O som, a sesta e a fúria de Mário Lima

Por Claudio Leal na Terra Magazine.

O líder petroleiro Mário Lima, vitimado aos 74 anos por um AVC, em Salvador, na sexta-feira (10), provou no sindicalismo o gosto épico da formação da Petrobras, das investidas pioneiras em território baiano ao mergulho cívico no Pré-sal. Afastado nos últimos anos das refregas diárias do Sindpetro (Sindicato dos Petroleiros da Bahia), o primeiro do setor no Brasil, do qual foi fundador, Lima guardava histórias à farta da era do sindicalismo brasileiro pré-1964, de JK a João Goulart.

Negro, prosa mansa, Mário Lima tinha acesso ilimitado aos gabinetes federais. Ele liderava o mais atuante sindicato de petroleiros – fonte de seus votos pelo PSB – e sabia amaciar radicais e pelegos; era “metade PSD, metade Coronel Reis”, define o jornalista e amigo Sebastião Nery, referindo-se ao chefe político de Glória (BA), cidade natal de Lima, às margens do Rio São Francisco.

Deputado federal constituinte na década de 80 (subia à tribuna com o capacete da Petrobras), Mário sustentou musculatura política até o golpe militar de 1964, quando foi preso e confinado na Ilha de Fernando de Noronha, em dependência próxima às dos governadores depostos Miguel Arraes e João de Seixas Dória.

A sede revanchista contra o sindicalista baiano não deixava de estar ligada ao máximo estreitamento de relações entre Estado e sindicatos. Jango permitia a Lima uma intimidade, um calor amigueiro, uma afabilidade, o que pode ser visto como uma artimanha do presidente-estancieiro, herdeiro incompleto de Getúlio Vargas. “Eu nem precisava bater na porta de Jango”, dizia Mário Lima.

Mas algumas vezes o ex-ministro Antonio Balbino bateu na madeira ao ver corroer a autoridade presidencial. Consultor-geral da República, Balbino ouviu um sindicalista dirigir-se ao Excelentíssimo Senhor: “Ô Jango, tu….”. Sentiu o ímpeto de raspar as paredes do Planalto ao ouvir outro visitante aconselhar Jango a não encaminhar um pedido ao consultor-geral: “Com esse cara estamos perdidos!”. Alvo da ofensa, Balbino aguardou a reprimenda de Jango, mas, ao sentir que esta não viria, tratou de soltar perdigotos e exigir respeito.

Mais cerimonioso nos lances de intimidade, Mário Lima liderou a campanha “Ou equipara ou aqui pára”, que exigiu o nivelamento salarial da Bahia com os trabalhadores do Rio e de São Paulo, em 1960. O governador Juracy Magalhães mandou cercar a refinaria de Mataripe, o centro petrolífero que lançava uma chama solitária nas noites imensas da Baía de Todos os Santos. Cobrindo a greve pelo Jornal da Bahia, Nery furou o cerco e testemunhou a coragem do “negro obâmico”.

De volta à redação, no Centro de Salvador, o jornalista político redigiu uma nota incendiária contra o governador baiano. “Juracy mandou a PM, que deu muitos empurrões. Ele dizia que não era mais o tenente com o revólver na mão, mas o general com o terço. Aí escrevi: Juracy bate de terço!”, conta Sebastião Nery, mais tarde um antijuracisista enragé. “Mário virou herói e foi eleito com uma votação extraordinária”.

Em 1º de abril de 1964, ao saber da ocupação da refinaria de Mataripe, Mário Lima foi cobrar notícias precisas do governador Lomanto Júnior sobre a prisão dos trabalhadores. Na escadaria do Palácio da Aclamação, travou um diálogo áspero com o secretário de Segurança Pública, Francisco Cabral, que já estava alinhado com os golpistas e ignorava as ordens de Lomanto.

