Como será o exército russo do Século XXI?

Por Alex Corsini, no Monitor Mercantil

O governo da Rússia planeja realizar reformas radicais nas Forças Armadas do país. E estuda-se a implementação do mais ambicioso plano de mudanças já realizado desde 1856, quando a derrota da Rússia para a Grã-Bretanha e a França na Guerra da Criméia obrigou o Czar Alexei II a criar um exército nacional de serviço obrigatório.

Este foi o modelo que se provou eficaz durante a Segunda Guerra Mundial. Contudo, no Afeganistão, na década de 1980, começaram a surgir as primeiras deficiências. Os recentes conflitos na Chechênia e na Geórgia foram concluídos com vitórias dos russos, mas tornaram ainda mais visível a falta de uma máquina de guerra de combate à grandes forças convencionais.

O Kremlin chegou a conclusão de que o forte, mas arteriosclerosado exército do país, não está preparado para enfrentar os desafios estratégicos do Século 21, e planeja uma doutrina que preveja a possibilidade de um envolvimento simultâneo da Rússia em três locais periféricos de conflito.

De acordo com os plano que o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, anunciou em setembro do ano passado, as Forças Armadas do país serão reduzidas em 500.000 homens, com o número total de convocados não superando um milhão.

Além disso, até 2012, o total de oficiais será reduzido em 200.000 homens, e o serviço militar deixará de ser obrigatório. A liderança russa acredita que uma força militar profissional, limitada em número de pessoal e flexível, estará em melhores posições de enfrentar, com eficácia, os conflitos do futuro.

As reformas planejadas pelo governo provocam reações nos círculos militares russos. Inicialmente, poucos especialistas acreditavam que as idéias contidas no plano de reforma das Forças Armadas seriam materializados, já que todas as tentativas anteriores caíram no vazio.

Diplomatas e analistas avaliam que esta decisão do atual governo russo prevê a aplicação de seu controle sobre os demais países da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Contudo, a crise econômica não permite, ao menos provisoriamente, a execução de um extenso programa de modernização do armamento militar.

O presidente Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin dão pleno apoio político ao ministro da Defesa, Anatoly Serdiukov. “Serdiukov tem reunido um grupo de generais que quer ver que espécie de reformas serão realizadas – explicou Pavel Felgenauer, analista militar independente aqui, em Moscou – e os demais estão aterrorizados e não dizem nada”.

As tentativas anteriores de reorganização das Forças Armadas russas tiveram como objetivo a redução do número de oficiais, mas não a correspondente redução do número de soldados e reservistas. Segundo Alexander Goltz, especialista em temas do exército russo, 70% das unidades militares não possuem soldados, somente oficiais e armamentos.

“A principal diferença entre esta reforma e as anteriores é a abolição do serviço militar obrigatório”, disse Goltz, explicando que “os planos atuais do governo russo anularão as reformas introduzidas pelo czar Alexei II, após a Guerra da Criméia, tornando uma força de profissionais e mercenários em exército nacional”.

Para ele, entretanto, o número de oficiais no exército russo cresceu em demasia após o final de 1900. “Os oficiais são profissionais, mas são profissionais em uma única coisa: organizar o alistamento geral. Isto significa treinar os recrutas em 30 dias e depois enviá-los ao front”, explicou Goltz.

As insuficiências de tal estrutura começaram a se tornar visíveis durante a guerra civil na Chechênia, entre 1994 e 2003, quando 5.500 soldados russos perderam suas vidas.

Adicionalmente, o conflito na Geórgia revelou a falta de armamentos. Os soldados se comunicavam entre si através de telefones celulares, porque os radio-transmissores não funcionavam. “Pode-se imaginar o que significa isso? É uma situação inaceitável para um exército moderno”, disse Igor Podionov, general aposentado do exército e ex-ministro da Defesa, que se opõe às reformas planejadas pelo governo.

Apesar do descontentamento que predomina em relação a situação atual das Forças Armadas da Rússia, os plano do governo têm dividido a elite militar do país. Enquanto alguns acreditam que o replanejamento da estrutura militar é indispensável, outros consideram que trata-se de uma simples forma de reduzir os gastos militares.

Podionov critica: “Quem está por trás destas reformas? Existem forças que querem destruir a Rússia, para que não seja mais uma ameaça a seus interesses. Como acabaram com a União Soviética, querem agora destruir a Rússia Estas reformas enfraquecerão o exército, enfraquecerão o Estado”.

O Kremlin prometeu duplicar, até mesmo triplicar, os salários dos militares. Entretanto, não explicou como conseguirá tantos recursos em meio a atual grave crise econômica.

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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