O marxismo e o povo

aaaaaafidel

Por acaso, caí em um debate sobre marxismo no blog Acerto de Contas.

Ao ler um texto sobre marxismo de um dos autores, chamado Pierre Lucena — doutor em Finanças (PUC-Rio) e professor da UFPE Recife, Brasil —, não resisti e entrei na polêmica.

O texto é de uma pobreza teórica que surpreende — dada a qualificação do autor.

Já de início, escrevi:

“O texto vulgariza o marxismo ao extremo. Uma das formas mais usadas para se falar vulgarmente sobre marxismo é associá-lo ao autoritarismo. Ao lado deste antimarxismo primitivo, outras vulgaridades mais sofisticadas tentaram demonstrar realidades que são metafísicas em estado puro. Joga nesse time também aquele “marxista” impregnado de erudição e afogado em terminologia complicada, um especialista em obscurecer os problemas. Falta clareza para ele chegar às situações concretas, talvez como defesa para não se comprometer.”

O debate seguiu por caminhos naturais, muito à base do senso comum.

Mas, à certa altura, a conversa descambou para o academicismo.

Justamente a erudição afogada em terminologia complicada que citei acima.

Escrever com simplicidade não quer dizer vulgarizar o que se quer dizer.

O outro extremo, penso, é o academicismo exacerbado que massacra a clareza.

Regras de concordância, de ortografia, de sintaxe, de regência e de pontuação são, em geral, massacradas em textos sobre estes assuntos.

Por alguma razão obscura tornou-se moda no Brasil considerar que a utilização correta do português é algo secundário, desimportante.

E é claro que não é assim.

Quando se fala em redigir bem um texto não se pretende dizer que é necessário escrever com grande estilo ou saber métrica e fazer poemas.

Trata-se apenas de usar instrumentos básicos para a comunicação.

Textos absolutamente pobres de idéias e com frases, sentenças e orações desconexas de cara perdem a importância.

Muitas vezes, o português se transforma numa língua inteiramente desconhecida de qualquer cidadão nascido e criado no Brasil.

O problema é que pouca gente pode reduzir o escrever bem a um ofício simples como pretendia o poeta chileno Pablo Neruda.

”Escrever é fácil. Você começa com letra maiúscula, termina com ponto final e no meio coloca as idéias”, dizia ele.

A coisa não é bem assim.

O erro número um que a maioria das pessoas comete é escrever para si próprias — não para quem vai ler a mensagem.

Veja o texto e a polêmica:

__

Seríamos macacos de novo? E pensar que metade do mundo entrou nessa…

aaaaaleninstalin

“O dinheiro desaparecerá…O ouro pode ser preservado, de acordo com a vontade de Lênin, para a construção de lavatórios públicos…nas sociedades comunistas os bens serão disponibilizados ampla e gratuitamente. A organização da sociedade até as suas próprias origens será sem dinheiro…O desejo neurótico e frenético pelo consumo desaparecerá.

O novo homem se parecerá com seus ancestrais caçadores, que confiavam na natureza que os abastecia livremente e, com frequência, abundantemente com tudo que eles precisavam para viver; e que não tinham que se preocupar com o amanhã.”

Este trecho foi retirado de um dos principais textos comunistas, conhecido como O Mundo sem dinheiro: o comunismo, que seria uma espécie de cartilha universal da juventude socialista.

E pensar que metade do mundo viveu sob este pensamento, onde seria uma própria negação da existência do homem como indivíduo. Não podia mesmo dar certo.

Os mais lúcidos, como o próprio Marx, sabiam que não era possível viver sem o dinheiro. A proposta original foi centralizar o crédito em um banco centralizado, mas suas propostas originais acabaram sendo distorcidas, como mostra o texto acima.

Claro que a ascensão do comunismo teve muita relação com o momento histórico, principalmente pelo massacre a que era submetido o povo russo, mas sua insistência por parte de alguns faz hoje pouco sentido.

Foi um processo histórico, como foi a Revolução Francesa, mas era normal que a ideologia sofresse modificações e se aperfeiçoasse para se consolidar. E em alguns lugares isso está ocorrendo, como na China, que hoje pratica o “socialismo de mercado”. Herdou apenas o regime totalitário e centralizador. Mas está construindo bases como sistema econômico.

Com todos os problemas do capitalismo, é inegável seu avanço como meio de crescimento pessoal e de melhoria da qualidade de vida média da população. A busca de um sistema que fomente a equalização da riqueza é o grande desafio a partir de agora. A absoluta ausência de Estado também não se mostrou um modelo eficaz.

aaaaaamacaco

De acordo com o texto acima, deveríamos voltar a viver como caçadores, esperando que a natureza nos fornecesse os meios de sobrevivência, esquecendo que a existência do dinheiro é muito anterior que a formulação da teria econômica.

O Manifesto Comunista acima, que poderia se chamar A Volta ao Planeta dos Macacos, só esquece de falar dos avanços do mundo e da qualidade de vida nos últimos séculos.

No século XVI, para se ter uma idéia, a expectativa média de vida para os homens era de 27 anos e das mulheres em torno de 25 anos. Os avanços obtidos através da ciência só foi possível com a derrocada de movimentos obscuros religiosos e políticos. A falta de alimentos, de saneamento, o excesso de doenças e pragas destruidoras tornavam a chegada à vida adulta uma vitória.

Da mesma forma colocar a culpa na existência do dinheiro não ajuda nada. Se não existisse o dinheiro como conhecemos, ele apareceria de outra forma. Na Idade Média moedas de ouro serviram como dinheiro, em alguns presídios o cigarro virou uma forma de moeda, e até o sal já foi uma espécie de moeda.

