mítica. Não acho que seja uma relação estável.

A não-linearidade da história

FOLHA – É possível ver uma trajetória linear na evolução econômica do mundo ou é algo errático? Estamos indo em alguma direção ou não?

FERGUSON – O paralelo que eu traçaria é um que me bateu quando eu estava na Bolívia, observando os Andes. Olhando as linhas das montanhas, dei-me conta de que estava olhando algo parecido com os índices do mercado financeiro, os picos, as quedas bruscas, os pontos agudos. E acho que essa analogia é válida. Na economia, as coisas quebram, no sentido de seleção natural, existe a sobrevivência, inovações ou mutações acontecem, novas instituições são criadas. São as bem-sucedidas que sobrevivem e se multiplicam. A diferença é que, ao contrário do mundo natural, temos intervenção de reguladores e legisladores, o que previne o processo natural de acontecer. Uma das maiores diferenças entre evolução natural e evolução financeira é que essa pode ser interrompida, os dinossauros podem ser salvos da extinção, e os mamíferos, impedidos de herdar a Terra. É um pouco isso o que está acontecendo, com instituições que deveriam ter quebrado, mas interviemos para mantê-las vivas.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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