A Guerrilha do Araguaia e o jornalismo que ronca

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“O movimento (a Guerrilha do Araguaia) foi organizado pelo PCdoB e seus integrantes pretendiam derrubar o governo e instaurar o comunismo, iniciando o movimento pelas zonas rurais.”

Essa frase, tirada de um despacho de uma agência de notícias, dá bem a medida do que é o jornalismo “formado” e predominante no Brasil.

Na cobertura do caso do Araguaia, é possível ver a pobreza, a mediocridade e a maledicência da mídia.

O jornalista que escreve uma asneira como a da frase acima demonstra bem que ele não sabe o que foi a Guerrilha, o que é o PCdoB, o que foi a ditadura militar, o que é o socialismo e muito menos o que é o comunismo.

É o mesmo princípio do noticiário que rotula os países socialista como “regime comunista”, “ditadura comunista” e coisas do tipo.

E que classifica a imprensa desses países como “oficial” — como se esse tipo de mídia dita “livre” fosse algo neutro, uma coisa meio mística, acima do bem e do mal, imune às qualidades e defeitos da humanidade.   

Casos como esses se vê aos montes na mídia, que a cada dia nos apresenta exemplos dos mais edificantes — como o dessa frase infeliz.

Suas explicações para fenômenos sociais e processos históricos invariavelmente se encaixam naquele tipo de resposta que se dá às crianças de certa idade que não perguntam para saber, mas pelo perguntar.

Essa dissemântica é velha, mal de nascença.

Entre seus princípios está essa pregação idiotizada contra a corrupção.

Na verdade uma pregação politiqueira, golpista, que vem da UDN e hoje atinge o presidente do Senado, José Sarney.

O caso mais emblemático recente foi a ameaça golpista contra o presidente Luiz Inácio da Silva.

Hoje, passados algum tempo, sabemos que aquela corrupção tinha um limite semântico — o tal “mensalão” — só compreendido por aqueles que o inventaram.

Mas para a propaganda contra o governo, o nome não poderia ser melhor.

E era só isso.

Porque se fosse mesmo corrupção naquelas dimensões, no conceito da língua portuguesa, teríamos tido exposições monumentais em praça pública de ladrões cercados de cartazes especificando os crimes de cada um.

O que houve ali foi o estardalhaço natural de quem falsifica os fatos — principalmente quando lhe faltam glórias próprias.

Muitas vezes essas falsificações são imposições a jornalistas, massacrados pela ditadura dos donos do poder, que sequer têm tempo de estudar as leis e meditar sobre os problemas nacionais, de auscultar o coração do povo, de ler e entender os processos sociais.

Muitos nem foram formados neste espírito e, em terra de batráquio, precisam se agachar para não ser atingido pela língua do sapo.

Em parte, isso também decorre da manifesta deficiência do jornalismo “formado” e meia-boca.

O famoso orador romano Marco Túlio Cícero dizia que uma boa história precisa responder as perguntas quem? (quis/persona), o quê? (quid/factum), onde? (ubi/locus), como? (quem admodum/modus), quando? (quando/tempus), com que meios ou instrumentos? (quibus adminiculis/facultas) e por quê? (cur/causa).

O historiador Nelson Werneck Sodré, na brilhante História da Imprensa Brasileira, escrita em 1966, disse:

“O desenvolvimento da imprensa no Brasil foi condicionado, como não poderia deixar de ser, ao desenvolvimento do país. Há, entretanto, algo de universal, que pode aparecer mesmo em áreas diferentes daquelas em que surgem por força de condições originais: técnicas de imprensa, por exemplo, no que diz respeito à forma de divulgar, ligadas à apresentação da notícia.”

Ele cita o exemplo do tristemente famoso lead e sua regra dos cinco W e um H — Who (quem), When (quando), What (que) Where (onde), Why (por quê) e How (como) — uma deformação do pressuposto de Marco Túlio Cícero.

Segundo Sodré, a aplicação das regras do lead leva, inevitavelmente, à transformação de um problema social, cuja raiz está na estrutura da sociedade, em fato isolado.

“Utilizando aplicadamente, por exemplo, a técnica do lead, o foca (jornalista principiante) norte-americano transforma qualquer sinal de um problema social constante em fatos isolados que se repetem diariamente e cujas raízes reais ficam apagadas sob os detalhes específicos de cada historieta”, escreveu.

Não poderia ter definido melhor o que é esse jornalismo que ronca.

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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