O surgimento de alguns instrumentos financeiros é de certa forma inevitável, e contra isso não dá para lutar. O entendimento dos instrumentos e das leis de mercado foi a forma mais eficaz de crescimento econômico e social que o mundo encontrou, como a Teoria Keynesiana. Sua negação não levou a lugar algum.

As nações que prosperaram socialmente e com liberdade são justamente aquelas que conseguiram buscar na essência de sua cultura o melhor que o homem pode fornecer. Os exemplos clássicos são os países escandinavos, em especial a Noruega, que aproveitou seus traços culturais para montar um Estado forte, e ao mesmo tempo que fomenta o empreendedorismo. Tudo isso calcado no fortalecimento educacional da população.

Claro que muitos outros fatores são responsáveis pelo progresso dos países, mas a negação do individualismo humano levou milhões de pessoas à tragédia econômica. O exemplo clássico foi a diferença de padrão de vida da Alemanha Ocidental e Oriental. Ou ainda dos países do Leste Europeu, que recentemente se incorporaram à Comunidade Européia, como é o caso da República Tcheca e da Polônia.

Mas o que impressiona é que a volta ao Planeta dos Macacos ainda mobiliza muita gente.

Autor: Pierre Lucena – 07/07/09 às 12:14

_

Eduardo Rocha disse:

Esse vai polemizar…

_

Jorge Miranda disse:

Muito fraquinho o texto. Parece que o autor não foi além de resumos, ou quem sabe, no máximo, leu aquela série “o pensamento vivo de..”

O capitalismo é realmente muito bom, éstão aí os mais de 2 bilhões de famintos do mundo aplaudindo de pé as oportunidades do “justo e democrático” sistema capitalista. Essa história de vitória do capitalismo, caro Pierre, é requentada. Vem lá da década de 80, com a falácia do “fim da história”.

A crítica ao sistema capitalista, genialmente tornada científica e racional por Marx, não morreu. O que morreu foi o totalitarismo, que nunca foi sinônimo de socialismo ou comunismo, mas uma forma de dominação das massas, igual ao capitalismo desenfreado, que gasta TRILHÕES para impedir a quebradeira dos bancos e assim manter o sistema nos mesmos trilhos que condenaram bilhões à fome e o planeta à exaustão e destruição.

__

Dirceu Cadena disse:

Também esperava uma reflexão mais profunda do tema…

Mas, vai conversar com uma pessoa da Polônia ou Russia sobre o antigo Regime para ver o que eles pensavam

__

Germano disse:

Boa a lembrança ao “Fim da história”. Grande fiasco ideológico.

__

Alexsandro disse:

Caro Jorge, os pobres e famintos não surgiram após a capitalismo. No próprio socialismo havia a elite do partido comunista que , obviamente, não enfrentavam o racionamento de água, comida e energia.

___

Artur Ugiette disse:

O maior cientista do capitalismo foi Marx… Pena que ngm entendeu que consertando os erros vistos por ele no capitalismo esse sistema seria bem melhor…

Mas dizer q o socialismo é o melhor… Deve ser filiado do PSTU: “contra burguês, vote 16…”

__

Robson Fernando disse:

…como na China, que hoje pratica o “socialismo de mercado”.

Pera lá. Socialismo de mercado neca. O certo é Capitalismo de Estado (que eu prefiro chamar de Capitalitarismo).

__

Bruno Galindo disse:

Amigo Pierre

Muito lúcida tua reflexão. É parecido com o que venho fazendo ultimamente acerca das ideologias políticas e o papel de visões individualistas e coletivistas de sociedade e de mundo.

Os slogans e palavras de ordem socialistas ainda mobilizam muito, principalmente nos países periféricos, por uma razão até certo ponto simples: a ineficácia do capitalismo em resolver problemas básicos da humanidade e no seu caráter exacerbadamente desigual. A verdade é que o capitalismo deixa a maioria dos seres humanos à margem do processo produtivo, daí o socialismo enquanto ideia ser um apelo profundamente interessante.

O problema é quando as experiências socialistas concretas, principalmente as denominadas “comunistas” (Leste Europeu, União Soviética, Cuba, Coreia do Norte), sob a generosa ideia marxista de abolir a exploração do homem pelo homem, transforma o agir institucional e político em um mecanismo de aniquilação do “indivíduo pequenoburguês egoísta” em prol do homem novo em uma sociedade nova. A sociedade, o povo, esse ente abstrato em primeiro lugar e o indivíduo em último. Basta olhar a História e ver que isso gerou a primazia absoluta dos detentores do poder e não do povo. Quem fosse contra, ainda que somente no plano das ideias, era ” inimigo do povo” e, como tal, aniquilado.

A generosa utopia marxista gerou um pesadelo ainda pior que o capitalismo. O custo humano da experiência socialista “real” foi de mais de 100 milhões de mortos, sendo “comunistas” os 2 maiores genocidas da História (por incrível que pareça, Hitler não está entre eles, o que, é claro, não torna menos grave o que fizeram os nazistas): Stalin, o maior genocida de todos os tempos em números absolutos (as estatísticas mais tênues apontam cerca de 20 milhões de mortes diretamente associadas a ele e à sua máquina de terror) e Pol Pot, ditador do Camboja entre 1975 e 1979, o maior genocida de todos os tempos em números relativos, tendo dizimado cerca de 1 milhão de cambojanos, cerca de 20% da população do país, através do terror do Khmer Vermelho.

Por isso que, diante da imperfeição humana, prefiro acreditar nas sociedades abertas, como defendeu Karl Popper. A capacidade de o homem, em sua imperfeição, chegar a soluções mais razoáveis tendo como pressuposto a inexistência de verdades absolutas, sejam elas políticas, religiosas ou filosóficas, e a humildade de admitirmos que “eu posso estar errado e você pode estar certo, e juntos, nesse estado de espírito, podemos nos aproximar da verdade” (Karl Popper afirma isso na “Sociedade Aberta e Seus Inimigos”).

