Krugman: Escaldando o sapo

Será que os Estados Unidos estão a caminho de se tornar um sapo escaldado? Estou me referindo àquele sapo que, segundo o ditado, seria colocado num recipiente com água fria, a qual, gradualmente aquecida, acaba escaldando o sapo vivo, sem que ele perceba o perigo que corria.

Por Paul Krugman*, do The New York Times, no jornal O Estado de S. Paulo

Na verdade, os sapos reais saltam para fora do recipiente antes que isto aconteça – mas não importa. O hipotético sapo escaldado é uma metáfora útil para descrever um problema concreto: a dificuldade de responder aos desastres que se aproximam pouco a pouco. E desastres que se aproximam pouco a pouco são o que mais enfrentamos hoje em dia.

Comecei a pensar no sapo escaldado recentemente enquanto observava o estado deprimente do debate acerca das medidas econômicas e ambientais.

São duas áreas nas quais existe um lapso de tempo significativo entre a adoção das medidas e o impacto do efeito pretendido – um ano ou mais, no caso da economia, décadas no caso do planeta. Ainda assim, é muito difícil convencer as pessoas a fazer o necessário para evitar uma catástrofe anunciada.

No momento, tanto o sapo econômico quanto o sapo ambiental estão imóveis enquanto a água continua a esquentar.

Vamos começar com a economia: no fim do ano passado, a economia passava por uma crise aguda. E houve uma resposta relativamente forte sob a forma do plano de estímulo de Obama, mesmo que este plano não tenha sido tão forte quanto acreditamos que devesse ser.

No momento a crise aguda deu lugar a uma ameaça muito mais insidiosa. A maioria das previsões econômicas espera que o Produto Interno Bruto volte a crescer logo, caso isso ainda não esteja ocorrendo. Mas tudo indica que se trate de uma “recuperação sem empregos”: na média, analistas entrevistados pelo The Wall Street Journal acreditam que a taxa de desemprego vai continuar aumentando até o ano que vem.

Já é ruim o bastante ficar desempregado por algumas semanas; é muito pior ficar desempregado por meses ou anos. Mas é exatamente isso o que vai acontecer com milhões de americanos se a previsão média se confirmar – o que significa que muitos dos desempregados perderão poupanças, lares e mais.

Para evitar esse resultado — lembre-se, não são as Cassandras da economia que estão dizendo isso; a previsão é consenso entre os analistas — precisamos adotar uma nova rodada de estímulo. Mas nem Congresso nem a administração Obama estão se mostrando inclinados a agir. O sentido de urgência parece ter desaparecido.

É provável que isso mude quando a realidade da recuperação sem empregos se tornar aparente demais. Mas, então, será demasiado tarde para evitar um desastre em câmera lenta. Ainda assim, o problema do sapo escaldado da economia não se compara ao problema de mobilizar-se contra a mudança climática.

Consideremos o seguinte: se o consenso entre os especialistas na economia é desanimador, o consenso entre os especialistas no clima é simplesmente aterrador. A previsão central dos principais modelos climáticos é uma catástrofe.

Evitar essa catástrofe deveria ser o tema central debatido pelos governos da nossa época.Mas não é o que ocorre, porque a mudança climática é uma ameaça que se aproxima lentamente. A verdadeira dimensão da catástrofe só se tornará aparente daqui a décadas, talvez gerações. Na realidade, devem provavelmente faltar anos até a tendência ascendente nas temperaturas ser tão perceptível para os observadores casuais a ponto de calar os céticos.

Infelizmente, se esperarmos até a crise ficar tão óbvia para tomar as medidas necessárias, a catástrofe já terá se tornado inevitável.

E, apesar de uma grande legislação ambiental ter sido aprovada no Congresso, a qual representa uma conquista política impressionante e inspiradora, essa legislação ficou muito aquém daquilo que o planeta realmente necessita – apesar disso, a proposta enfrenta dificuldades para garantir sua aprovação no Senado.

O que faz dessa paralisia nas medidas tão alarmante é o fato de tão pouco estar ocorrendo quando a situação política parece, ao menos na superfície, tão favorável à ação.

Afinal, os adeptos da economia do lado da oferta e os céticos da mudança climática não controlam mais a Casa Branca nem as principais comissões do Senado. Os democratas contam com um presidente popular à sua liderança, uma grande maioria na Câmara dos Deputados, e 60 votos no Senado. Não se trata da antiga maioria democrata, composta pela estranha coalizão formada entre liberais do norte e conservadores do sul. Em termos históricos, trata-se de um bloco progressista relativamente sólido.

Para que não haja dúvidas, tanto o presidente quanto a liderança do partido no Congresso compreendem as questões econômicas e ambientais perfeitamente bem. Assim, se não conseguirmos agir agora para evitar o desastre, o que será necessário para mobilizar a todos? Não sei a resposta. E é por isso que fico pensando em sapos escaldados.

*Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia

 

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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