Baiana conta como sobreviveu à Guerrilha do Araguaia

Do jornal Correio

Cadeira do dragão, choque elétrico, pau-de-arara, afogamentos, socos e pontapés são técnicas de tortura que Luzia Ribeiro conhece bem. Conhecimento que vem não dos livros de história, mas de quem sentiu na pele a mão de ferro da ditadura militar.  

Sobrevivente da Guerrilha do Araguaia e única baiana do grupo de 15 combatentes que escaparam da morte, ela diz estar cansada de narrar sua trajetória na luta armada. O que interessa à socióloga é a identificação das ossadas já encontradas ou a descoberta das covas onde dezenas de corpos foram enterrados.

“Quero falar dos heróis”, afirma, referindo-se aos homens e mulheres cujas sepulturas nunca foram preenchidas. Nos últimos dias, Luzia tem andado à base de calmantes. Só concordou em falar com o Correio por causa das mais recentes notícias sobre a guerrilha, que estouraram na imprensa após a divulgação dos arquivos secretos mantidos em poder durante 34 anos pelo major Sebastião Curió Rodrigues Moura.

O militar foi o comandante da Operação Sucuri, que resultou no desaparecimento de 59 guerrilheiros em 1973. Em recente entrevista à Veja, Major Curió admitiu que o Exército executou 41 integrantes da guerrilha, mesmo depois que eles já estavam presos. A notícia deflagrou um movimento de organismo ligados aos direitos humanos para que o governo encontre as ossadas.

Segundo o ministro Nelson Jobim, as escavações começam em agosto. Com isso, Luzia espera que sejam recuperadas as ossadas de diversos amigos seus. Entre eles, nove baianos. Até o momento, apenas a professora paulista Maria Lúcia Petit foi oficialmente reconhecida.

Mas peritos têm fortes indícios de que o esqueleto encontrado há 13 anos no cemitério de Xambioá (TO) e batizado como X-2 seja do guerrilheiro cearense Bergson Gurjão Farias, o Jorge.

LEMBRANÇAS Até então, Luzia mantinha um aspecto de serenidade durante a entrevista. Mas, ao falar de Bergson, as mãos trêmulas e o olhar distante evidenciaram que havia algo mais a dizer sobre o cearense.

“Você perguntou se eu tive um caso de amor durante os meses em que vivi na guerrilha. Tive com ele”, conta. Bergson foi o responsável pelo treinamento de Baianinha, seu codinome na clandestinidade. “Tinha muitas dificuldades em manejar armas, essas coisas, por que eu era uma garota de classe média”, admite. 

Luzia conta que Bergson morreu para salvar integrantes do grupo que chefiava em um dos três destacamentos da guerrilha. ‘A população o viu ser enterrado após a emboscada montada pelo Exército.

INÍCIO Luzia Ribeiro era apenas uma estudante secundarista de Jequié, no sudoeste do estado, quando veio morar em Salvador.

Era 1967 os militares já mostravam sinais de que iriam engrossar o caldo contra as manifestações que pediam a volta da democracia. Foi no colégio Iceia que Luzia entrou em contato com líderes estudantis.

Em 1968, participou de passeatas e protestos. No mesmo ano, já no curso de ciências sociais da Ufba, veio o AI-5 e a liberdade foi abafada nos porões. Integrante do PCdoB, passou a ser perseguida.

No início dos anos 70, depois de passar dois meses escondida em um convento no bairro de Roma, ela acabou optando pela luta armada a partir do campo. Cerca de seis meses depois, em 1972, acabou presa pelo Exército, junto com outros 14 militantes.

Foram os únicos que escaparam. O restante ou foi executado ou morreu em combate. “Era uma época em que eles ainda não matavam os guerrilheiros”. Nos porões das cadeias, foi torturada e obrigada a assinar confissões. Sobreviveu e, hoje, revisando o passado, pensa que só a paz pode resolver conflitos.

Paz que ela ainda espera para os familiares dos mortos e desaparecidos.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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