Concordo contigo quanto ao keynesianismo e a experiência dos países nórdicos: são eles que mais se aproximaram de extrair o que há de bom no capitalismo e no socialismo, deixando de lado a maior parte de seus defeitos. Nem o capitalismo selvagem do liberalismo à EUA, nem o socialismo “real” à Leste Europeu. Um não a totalitarismos de qualquer espécie e um saudável equilíbrio entre individualismo e coletivismo, sem supremacia absoluta de um sobre o outro.

Há leituras sempre atuais e recomendáveis sobre o assunto. Recomendo:

Karl Popper: A Sociedade Aberta e seus Inimigos

Hannah Arendt: Origens do Totalitarismo (ed. Cia. das Letras)

Tina Rosenberg: Terra Assombrada (Ed. Record)

George Orwell: 1984/A Revolução dos Bichos

__

andrei barros correia disse:

Há aqui associações um tanto superficiais, ligando teses, ideologias e ações de governo.

Na mesma linha seria imputável ao Galileu – ou aos muitos evangelhistas que contaram a história ou estória dele – uma enorme série de assassinatos praticados pelas corporações que atuam em seu nome.

No sentido contrário – se a única forma de raciocinar for derivar efeitos de causas assim – muitos outros assassinatos ficariam sem causas, simplesmente por serem historicamente anteriores a algumas ideologias mais recentes.

__

Bruno Galindo disse:

Andrei

Embora o comentário possa ter alguma ambiguidade, não imputei a Marx nenhum dos crimes cometidos em nome de sua ideologia, assim como não o faria com Cristo. Uma coisa é Cristo, outra o cristianismo; o mesmo se pode afirmar em relação a Marx e o marxismo.

Marx foi um humanista e um dos mais importantes pensadores da História, diria até, filho dileto da Revolução Francesa e do Iluminismo.

Contudo, os marxistas (não falo dos teóricos, mas dos governantes e grupos políticos que lideraram experiências históricas inspiradas pelo marxismo) fizeram com suas ideias o que a experiência histórica mostrou e o comentário apontou.

Foi apenas isso que afirmei, não fiz qualquer associação automática, como parece que foi entendido.

__

Artur Ugiette disse:

perfeito seu comentario…

__

Carlos disse:

Muito boa réplica.

Não tinha lido o seu texto inicial, pois o achei muito longo (aparentemente delongoso), mas depois de ler a réplica. Pensei. Esse cara sabe o que está dizendo. Vou lê-lo.

__

Amanda Costa disse:

Pierre e Bruno,

Excelente!

Por uma questão de semântica, eu apenas substituiria:

“Um não a totalitarismos de qualquer espécie e um saudável equilíbrio entre individualismo e coletivismo, sem supremacia absoluta de um sobre o outro.”

Por

“Um não a totalitarismos de qualquer espécie e um saudável equilíbrio entre individualidade e coletividade, sem supremacia absoluta de uma sobre a outra.”

__

Bruno Galindo disse:

Fica melhor mesmo, Amanda. Grato.

__

Adrualdo Catão disse:

Amigo,

especialmente Orwell, ótimas indicações de leitura.

__

André Raboni disse:

Adrualdo e Bruno,

Também achei muito boas as indicações. Mas, de Orwell, acho que indicaria ainda um outro livro, bem pouco conhecido, já que ele fez muita fama com “84″ e “R. dos bichos” – além de seus artigos no The Guardian, durante a segunda guerra.

Chama-se Keep the Aspidistra Flying. Publicado em 36 eu acho. Foi traduzido de duas formas para o português. Como “Moinhos de vento” (que foi a versão que li, e até hoje me pergunto de onde o tradutor tirou esse título…), e “Mantenha o Sistema” (tradução mais adequada pelo contexto do livro).

É um livro denso, que eu acho vale a pena de se ler, pra pensar essa questão do dinheiro e dos estatutos sociais Na verdade, acho uma leitura indispensável.

Abraços!

__

Fernando Dias disse:

Bastaram uns dias de descanso e Pierre voltou a ver a luz.

__

J. C. David disse:

Perdi 5 minutos da minha vida, lendo uma bobagem dessas, se você que diminuir, o Socialismo/ comuniso, utilize pelo menos um argumento melhor… Pô, você me coloca um trecho de um livro de (1975-1976). Com idéias ANARQUISTAS…nobre “professor”, com isso você só engana quem é enganado. Anarquismo é muito diferente de Comunismo. Leia mais, leia o capital, o MANIFESTO COMUNISTA, essa sim a “cartilha socialista”.

PS: Bruno, Stalinismo também é bem diferente de Socialismo.

__

Bruno Galindo disse:

Parece que meu comentário ficou mesmo muito ambíguo, mas não identifiquei no mesmo em nenhum momento essa associação automática entre stalinismo e socialismo.

__

Guilherme Sobota disse:

Engraçado ver os soldados bolcheviques defendo o sistema fantasioso deles.

A análise do Pierre foi lúcida – simplificada, sim – mas lúcida. A simplificação é inevitável num contexto de blog. Isso aqui não é uma tese.

Marx analisou a sociedade do capital de maneira genial. Porém, as soluções propostas por ele (e “adaptadas” pela trupe de Stálin) são fantasiosas, criadas no imaginário de um homem. Insustentáveis, portanto.

Boa discussão, Pierre.

__

Germano disse:

Soldados bolcheviques? Alerta vermelho!

