Irmã de Bérgson: “Acabou a angústia”

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Por Por Aloisio Milani, na Terra Magazine.

Nesta semana, Tânia Gurjão Farias teve a certeza que a sigla X-2 foi, na verdade, o nome de seu irmão por cerca de 13 anos. Ou melhor, o que restou dele num conjunto de ossadas resgatadas em 1996 no cemitério de Xambioá, em Tocantins.

Os restos mortais de Bérgson Gurjão Farias foram identificados por um exame de DNA e confirmado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH). Ele foi morto em 1972 e era um dos desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira.

Após a notícia da identificação do militante, Terra Magazine procurou a mãe de Bérgson para falar. Dona Laura, aos 94 anos, prefere se resguardar. A filha Tânia, que atendeu o pedido de entrevista, diz que a mãe prefere chorar sozinha a confirmação da morte do filho.

A enviada da SEDH a Fortaleza (CE), onde mora a família do militante, foi a jornalista Vera Rotta. Ela deu pessoalmente a notícia à família. “Dona Laura chorou muito, claro, mas sozinha em seu canto”, disse. Era o choro de 37 anos.

A filha Tânia atendeu o telefonema com uma forte amidalite, voz rouca, tosse seca. Mas bem humorada, apesar da resignação.

– Nos últimos 20 anos, lidar com a situação era mais tranquilo. Nos primeiros anos, ao contrário, era sério. E triste. Ninguém podia falar no telefone com ninguém sobre isso. Até vizinho insistia em fofocar e apontar: ‘ali é a casa de um comunista do Araguaia’. Era assim.

Aos 64 anos, Tânia sabe que o hábito faz o monge. Ainda mais para os familiares de desaparecidos políticos no Brasil.

– Nós não tínhamos a simplicidade de falar desses assuntos. Sempre fomos induzidos a esquecer o que a gente sabia. Mas depois disso melhorou bastante. Morei 23 anos em Brasília e participei da comissão de familiares.

A sensação da notícia da identificação do corpo foi, para a irmã, um vazio completo. “A cabeça ficou ‘oca’. Não se sei se todo mundo se sente assim. Fiquei vazia, no vácuo. Mas aí eu disse: se é, então graças a Deus, terminou a nossa angústia de 37 anos”, disse. Pior para ela, que reafirmava para si e confiava que o irmão estava vivo.

– E eu não acreditava que ele estivesse morto, isso foi o pior para mim. Eu sempre acreditei que ele tinha escapado, porque outros escaparam. A gente sabe. E ele não.

Bérgson não contava à família sua militância política. Para esconder sua ida ao Congresso da UNE em Ibiúna, interior de São Paulo, o garoto disse que iria estudar na Tchecoslováquia, onde ele tinha ganhado uma bolsa. Mentira. Em nome da política.

– Tudo começou como se fosse briga estudantil para melhorar a universidade, aí no Congresso de Ibiúna. Depois dali, tudo aconteceu.

Dentre os quadros do PCdoB, Bérgson Farias foi o primeiro a ser morto no Araguaia. A data 8 de maio sempre constou nas listas de mortos e desaparecidos políticos. Segundo testemunhas, ele morreu em um enfrentamento contra paraquedistas do Exército.

Condenado a dois anos de reclusão pela Justiça Militar por participar do movimento estudantil, Bérgson passou a atuar na clandestinidade e mudou-se para a região do Araguaia, na área de Caianos. Até que foi delatado por um camponês que deveria entregar-lhe um rolo de fumo.

O camponês avisou o Exército sobre a transação e que cinco “paulistas” iriam para as proximidades do lugar onde deveria ser deixada a encomenda. Bérgson aproximou-se e foi alvejado por três rajadas de metralhadora às vésperas de completar 25 anos.

– Falei para minha mãe que os exames deram 99,9% de certeza. Então a gente não pode deixar de aceitar uma coisa dessa. Refizeram todos os exames, com DNA, novas tecnologias. Quando o ministro (Paulo Vannuchi) disse: “eu lhe garanto que é”. Então é.

Por último, uma pergunta política para a irmã de Bérgson. Nos bastidores de mais uma força-tarefa para buscar restos mortais dos desaparecidos políticos no Araguaia – agora comandada pelo Ministério da Defesa e Exército -, qual a expectativa dela sobre o momento atual em que a identificação da ossada do irmão acontece enquanto há uma disputa entre os ministros Paulo Vannuchi e o Nelson Jobim.

E principalmente com claras e públicas demonstrações das Forças Armadas que discordam das buscas no Araguaia, além da interpretação da Lei de Anistia que permitiria a punição de torturadores.

– Eu não conheço o ministro Jobim. Sou uma pessoa que é franco atiradora. Não sou do lado de fulano, nem cicrano. Não sou partidária. Opino pelo mérito, pelo objetivo, pelo bom senso. Mas não é todo assim. O Bérgson era filiado ao PCdoB, coisa que fiquei sabendo só depois. Eu creio piamente que o ministro Jobim não tem razão para atrapalhar as buscas. Mas eu gostaria muito de que isso melhorasse a situação.

Em três expedições ao Araguaia – em 1991, 1996 e 2001 – foram localizados 12 conjuntos de ossadas. Bérgson é a segunda pessoa identificada. A primeira havia sido a professora Maria Lúcia Petit da Silva, também desaparecida em 1972 e sepultada em 1996.

Ambos eram ativistas do PCdoB, então na ilegalidade. Ambos também de uma primeira fase da repressão no Araguaia, período, segundo os familiares, em que a identificação seria, em tese, mais fácil, pois há mais relatos e evidências.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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Uma resposta para Irmã de Bérgson: “Acabou a angústia”

  1. Afonso disse:

    Já é tempo do Brasil abrir os seus arquivos do perìodo militar, INTEGRALMENTE, sem ressalvas.
    Qualquer outra decisäo a este respeito representa, além de covardia das partes envolvidas na história, uma triste omissäo que só contribui para manter a imaturidade do cidadäo brasileiro.

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