Protógenes: Satiagraha dividiu Brasil em dois

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Nesta quarta, um ano depois de deflagrada a Operação Satiagraha, o delegado Protógenes Queiroz avalia: Dantas ataca porque não tem defesa  

Por Marcela Rocha, na Terra Magazine.

Operação Satiagraha, um ano depois: “O Brasil se dividiu entre os que são contra Daniel Dantas e as práticas ilícitas que o envolvem e os que são a favor”, define o delegado Protógenes Queiroz, o responsável pela operação da Polícia Federal que prendeu o banqueiro do Opportunity, em 8 de julho de 2008. Nesta quarta, em entrevista a Terra Magazine, Queiroz avalia os desdobramentos das investigações conduzidas por ele, até ser afastado em 15 de julho de 2008.

– O Brasil de ontem não é mais o de hoje. No dia 8 de julho ficou clara uma divisão do País. A maioria do povo demonstrou indignação e repulsa pelo que realmente aconteceu. Frente à tentativa de proteção ao banqueiro Daniel Dantas, frente aos instrumentos jurídicos utilizados para isto, além dos pronunciamentos públicos de pessoas importantes da República em favor do banqueiro condenado. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso o chamou de gênio financeiro, isto é uma lástima – critica o delegado.

À época, a PF cumpriu 24 mandados de prisão. Na ação deflagrada nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e em Brasília, foram presos, além do banqueiro Daniel Dantas, dono do grupo Opportunity, sua irmã Verônica e seu ex-cunhado e dirigente do OPP, Carlos Rodenburg, o também diretor Arthur de Carvalho, o presidente do grupo, Dório Ferman, o especulador Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.

Após nova denúncia feita pelo procurador da República Rodrigo De Grandis na sexta-feira, 3, Protógenes confirma que foram mantidos “integralmente” os crimes apontados por ele enquanto comandava a operação. Afirma que o procurador foi “muito feliz” ao requisitar a instauração com urgência de três novos procedimentos, em especial o da BrOi, que, segundo o delegado, “já era para ter sido instaurado no ano passado porque requisitei que a PF prosseguisse”.

Hoje, afastado da Diretoria de Inteligência da PF, Protógenes afirma que não teria feito nada diferente do que fez. E acrescenta: “Muito pelo contrário. Hoje eu ampliaria, teria mais infra-estrutura para impor uma senilidade maior que o processo requer. Haja vista que a segunda denúncia saiu depois de um ano”.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Terra Magazine – Quando da deflagração, o senhor mencionou que a operação dividiria o Brasil. Dividiu? Quais são os lados dessa história?

Protógenes Queiroz – O Brasil de ontem não é mais o de hoje. No dia 8 de julho ficou clara uma divisão do País. A maioria do povo demonstrou indignação e repulsa ao que realmente aconteceu. Frente à tentativa de proteção ao banqueiro Daniel Dantas, frente aos instrumentos jurídicos utilizados para isto, além dos pronunciamentos públicos de pessoas importantes da República em favor do banqueiro condenado. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso o chamou de gênio financeiro, isto é uma lástima. Identificado o grande esquema de corrupção destinado a desvio de riquezas do País, uns se indignam, outros se propuseram a proteger e defender a todo custo os interesses do banqueiro condenado. Isto só mostrou que as pessoas estavam vinculadas a ele.

O Brasil se dividiu entre…

Os que são contra o Daniel Dantas e as práticas ilícitas que o envolvem e os que são a favor.

Em que medida a nova denúncia feita pelo procurador Rodrigo De Grandis confirma os crimes anteriormente apontados pelo senhor? 

Integralmente. Inclusive o procurador foi muito feliz ao requisitar a instauração com urgência de três novos procedimentos, em especial o da BrOi, que já era para ter sido instaurado no ano passado porque eu requisitei que a PF prosseguisse, mas isto não foi feito. O MP teve grande lucidez em razão das provas coletadas que materializam e apontam a autoria de fraude e participação de várias pessoas no esquema da BrOi. Além de outros crimes que eu já apontava no meu relatório, como gestão fraudulenta que eu já tinha indiciado, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, evasão de divisas. Eu já apontava isto e dados para incluir o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. Pedi a prisão dele porque praticou trafico de influência além de outros crimes correlatos, que provavelmente serão apontados com o aprofundamento da investigação. O procurador vai nesta linha de conduta ao requisitar nova investigação para analisar Greenhalgh e outros vinculados.

Neste período, como o senhor avalia a estratégia de defesa de Daniel Dantas e como isto se materializou na denúncia do Ministério Público? Influenciou em alguma medida para que o MP formatasse sua denúncia de maneira diferente? 

Não foi uma nova forma à denúncia. Ela reproduz exatamente todos os dados da primeira fase e não desvia dessa linha de investigação até porque não há como fazê-lo, crimes financeiros são materiais. Então, enquanto material, nós extraímos dados a partir de extratos bancários. Agora, há um ano Daniel Dantas usa a estratégia de desclassificar o trabalho tendo em vista que não há outra hipótese de defesa para ele senão anular o que foi construído. São crimes muito difíceis de serem defendidos ainda mais quando se tem interceptações muito bem feitas com a produção de grandes volumes de informação.

Os HDs ainda estão na CIA e o Brasil aguarda a decodificação. Não poderia ter sido feito aqui? A demora é prejudicial?  

Eu não posso avaliar a decisão de enviar o HD para os EUA, mas uma coisa é certa: tem que se exigir a conclusão desses trabalhos porque a demora é prejudicial ao andamento das investigações e das duas ações penais em curso. Esses HDs são valiosíssimos e revelarão o tamanho do esquema corrupto montado pelo banqueiro ao longo de 20 anos.

A denúncia de De Grandis indica uma relação de Dantas e do grupo dele com setores da mídia. Como vê esta relação? 

É uma relação espúria, criminosa. Manipular informações para causar prejuízos a terceiros é crime. Isto foi desde o início apontado na investigação. Foi mostrada a relação que ele mantinha com determinados jornalistas.

O senhor acha que foi uma decisão acertada abrir um capítulo sobre a mídia na operação? 

Sim, foi acertada. Entendo que tem que aprofundar sobre essa questão que se trata de uma relação criminosa. Quando esses profissionais aderem a esse tipo de conduta, merecem uma apreciação judicial e uma responsabilidade criminal.

O senhor foi muito acusado… 

Meu sentimento é de dever cumprido apesar de eu ter sido alvejado com uma perseguição interna e externa.

No dia da operação… 

Um sentimento de pátria. Isto foi bem marcante. Um sentimento de que precisamos construir um país melhor nem que seja necessário refundar a República.

Teria feito alguma coisa diferente do que fez? 

Não. Muito pelo contrário. Hoje eu ampliaria, teria mais infra-estrutura para impor uma senilidade maior que o processo requer. Haja vista que a segunda denúncia saiu depois de um ano.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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