__

Osvaldo Bertolino disse:

O texto vulgariza o marxismo ao extremo. Uma das formas mais usadas para se falar vulgarmente sobre marxismo é associá-lo ao autoritarismo. Ao lado deste antimarxismo primitivo, outras vulgaridades mais sofisticadas tentaram demonstrar realidades que são metafísicas em estado puro. Joga nesse time também aquele “marxista” impregnado de erudição e afogado em terminologia complicada, um especialista em obscurecer os problemas. Falta clareza para ele chegar às situações concretas, talvez como defesa para não se comprometer.

Há ainda os grupos “esquerdistas”, para os quais o anticomunismo de “esquerda” tornou-se uma fixação fanática, um preconceito inextirpável. A presunção de infalibilidade é, por sua própria natureza, uma prova de incapacidade teórica para a compreensão dos percalços que inevitavelmente surgem na condução dos complexos processos sociais. Nada melhor do que a definição de Lênin para estes grupos: o extremismo é filho de erros oportunistas.

O primeiro foco de explicação para essa antipatia ao marxismo reside no fato de existir uma indiferença em relação à sua alma — na definição do mesmo Lênin —, a dialética. A dificuldade está em procurar compreendê-lo com espírito científico, isento de paixões e sem a carga irracional de ódio, herdada em boa parte de preconceitos incutidos por anos de anticomunismo.

Mesmo quando ele não é excluído da categoria de fenômeno social — o marxismo é ensinado até nas universidades norte-americanas —, procuram a todo custo destituí-lo de sua alma. É assim que os espíritos se fecham ao seu conhecimento, possivelmente com medo de a ele se converter.

Outra resposta a esse foco de crítica ao marxismo passa pelo esclarecimento de que para compreendê-lo é preciso compreender a sua essência revolucionária. Revolução não é outra coisa senão o reajustamento dos quadros institucionais de um país, de modo a atender mais satisfatoriamente às necessidades da sociedade. E se isso acontece é porque as formas que se procura modificar já não correspondem às demandas do convívio coletivo. O reajustamento do poder é um processo revolucionário longo.

A Revolução Francesa, por exemplo — que nem era marxista —, não se limitou à tomada da Bastilha. Ela prosseguiu na forma de uma série de reformas políticas, sociais e econômicas que se realizaram até que se completasse a modificação da estrutura da sociedade.

O desenvolvimento do processo revolucionário também não implica inevitavelmente em uso da violência, em insurreição. Aliás, a história demonstra que são precisamente os interessados em manter um sistema social já inadequado os primeiros a recorrer à violência para continuarem no poder. Estes sim precisam de golpes e de guerras para afogar descontentamentos e revoltas.

Em síntese: a compreensão da essência revolucionária do marxismo nada mais é do que o exame e a interpretação dialéticos do processo histórico e da presente realidade social dele derivada. Coisa difícil para quem encara o marxismo vulgarmente e com má vontade.

__

joão disse:

Parabéns. Espero que o Pierre leia seu texto e aprenda um pouco, mas acho difícil…

__

Artur Ugiette disse:

E o que acontece com os revolucionários que conseguem seus objetivos

Será que eles não usam da violência para manter o status agora adquirido…

Normalmente toda tendência revolucionaria tende a suprimir os demais grupos sociais… Isso na minha humilde visão…

__

Osvaldo Bertolino disse:

A maioria dos alemães de Leste continua a preferir o regime socialista da RDA à nova ordem capitalista instaurada a partir de 9 de novembro de 1989, com a simbólica demolição do muro de Berlim.

Segundo uma pesquisa do Instituto Emnid, publicada dia 26 de junho no jornal “Berliner Zeitung”, a maioria dos inquiridos considera que a antiga República Democrática Alemã (RDA) tinha “mais aspectos positivos que negativos”.

Num universo de 1208 pessoas, 49% dos inquiridos no Leste do país responderam que “havia alguns problemas, mas globalmente vivíamos bem”.

Se juntarmos os oito por cento que responderam que “na RDA havia sobretudo aspectos positivos e que vivíamos felizes e melhor do que na Alemanha reunificada de hoje”, concluímos que, passados 20 anos de anexação, 57% da população da ex-RDA continua defendendo o socialismo.

__

Bruno Galindo disse:

Penso que essa pesquisa deve refletir o momento de desemprego relativamente alto e pouco crescimento econômico alemão do momento.

Certamente se se fizer levantamento de dados em relação a um período maior, quiçá dos 20 anos da queda do Muro, é provável que esse resultado seja diverso.

Ainda que consideremos a pesquisa do momento, acho muito difícil os alemães que viveram efetivamente sob o jugo da RDA achar que a vida era melhor quando tinham enormes limitações econômicas em relação à co-irmã ocidental, além de uma das máquinas de repressão totalitária mais cruéis da História, capitaneadas pela STASI, a aterrorizante polícia secreta da antiga Alemanha Oriental.

A STASI criou o maior aparato de espionagem de cidadãos comuns de todos os tempos, aperfeiçoando os métodos da SS e da GESTAPO nazistas. Escrevi sobre isso há cerca de 2 anos em http://direitoecultura.blogspot.com/2007/05/contra-intolerncia-e-os-fanatismos-de_16.html.

Para maiores detalhes e aprofundamento do que foi a STASI, recomendo a 3ª parte do livro que citei da Tina Rosenberg (Terra Assombrada), além de “Stasilândia”, de Anna Funder e de “A Reunificação Alemã – Do Ideal Socialista ao Socialismo Real”, do insuspeito Luiz Alberto Moniz Bandeira.

Acho muito difícil alguém que tenha lido essas obras com um olhar não dogmático, ainda que marxista, defender o regime da antiga Alemanha Oriental.

Contudo, mesmo essa possibilidade não está descartada.

