O “arquivo secreto” nem tão secreto do “major Curió”

Por Emanoel Reis, no site Imagens e Notícias da Amazônia

Surpreende o repentino interesse da Advocacia Geral da União (AGU) e da Imprensa nacional nos “arquivos secretos” do “major Curió”, codinome do oficial reformado do Exército, tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura. No município de Curionópolis, distante cerca de 770 quilômetros de Belém/PA, o “major Curió” nunca escondeu de ninguém ser possuidor de documentos “reveladores” sobre o Guerrilha do Araguaia. E que mantinha toda essa papelada em seu poder desde o final dos confrontos. Isso era o que ele afirmava em tom de pilhéria. Por essa razão, muitos interpretaram como reles fanfarronice.

Infelizmente, não era. Conheci o “major Curió” casualmente no fim dos anos 1980, quando ele era prefeito de Curionópolis. Fui apresentado por um comerciante local como “dono de um jornal da capital” (Belém, no caso). Repassei ao alcaide alguns exemplares do “Resenha Municipal”, um jornal com inclinação de 360 graus à esquerda. Na verdade o periódico pertencia ao jornalista Marcos Moraes de Lima, hoje empresário do setor gráfico.

Talvez por isso, por ter me visto como “jornalista de esquerda”, que o “major” tenha se interessado em conversar comigo. Após as apresentações de praxe e exposição dos motivos de minha visita, concordou em conceder uma entrevista, tipo informe publicitário, para falar sobre as realizações à frente da Prefeitura de Curionópolis. Nem regateou o valor de tabela cobrado por página. E fez mais: ao final do trabalho pagou em cash.

Dispôs um carro para que eu e o fotógrafo Ivanildo Maia, o “Peninha”, o acompanhasse nas visitas às obras em andamento. Foram mais de quatro horas de trabalho que nos renderam excelente material jornalístico (textos e fotografias). Encerrada aquela parte do serviço, o prefeito nos convidou para almoçar na casa dele. Foi após a refeição que rolou a entrevista.

No começo daquela década, “Curió” tinha sido eleito deputado federal pela antiga Arena (Aliança Renovadora Nacional). Sem conseguir renovar o mandato, anos depois disputou e conquistou a Prefeitura de Curionópolis contando com o apoio dos garimpeiros de Serra Pelada. Dessa forma, consolidou na região um feudo mantido com mão de ferro. Durante a entrevista, comentou sobre “alguns documentos” importantes referentes à famosa guerrilha. Inclusive, mostrou umas fichas com nomes e fotos de supostos guerrilheiros.

Não permitiu que manuseássemos os papéis por muito tempo. Olhei rapidamente as fotos e os nomes. Argumentei com ele sobre a veracidade dos documentos. Respondeu que sobre isso “assinava em baixo”. Comentei que por se tratar de documentos históricos – e imprescindíveis para o esclarecimento de aspectos obscuros daquele acontecimento em especial – deveriam ficar disponíveis ao público. Ao que respondeu ser aquele o momento inadequado. E deu o assunto por encerrado.

De volta à redação do “Resenha Municipal”, que funcionava no terceiro andar do Edifício Marc Jacob, na rua 13 de Maio, centro comercial de Belém, às proximidades da sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará, comentei o assunto com várias pessoas, inclusive com o deputado estadual João Carlos Batista (PSB). Nem o próprio socialista deu muito crédito às “inconfidências” de “Curió”.

Nessa mesma semana esbarrei com o jornalista Lúcio Flávio Pinto nas escadarias da Assembleia Legislativa do Estado do Pará e narrei o encontro com o “major Curió”. Um ano antes, Lúcio tinha lançado o “Jornal Pessoal”, cujas edições iniciais foram dedicadas ao assassinato do então deputado Paulo Fontelles (PC do B), ocorrido em junho de 1987. Lúcio demonstrou grande interesse em investigar o assunto.

Ao longo dos anos 1990 a história de que o “major Curió” possuía documentos “secretos” sobre a Guerrilha do Araguaia foi uma constante sempre que a conversa versava sobre o indigesto assunto. Estrelas fulgurantes da esquerda paraense, encrustadas no Partido dos Trabalhadores, que hoje ocupam significativos cargos no governo de Ana Júlia Carepa, sabiam da existência desses documentos. O próprio deputado federal Paulo Rocha, com quem conversei em inúmeras ocasiões sobre o assunto, confessou que os documentos realmente existiam.

