Nuvens negras sobre a Europa

Por Maria Segre, no Monitor Mercantil

Com o fantasma de deflação planando sobre a Europa, os membros do Conselho Diretor do Banco Central Europeu (BCE), os “banqueiros”, “cardeais” e “…” transferiram seus lances para as taxas de juros e “medidas não convencionais de apoio” para o próximo outono. Não por causa do quente verão europeu, mas por “discordâncias de caráter”!

O BCE anunciou sua decisão de manter a taxa básica de juros de empréstimo estabilizada em 1%, e avisou que recrudescerá a pressão sobre os governos dos países integrantes da União Européia (UE) para que reduzam as dívidas e déficits até o “ano chave” de 2011.

O objetivo básico dos membros do Conselho Diretor do BCE é fazer cumprir – à risca – a decisão do Conselho da Europa que quer que os países-membros iniciem o planejamento para registrarem dívidas e déficits reduzidos assim que surgirem os primeiros sinais de recuperação.

O BCE quer porque quer que, até o início do ano que vem, os países-membros da UE tenham enviado à Comissão Européia (CE), órgão executivo da UE, seus planejamentos, apesar de as previsões sobre a recuperação estarem baseadas em estabilidade e não em recuperação dos principais indicadores.

Contudo, no arranha-céu de Frankfurt, onde fica encastelado o Conselho Diretor do BCE, a racha de pontos-de-vista entre o bloco alemão – que reage contra novos movimentos para a facilitação da economia – e o bloco liberal – que busca novas medidas – já assumiu dimensões assustadoras.

Muitos afirmam que está em gestação o golpe do “voto de confiança do BCE”, informação que imobiliza os mercados.

Simultaneamente, a divulgação do comunicado segundo o qual a inflação retornou ao nível negativo de -0,1% na Zona do Euro no mês passado, pela primeira vez desde 1953, trouxe de volta os temores de deflação.

Embora as declarações oficiais sejam “tranquilizadoras”, por trás das portas fechadas dos gabinetes do BCE existe incerteza quanto a recuperação total da Europa.

Habitualmente, o fenômeno de deflação surge quando os preços dos bens são reduzidos como consequência da queda da demanda por bens e serviços. Agora, os analistas do BCE constatam que a inflação negativa na Zona do Euro não está relacionada apenas à queda da demanda, mas também ao superávit da capacidade produtiva. E isto é perigoso. Mas, por que o BCE se preocupa?

A perspectiva de deflação pode criar um círculo vicioso. Isto é, na expectativa de que os preços dos produtos serão ainda mais reduzidos, os consumidores adiam suas compras, resultando no aumento da deflação. E a deflação impulsiona a demanda “para baixo”.

Paralelamente, as empresas não produzem (pois existe a perspectiva de venderem seus produtos a preços melhores), e o resultado é o crescimento do problema do desemprego. A tudo isso, soma-se o fato dos salários permanecerem congelados.

A discussão sobre se as taxas de juros deverão ser ainda mais reduzidas assumirá nova dimensão se o fenômeno de deflação vier para ficar. E em caso de taxas de juros zeradas, a experiência mostra que as taxas reais de juros (descontada a inflação) aumentam, atingindo o crescimento e o valor real das dívidas – que aumenta.

Os últimos dados do BCE mostram desaceleração do ritmo de alta da oferta de dinheiro na Zona do Euro, para 3,7%, em maio (base anual). Mas, deve-se principalmente à desaceleração da expansão de crédito e ao claro recuo na concessão de empréstimos.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
Esse post foi publicado em Crise financeira, Europa e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s