A luta democrática e o Araguaia

 Do blog doPaulo Fonteles Filho

Acabo de chegar ao hotel em que estou hospedado em Marabá, depois de uma jornada de um dia inteiro andando pela mata, na Base de Selva Cabo Rosas, com militares, antropólogos, geológos, médicos legistas, Aldo Arantes e reporteres ávidos por furos e matérias de uma vida inteira.

Por vezes, naquele nicho de selva amazônica preservada, entre subidas e descidas, passando por grotas e percorrendo um terreno acidentado pensei em que tipo de coisa, afinal, estamos envolvidos?

Me vêm em mente as memórias de uma vida inteira, a militância, a honestidade que sempre devemos ter com nossas idéias, as histórias que fui colhendo, de guerrilheiros e camponeses, por mais de uma década. Além disso têm as andanças, currutelas, finais de tarde onde o caudaloso Araguaia parece se refugiar num céu imenso capaz de fazer sonhar todos os meninos de minha infância.

O Brasil quando se debruça sobre o Araguaia, como aspecto decisivo para a efetiva construção do direito à memória e a verdade, passa à limpo um tortuoso período da vida nacional e busca consolidar a sua democracia. E essa é a questão política de fundo que deve iluminar nossas mentes e corações.

Tal empreendimento é uma tarefa historica e necessidade para o próprio desenvolvimento da vida nacional brasileira porque o processo democrático está em construção permanente, é algo perene, em movimento, dinâmico e está vinculado à aspirações profundas no sentido de entender e interpretar o Brasil contemporâneo.

A luta a qual estamos inseridos vai se iniciar, ou pelo menos ter um marco fundamental apartir da primeira caravana de familiares que, no segundo semestre de 1980 percorreu os sertões do baixo-araguaia, sob o cutelo do controle extremo do Conselho de Segurança Nacional que, a rigor, iniciava, através do Grupo de Terras Araguaia-Tocantins a militarização das questões fundiárias na região do Bico-do-Papagaio. Alí, nos dois anos anteriores cerca de 250 mil hectares de terras foram ocupados pelo movimento social camponês.

Fico pensando na fibra daqueles pais e mães, já idosos, percorrendo de ônibus ou em barcos a imensa região banhada pelo rio dos karajás e todos, segundo o que conta a memória, sem reclamar de absolutamente nada, a não ser do Exército de então que fez de seus filhos pessoas desaparecidas.

Alí, naquela primeira expedição, que sistematizou um conjunto de informações sobre o conflito armado no sul do Pará, algumas questões foram indicadas e uma a uma comprovadas ao longo destes 29 anos.

A primeira verificação dos caravaneiros foi o fato de que realmente houve a guerrilha do Araguaia.

A segunda, alvo de grande debate da esquerda brasileira no início da década de 1980 era o fato se aquele movimento teve ou não apoio popular.O rigor documental, e nisto se inclui a memória popular, indicam amplo apoio dos camponeses à causa dos combatentes.

A terceira dizia respeito à consciência de que a população local foi absolutamente massacrada e violada em seus direitos e, a decisão de anistiar e reparar economicamente muitos daqueles torturados é um importante passivo em direitos humanos do país que agora, finalmente, vai se resolvendo.

A quarta e última conclusão da caravana de 1980 fora o fato de que muitos guerrilheiros haviam sido presos com vida e se encontravam desaparecidos.

Recentemente, o Major Curió decidiu abrir os arquivos e revelou que 41 brasileiros foram mortos covardemente, à sangue frio.

Uma pendência, como uma simbiose, acompanha todo o leito deste processo tortuoso: onde estarão os mortos e desaparecidos do Araguaia?

No curso das últimas três décadas essa questão têm aparecido na vida brasileira como um episódio que nos agrilhoa ao passado, num verdadeiro AI-5 mental que não nos deixa, em definitivo, cuidar com plenitude das tarefas do futuro no sentido de aperfeiçoar nossa vida democrática e as instituições republicanas, além de ir calcificando uma cultura política da impunidade que rebaixa, cada vez mais, a força do interesse popular no sentido de se dirigir ao centro das decisões que são tomadas em nome da maioria. Ora, porque não é em nome da verdade e da justiça que votamos ou somos votados?

A questão é que os recalcitrantes que insistem em esconder arquivos são espécimes unidos pela força gravitacional do obscurantismo que só existe e terá vida enquanto a luta democrática não for finalmente vitoriosa.Isso, porque, talvez, tenham medo da corte de Haia.

Quando a Nação brasileira prover o milenar direito de podermos enterrar, com as honras de nossa época aqueles que lutaram pelo futuro que afinal estamos vivendo teremos consolidado importante passo para que o passado jamais retorne à nossas casas com suas madrugadas sombrias.

Cada vez mais creio que a superação de toda uma época historica é sobretudo decisão política. O redimensionamento do Grupo de Trabalho Tocantins no sentido de sua ampliação e a decidida luta pela memória nacional é o caminho seguro para o futuro que queremos ter.

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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Uma resposta para A luta democrática e o Araguaia

  1. Luzia Reis Ribeiro disse:

    Gostei muito do que escreveu o filho de Ecilda e Paulo Fonteles que ficaram presos no PIC em 1972, onde tambem estive. Envio uma sugestão ao amigo de fazer um DIARIO de suas andanças pela mata, pela area onde desencadeou a guerrilha onde ficaram seus combatentes mortos.Que sua participaçao seja um registro e que desejamos compartilhar mesmo no pensamento e com o coração, com grande emoção que realmente tenhamos sucesso nas buscas e que não seja mais um teatro dos grupos anteriores..
    Luzia uma sobrevivente do destacamento C.

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