Arthemísia disse:

E não é vulgarizar o capitalismo colocar neles todas as culpas dos males da humanidade? Ora, o capitalismo também propiciou o desenvolvimento tecnológico, a cura de doenças, a melhoria de vida de milhões de pessoas pelo mundo ; então, por que os marxistas insistem em criticá-lo tão vulgarmente? Tem coisa mais vulgar do que sempre culpar o neoliberalismo?

Osvaldo Bertolino,

Seu conceito de revolução como reajustamento é apenas um dos existentes nas hostes marxistas; tem muito marxista que discorda radicalmente dele. Os teóricos do marxismo nem precisam da discordância externa, pois eles têm oposição interna, cada um que interprete diferente o que disse Marx. Por isso, não adianta negar que o socialismo soviético foi sim uma destas interpretações, assim como o são o chinês e o cubano. São interpretações de uma teoria que virou realidade; agora, se a realidade não agrada, pode não ser culpa da teoria, óbvio. Afinal de contas, somos todos seres humanos, independente de sermos marxistas, keynesianos, capitalistas, socialistas, judeus, cristãos, muçulmanos, etc. Todos passíveis de erros nas nossas interpretações sobre algo que alguém escreveu antes de nós e em contextos muito distintos dos nossos.

__

Osvaldo Bertolino disse:

Arthemísia:

O princípio básico do marxismo é a análise concreta da realidade concreta. Se a realidade mudou, mudemos a tática. Se o conceito de revolução como reajustamento — ou seja, a dialética — é apenas um dos existentes nas hostes marxistas, quais mais poderiam existir? Se não for para mudar as coisas, evoluir, avançar socialmente, para que serve o marxismo? A compreensão desta essência revolucionária implica também em compreender que podem surgir contradições entre a ordem das coisas e a força das coisas.

O revolucionário francês Saint-Just, que ficou conhecido pela publicação do livro “O Espírito da Revolução e da Constituição da França” — no qual ele considerava a morte do rei como necessária à estabilidade do novo regime — dizia: “Talvez nos leve a força das coisas a resultados que não imaginávamos.” Trocando em miúdos: para compreender a realidade, é preciso pensar a realidade.

Pensar é apreender os fatos pelo pensamento e compreendê-los como processo em contradição — a mola do movimento real das coisas. Logo, se a realidade é dialética e se pensar é apreender a realidade, pensar é apreender dialeticamente os fatos. O marxismo, independente do que dizem dele os já decrépitos “novos filósofos”, não pode evidentemente ser resumido a um modelo. Cada tempo histórico, cada país e cada povo têm a sua realidade peculiar.

Os bolcheviques de “têmpera especial” partiram a história em duas, abalaram o mundo, romperam pela primeira vez a estrutura e a lógica do capitalismo e do imperialismo — tomaram o céu de assalto, como dizia Karl Marx sobre os revolucionários da Comuna de Paris de 1871 —, mas foram marxistas do seu tempo. O desenvolvimento histórico obriga os marxistas a uma nova perspectiva revolucionária. E, com isso, a um novo posicionamento.

Os fatos, portanto, não podem ser banidos da história para que prevaleça uma interpretação apressada dos acontecimentos. O problema é que o homem tende a só ver o que quer ver, só reconhece o que quer reconhecer. Questão de atitude mental. Ou, por outra, de condicionamento mental. Mas os fatos acabam mexendo com a sua mentalidade. Mexem tanto que, ao fim de certo tempo, ele, se é honesto, descobre que o condicionamento em que se encontra o leva a confundir coerência com irracionalidade, a tomar como verdadeiras posições baseadas só em seu ponto de vista.

Para ver o que salta aos olhos é preciso, muitas vezes, grande poder de imaginação e uma atitude crítica diante das correntes tradicionais de pensamento, diante de fórmulas tradicionais consagradas e petrificadas do exercício do raciocínio. Galileu, acossado pelos aristotélicos das universidades, disse que, para estes, filosofar não era outra coisa senão folhear os textos de Aristóteles — nos quais fatalmente seriam encontradas todas as soluções para todos os problemas.

No fogo da luta política, é compreensível o acirramento das posições que anulam as nuances. Mas esta condição não abala a vitalidade intelectual do marxismo — que não é absoluto e imutável, como a tábua dos dez mandamentos. Ele acompanha o movimento real das coisas. Movimento estético, político, filosófico, econômico, religioso etc. Se não for assim, não é marxismo — é arremedo de marxismo, vulgaridade.

__

andrei barros correia disse:

Acontece algo bem interessante com grandes morticínios e as explicações que frequentemente lhes sucedem. Na maioria das vezes, fica estabelecida uma autoria limitada e específica de alguma entidade governativa estatal.

De certa forma, isso trai algum desprezo íntimo de quantos escrevem a história pela democracia ou por qualquer forma de representatividade. Passa-se como se a opção estatal fosse sempre e inevitavelmente divorciada de algum apoio popular. Podem estar muitíssimo certos os escribas históricos.

Significativamente, consagrou-se a terminologia Alemanha nazista para referir-se ao agente deflagrador da guerra de 39 e do assassínio sistemático de judeus, ciganos, homossexuais, inválidos.

Assim, o qualificativo nazista parece estar a fazer as vezes de governo, para excluir do número dos agentes a população em geral, em qualquer proporção que seja.

De forma semelhante, fala-se em delitos do regime estalinista, o que, referindo-se a um regime, faz pensar em uma máquina estatal, um desígnio governativo.

No limite, as referências limitam-se a um indivíduo. Assim, fala-se que Adolfo Hitler matou tantos ou tantos milhões de pessoas ou que Estaline praticou quantos milhões de assassinatos.