Cabral mandou prender o deputado federal, abrindo uma crise de autoridade no governo. Correu o boato de que Lima teria ameaçado “explodir” Mataripe. Essa história contraria tanto o ar cordato do sindicalista como a impossibilidade tática da ameaça. Depois de ser lançado num poço solitário no colonial Quartel do Barbalho – um outro tipo de poço, embora também sujo de óleo -, viu a saúde minguar. Numa masmorra idêntica, estava o companheiro Nery.

Sequestrado, Mário aterrissou na Ilha de Fernando de Noronha – onde já estivera em degredo o jornalista Helio Fernandes -, convertida em cárcere dos inimigos do regime militar. Nunca chegou a trocar palavra com o pequenino Seixas Dória (o “réu sem crime”), mas interferiu pela transferência de Miguel Arraes. Alertou ao administrador da Ilha, o coronel Costa e Silva:

– Desculpe, coronel, mas vou dar um palpite. Tiraram o Seixas daqui. Sou jovem, estou sozinho, não tenho problema nenhum. Mas ficou o Dr. Miguel Arraes, um homem nacional, que já tem 50 e tantos anos. O senhor já pensou se ele tem um infarto? Se morre o Arraes? Por mais que o senhor diga que ele é um convidado do senhor, vão achar que ele foi morto em Fernando de Noronha…

Entre fumaças de charuto, o velho Arraes gostava de recordar esse espevitado conselho. Dali a dias o ex-governador pernambucano seria transferido para Recife – em seguida, o exílio.

Este é o Mário Lima público. Mas, que tipo! o homem dos bares.

Cassado, livre dos cárceres, ele viajou para São Paulo em 1965, disposto a comemorar o aniversário com os amigos Hélio Duque, José Wilson, Sebastião Nery, Domingos Leonelli e Nelito Carvalho, também escondidos na capital paulista. Destino: Bar Pilão, Arouche. Numa mesa do canto, tristíssimo, o cantor Carlos Galhardo (“com aquele cabelão de puteiro, mal pintado”, brinca Nery). Convidado de Lima, Wilson berrou, porreteiro: “Olha quem tá ali: aquele merda do Carlos Galhardo!”. Para evitar uma briga – e a chegada da polícia -, Lima ergueu a voz:

– Fora daqui! O senhor não tem dignidade para ficar em nosso meio!

Ali restaram os dignos, sorvendo caipirinhas. A namorada de Nelito, Marilu, era cantora do bar e atendeu ao pedido cavalheiresco de um trovador: emprestou seu violão para ele tocasse. Na terceira música, o desconhecido recebeu o abraço consagrador de Carlos Galhardo, e mais os aplausos da mesa dos subversivos. Empolgado, o cantor anônimo mandou servir uísque para os fãs. Ainda mais grato, sentou na mesa, sorriu e pagou a conta da noitada. A caminho de casa, Mário vomitou no táxi de um português. “Ou pagam a limpeza ou chamo a polícia!”, clamou o chofer. Uma furtiva cédula foi jogada no banco traseiro e todos os amigos sumiram nas ruas do Centro.

Repórter da Folha de S. Paulo, Hélio Duque decidiu pegar o jornal rodado na madrugada. Lá estava uma entrevista do cantor anônimo. Bem, este era seu segundo ofício. Durante o dia ele atuava como delegado-geral de Ordem Política e Social de São Paulo, cuja especialidade não era servir uísque, mas fazer cantar os inimigos do regime…

Outro Mário Lima numa mesa do Chez Bernard. Em 2006, num almoço, embalado por um vinho, levantou-se da mesa e… desapareceu. Corremos os olhos nas outras mesas – nem sinal. Na porta do restaurante, em Salvador, Mário reaparece: fazia uma sesta dentro do carro. Era a metade Coronel Reis que dormia, a evocar as tardes nas varandas do São Francisco.

Após duas horas de discursos de amigos, políticos e ex-sindicalistas, o líder petroleiro foi enterrado no sábado, 11 de julho, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Nesse borbulhar de orações fúnebres, havia também o desejo de que Mário fosse dormir mais tarde.

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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