Em outubro de 1994 publiquei uma série de três reportagens em o “Diário do Pará” sobre a Guerrilha do Araguaia intitulada “Missão: caçada aos inimigos da Pátria”. Fundamentada em documentos fornecidos pelo ex-agente do SNI (Serviço Nacional de Informações), Rubinete Chagas Nazaré, cujo codinome na “comunidade de informações” era Nelson dos Santos, revelei os bastidores de um período da história brasileira pautado por torturas impiedosas, delações premiadas, execuções sumárias de guerrilheiros, jovens oriundos de vários regiões do País, e prisões arbitrárias de agricultores (homens e mulheres) inocentes.

Acompanhado pelo repórter fotográfico Fernando Nobre, fiz seis visitas à casa de Rubinete Nazaré, na época um senhor idoso, cuja queixa principal era a de ter sido “abandonado pelo governo federal”, apesar dos “relevantes serviços prestados à Nação” como “combatente de guerrilheiros no Araguaia”. Por essas atividades, Rubinete pleiteava uma pensão. Uma espécie de aposentadoria. Como não obtivera sucesso, decidiu abrir seus “arquivos secretos” exclusivamente para nós.

A história pessoal de Rubinete, ou Nelson dos Santos, é longa e complexa. Narrei em detalhes nas três reportagens já citadas. Antes de ser “convocado” pelo Comando da 8ª Região Militar, Rubinete era agrimensor na Secretaria de Estado da Agricultura/PA, à qual fora admitido por concurso aos 29 anos de idade. Mais precisamente em 1956. Impetuoso e admirador confesso do militarismo, não titubeou em aceitar a convocação. Pediu exoneração do cargo e mergulhou nos subterrâneos do Serviço de Segurança Nacional.

No Exército, passou por longo treinamento especial, tornando-se exímio atirador e hábil estrategista em guerra de guerrilha. Técnicas militares de anti-guerrilha.

No auge dos confrontos, em Xambioá, Rubinete revelou ter servido sob as ordens do “major Curió”, e confirmou que o oficial realmente possuía vasto “arquivo secreto” sobre a guerrilha. Mais documentos do que o próprio ex-agente nos apresentava naquele momento. Contei tudo isso nas reportagens.

No final de junho passado, o jornal O Estado de S. Paulo explorou o assunto, em entrevista com o “major Curió”. A revista Veja, edição 2119, de 1º de Julho, também publicou matéria de duas páginas, intitulada “Memórias do Extermínio”. Ambas referentes ao “arquivo secreto” do ex-oficial do Exército. No domingo, 5 de julho, o tablóide local A Gazeta igualmente fez veicular matéria sobre o tema. Sendo esta última pontuada por lamentáveis equívocos. Em especial quando os autores se arvoraram em interpretar a história fundamentados numa sumária bibliografia.

Todas circularam com ares de ineditismo.

A verdade é que o “arquivo secreto” do “major Curió” não era tão secreto assim. Jornalistas em intensa atividade em Belém nos anos 1980 como Carlos Mendes, Lúcio Flávio Pinto, Marcos Moraes, Mário Gusmão, Antônio José Soares, Carlos Flexa, Paulo Carvalho, Paulo Jordão, Raimundo Pinto, Euclides “Chembra” Bandeira, Ana Diniz, Ronaldo Bandeira e outros, sabiam da existência dele. Logo, o rótulo de secreto só era aceitável porque o mantenedor dele, o próprio “major Curió”, assim o queria.

Os documentos constantes do agora famoso “arquivo secreto” sempre estiveram no mesmo lugar, a espera do “momento adequado” para iluminar um período da história brasileira eternamente manchado pelo sangue de jovens idealistas executados em combate ou à sangue frio e enterrados aleatoriamente.

Não cabe aqui julgar ou condenar. O fato é que faltou mais empenho político de todos (parlamentares e jornalistas) junto ao ex-oficial para que ele apresentasse os tais documentos ainda nos anos 1990. Isso teria reduzido em quase duas décadas o sofrimento de dezenas de famílias ansiosas em prantear e sepultar condignamente seus parentes mortos na Guerrilha do Araguaia.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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Uma resposta para O “arquivo secreto” nem tão secreto do “major Curió”

  1. Mario franco disse:

    Esse velho tal de Rubinete ainda vivo , é um grande mentiroso e achando e afirmando que ele que era o cara da guerra , hoje vive em belem fazem maldade com seus familiares (sobrinha e etc…., anda armada e é cheio de processo violência Doméstica .venho aqui dizer ra quem deseja ele morto esqueça ele ė o verdadeiro filho do Diabo ..vai durar muito pra perturba a vida de pessoas que verdadeiramente é são humanas com dignidades …POR FAVOR O TORRE AD ES REVISTAS BLOG OU OUTRAS COISAS UM HOMEM DESSE DE VERIFICAR TÁ ERA NEM PRESO ERA MORTO REALMENTE COMO A REVISTAS Ė PECADO DIZ DIA 24 DE 1980

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