Mas, convém considerar possível que tais desígnios podem bem estar relacionados causalmente a uma teia muito mais vasta de elementos históricos, culturais e econômicos. E que a identificação mais precisa de réus pode ser uma tarefa meio difícil ou, talvez, superficial.

Raramente na história – principalmente para os eventos de grande magnitude – atuam poucas causas e isoladamente entre si.

__

Alexsandro disse:

Aposto que os “bolcheviques” andam de FORD, comem FAST FOOD, calçam NYKE. Certo é o ditado : pimenta………….. é refresco. É bom defender um sistema que massacrou poloneses, sérvios, croatas, eslovenos, russos, chineses e etc……… “Porém não foi “comigo” que estou na frente do meu WINDOWS, comendo meu HAMBURGUER e tomando minha COCA-COLA e tendo que aturar esse pierre só porque falou algo do sistema socioeconomico dos meus sonhos”

__

Germano disse:

Brilhante, incrível como ninguém tinha pensado nessa crítica antes…

A propósito, pessoal, há alguém que entende mais de capitalismo (nacional) que o daniel dantas?

__

Adrualdo Catão disse:

Caros Pierre e Bruno,

Textos cuidadosos. Não agradam a todos, pois não aceitam a derrocada do regime democrático em favor da igualdade.

Em minha opinião, todavia, não há – como pretendeu Bruno, sempre de forma ponderada – um equilíbrio entre coletivismo e individualismo. Na verdade, toda preocupação com o coletivo deve ser nominalista. Ou seja, nunca se deve tomar o conjunto como algo diferente da soma de suas partes. Por isso o individualismo é sempre moralmente mais interessante do que qualquer forma de coletivismo.

Na minha concepção, todo coletivismo é totalitário, exatamente porque submete o indivíduo aos “interesses coletivos” que, como também disse Bruno, termina se transformando em interesses de certos indivíduos. Quando esse coletivismo é utópico, tudo vale a pena para realizar a utopia, e nenhum individuo pode impedir essa realização. Daí a justificação da morte e do terror.

Na tentativa de ponderar, acho que o amigo Bruno cedeu demais quando comparou os extremismos. O capitalismo americano ao socialismo real. Acho a comparação indevida. Mas, no fundo, não posso deixar de concordar com o texto de ambos, exatamente porque fazem uma escolha clara. Entre a liberdade individual e a igualdade material, também fico com a primeira. Em primeiro lugar porque está provado que fora de uma democracia liberal não há igualdade material. Em segundo lugar porque a própria igualdade material não é bem vinda, já que deixa de lado as diferenças entre indivíduos, colocando lado a lado potencialidades diferentes.

Somente depois dessa escolha é que poderemos discutir sobre a intensidade da atuação estatal, sobre a melhor forma de regular o mercado, sobre o nível de proteção social que o estado deve propiciar aos cidadãos. Somente depois de escolher a liberdade podemos gostar mais dos EUA ou da Noruega. Isso se dá porque os males do capitalismo podem ser resolvidos dentro do próprio sistema. Enquanto isso, os males do socialismo não podem ser resolvidos, pois são intrínsecos a qualquer utopia totalitária.

Ademais, sobre Marx e o marxismo, eu vou além de Bruno. Não tenho a menor dúvida em atribuir ao pensamento marxista as mortes provocadas por seus seguidores mais fiéis. É óbvio que se pode estudar Marx em outras perspectivas, dada a complexidade e a importância de sua obra. Mas a parte “construtiva” de sua obra é uma teoria política nefasta, notadamente no seu aspecto mais ligado à revolução. Ninguém pode pregar uma ditadura do proletariado e depois dizer que seu pensamento não tem nenhuma relação com assassinatos em massa. Quando leio a Ideologia Alemã, identifico no marxismo a raiz de todos os males causados pelo socialismo real. Depois que se escolhe a ditadura em detrimento da democracia, as conseqüências não podem mais ser medidas.

Mas isso é papo que dá para dias de conversa.

Abraços e parabéns pelo nível dos textos.

__

Germano disse:

stalin, lenin? coletivitas, certo?

mao zedong? coletivista, 100%!

daniel dantas é individualista ou coletivista?

madoff, individualista ou coletivista?

francisco franco? individualista?

jorge rafael videla? norte-americano, sem dúvida!

__

Germano disse:

Faltou um individualista de primeira: pinochet, com assessoria de friedman, inclusive!

__

Guilherme Sobota disse:

Isso aí é falácia.

Todos os regimes socialistas implantados no decorrer da história são sim coletivistas (portanto, concordando com o Adrualdo, tornam-se totalitárias e autoritárias em algum momento, inevitavelmente).

Isso não quer dizer também, como vc quis demonstrar, que os individualistas são ‘bonzinhos’. São individualistas, e ponto.

Esse seu raciocínio é furado.

__

Osvaldo Bertolino disse:

Ditadura e democracia são conceitos de classe e antípodas. É filosofia, ciência social. Não tem nada a ver com o que dizem os que lêem o socialismo de forma vulgar ou mal intencionada. O Estado de Direito serve a essas ou àquelas classes. Depende do regime. Ele pode ser democrático para uns e antidemocráticos para outros. Democracia acima das classes é utopia, fantasia.

É como esquerda e direita. Sua existência é fruto de realidades sociais históricas, não de vontade. São conceitos que se formaram, possivelmente, como analogia às posições que os parlamentares ocupavam na Assembléia Nacional, em Paris, logo após a Revolução Francesa. Nas galerias à esquerda da mesa diretora ficavam os jacobinos, radicais quanto ao fim da monarquia e quanto aos rumos da Revolução.

À direita ficavam os girondinos, que defendiam posições mais moderadas e não simpatizavam com a idéia da França transformada em república. Já no século XIX, quando a maioria dos países havia trocado a monarquia de base feudal pela república baseada no liberalismo, direita passou a representar a defesa dos valores conservadores e esquerda a crítica a esses valores.

Esquerda passou a significar o projeto de modificação da estrutura republicana conservadora. Seu ideário reivindica a precedência do trabalho em relação ao capital. E direita tomou o significado de manutenção do status quo. Seu ideário advoga a primazia do capital em relação ao trabalho.

Enquanto a esquerda na Europa, luta somente contra a hegemonia liberal, no Brasil ela ainda combatemos resquícios do escravismo e do feudalismo. Essa constatação ajuda a desvendar por que no Brasil a direita morre de vergonha em admitir-se de direita. Manter baixa a visibilidade das cores de sua bandeira sempre contribuiu muito para diminuir sua rejeição perante o brasileiro médio.

Ela representa privilégios feudais, arcaísmos oligárquicos que já estão sepultados há séculos por países que, não por acaso, ao fazê-lo desbloquearam seus caminhos em direção ao desenvolvimento. Daí o grande constrangimento. Daí a grande antipatia por ela arrecadada e o fato de a esquerda ter sido engolida com menos dificuldade pelo brasileiro médio ao longo do século 20. Para se ter uma idéia da rejeição às sua idéias, em uma pesquisa divulgada pela revista “Veja”, em junho de 1996, 62% dos conceitos que a direita brasileira atribuía a si própria eram negativos.

Uma sociedade democrática deve alargar ao máximo o leque de possibilidades individuais e garantir um lugar digno a cada um. E isso, para os marxistas, não é utopia — é um projeto factível de sociedade. Para isso, é preciso assegurar, por meio de um regime verdadeiramente democrático para a maioria da sociedade, o direito de escolher seu destino. Se esquecermos os ensinamentos e o papel da direita na história, estaremos dando chance para o fortalecimento do regime de intolerância social e de homens autômatos. Aí vem o fascismo. É esse o caminho da direita — como ocorreu em 1964.

__

fred disse:

Quanta complexidade para um partido que queria igualdade!!

Dominação é igual a comunismo!! Não difere muito de uma ditadura.

__

andrei barros correia disse:

John Stuart Mill era um bom teórico, desenvolvendo um racionalismo utilitarista mais refinado que o de Benthan. Deixou uma curiosa porta aberta às limitações da liberdade, esta vastamente teorizada por ele, tanto no livro do próprio nome, como nos tratados do governo representativo e de economia política.

Evidentemente que não há direitos absolutos, mas a fixação dos critérios de relativização dos direitos mais ou menos aceitos como fundamentais é bastante interessante.

Muito para além do critério em si – a utilidade para a maioria autoriza a cedência da liberdade individual – cuja discussão deriva para moralismos inapropriáveis, interessa a própria previsão da exceção.

A vida em grupo é para as ciências humanas o que a consciência é para a psicologia ou as religiões. Um problema enorme, senão intransponível.

Um homem vivendo só – em uma ilha, por exemplo – teria liberdade absoluta, mas direito nenhum. Direitos pressupõem mais de uma pessoa. Seria, pelos menos teoreticamente, um ser muito feliz: livre e sem preocupar-se com as bobagens de direitos. Mas, talvez, livre e sem direitos, procurasse uma bola para conversar.

Os catálogos de direitos fundamentais enunciam muita coisa, inclusive, como é óbvio, a liberdade e a garantia de integridade. Mas, enunciam também circunstâncias excepcionais, de razões de estado, que autorizam a suspensão dos direitos.

Isso é absolutamente coerente com a assunção de que não sao aqueles direitos absolutos. Ora, se não são absolutos, podem ser suspensos. Os problemas começam quando as suspensões, de excepções, tornam-se em regra.

Outro problema é escamotear as exceções, fazendo crer que não estão a ocorrer, ou que não são a exceção, mas a regra. Um exemplo facilita a compreensão deste último filme.

Em dado momento, um Senador entendeu que fazer filmes de cinema com certos conteúdos era uma ameaça muito grande à segurança do seu país. Convenceu muitos outros, senadores e não senadores, de suas idéias.

Seria um caso clássico de razão de estado autorizando a suspensão de liberdades individuais de expressão. Sucede que os defensores da suspensão das liberdades não queriam que a atitude fosse chamada pelo nome, nem que se tratasse de um recurso à teoria da razão de estado.

Resultou que a supressão da liberdade de expressão deu-se – declaradamente – exatamente em nome da mesma liberdade suprimida. Contraditório? Obviamente que sim. Alguma novidade nessa contradição? Nenhuma que mereça grandes comentários

O grande problema das teorizações é que são – na enorme maioria dos casos – violentamente divorciadas dos casos a que se reportam. Como dizem os norte-americanos, são tailored to fit the case.

Estranhamente, a tese mais pura, ou desinteressada, não veste bem muitos casos. Com o liberalismo miliano acontece assim, para sorte da memória de Mill.

Fica-se tentado a acusar rapidamente as pessoas – as pessoas seriam aqui somente os atores principais, que a platéia muitas vezes não escolhe o espetáculo – de ignorância ou má-fé, ou os dois juntos. Mas, abstraindo-se de certas impurezas, depois do primeiro impulso a tentação volta-se para acusar os teóricos de terem teorizado.

Ao fim e ao cabo, se não houvesse tantas teorias, tantos livros e principalmente tantas formas de se apreenderem sistemas inteiros em 30 minutos, seríamos pura e simplesmente vontade de triunfar sobre os outros, sem maiores explicações.

De que me vale a minha razão, acaso cobiça ela o saber como o leão seu alimento? Não, não passa de…

__

Fernando Dias disse:

Caro Andrei

Já que você lembrou Benthan e Mill, que sistematizaram os conceitos básicos de racionalismo que permeiam a teoria econônica clásssca e afilhadas, cabe também ressaltar que Keynes e Arrow, observando o comportamento econômico do ponto de vista macro e micro, respectivamente, concluem que o comportamento social coletivo a luz da racionalidade individual não é um espelho exato desta, apresenta regras próprias.

Outro ponto interessante é que mesmo os modelos mais sofisticados atualmente que tratam crescimento, logo tendências para o futuro, que são baseado na idéia básica do individualismo, não apontam mais que noções dos determinantes de uma trajetória de crescimento equilibrado, e rudimentos daquilo que se encontra a seu final.

O contraste entre estes e o modelo marxista é notável quando se considera que neste último antecipa a própria derrocada do sistema em prol de um coletivismo social que sobrepujaria o próprio individualismo que levariam os “proletários” a se unir. O comunismo visto desta forma pressupõe um estado de evolução em que espírito animal é superado pelo espírito coletivo, naturalmente levando a extinção do homus economicus. Como tal, a possibilidade do comunismo será sempre verdade, sempre possível de ocorrer, mesmo que nunca ocorra.

__

Germano disse:

sobre o homum economicus, sugiro o excelente artigo de Delfim Netto na ultima Carta Capital. O modelo de Arrow-Debreu, se tem alguma utilidade prática e há sérias dúvidas sobre isso (ver Mark Blaug) não tem muito a ver com as mais conhecidas proposições de Keynes. Keynes é hoje ressaltado como um crítico arguto da lógica “neoclássica”, lógica essa que o referido teorema, baseado em pressupostos bastante restritivos, procura validar. Escolástica vazia, cuja principal função é fazer alunos de mestrado e doutorado em economia estudar. Mais uma vez, recomendo, Andrei, o artigo de Delfim Netto na Carta Capital – claro, uma revista que muitos acham “Vermelha”!

__

Germano disse:

Andrei e Fernando se referem ao Bentham (utilitarista, mais que racionalista, acredito…) Pois bem, vcs conhecem a maluquice que ele propôs? o primeiro debate post-mortem! Isso mesmo, ele pediu para ser embalsamado depois de morto. E elaborou um conjunto de perguntas que alimentariam um debate. ocorre que a sua cabeça ficou podre. Isso. O embalsamento não ficou legal e ele ficou parecendo (eu juro) com o Freddy Krugger! Fizeram então uma cabeça de cera. O debate foi finalmente realizado nos anos 70 ou oitenta do Século passado. ele era dotado de outras idéias necrófilas, ainda piores. Um “racionalista” amalucado.

__

andrei barros correia disse:

Germano,

Conhecia a estória da múmia de Benthan, muito de mal gosto por sinal. É engraçado que existe uma mitologia de certo humor britânico.

Andei falando dele, mas principalmente de Mill, porque tenho visto muita teorização para traçar curiosas relações de causas e efeitos e para um anacrônico anti-marxismo. Não falo da postagem de Pierre, nem do comentário do Bruno Galindo.

Quis dizer que as contradições internas entre práticas e teorias são abissais em qualquer modelo, ou melhor, sob as perspectivas de qualquer modelo.

O exemplo do senador Mc Carthy era para isso.

__

fred disse:

Delfin neto na carta capital, o mundo dar muitas voltas, ideologias é para tolos!!!

__

André Raboni disse:

Jeremy Bentham é uma figura chave para compreender as fundações do sistema capitalista contemporâneo. Criou o sistema prisional Panóptico, além de teorizar a deontologia estudada hodiernamente por jornalistas. Estava antenado com toda a arquitetura do disciplinamento social, base de toda estrutura capitalista.

À época, inícios do século XIX, outras fundações da sociedade foram importantes nesse processo basilar, como a criação dos hospícios, reformatórios, colégios (como os conhecemos hoje), etecetera.

Pra compreender melhor esse processo é preciso ler Foucault, sobretudo “História da Loucura”, “Nascimento da Clínica”, “A Verdade e as Formas Jurídicas” e “Vigiar e Punir”.

Mas, Foucault ficou conhecido como um “pós-moderno” desvairado… Um bom rótulo e engodo para fugidios.

Assim como Marx, que operou críticas fundamentais ao capitalismo (muitas delas atualíssimas, como a da reificação), Foucault também o fez para as estruturas de poder.

Mas os dois são tachados como lunáticos, o que serve de desculpa pra não sair da introdução do Capital, e, quiçá!, da análise do Panóptico feita por Foucault (caso exista estômago pra acabar o Suplício de Damiens).

Muito disso é resultado do trabalho pífio daqueles que escreveram sob seus conceitos, apenas para atingir metas Lattes.

__

Germano disse:

é verdade Raboni. Há toda uma ideologia do Lattes em operação…Seja como for, Betham é, decididamente, um autor menor, eu diria até desprezível em teoria econômica. Mill, sim, é mais estudado e respeitado. Ainda assim apenas em “história do pensamento econômico”. Realmente, ideologia não passa de uma falsa representação da realidade (Marx e Engels em “Idelologia Alemã”). Quer um exemplo? enquanto nas universidades se discute a sociedade aberta e seus inimigos, espertos como daniel dantas e nagi nahas dão aulas sobre apropriação individualista da riqueza. Enquanto os economistas procuram sofisticar o equilíbrio Arrow-Debreu, presumindo hipóteses topológicas menos restritivas, o que, em tese, permitiria a ocorrência de equilíbrios múltiplos, madaff lembra como há tolos nesse mundo de Deus: ricos que caem no velho jogo da “corrente” (cadeias Ponzi).

__

Fernando Dias disse:

Caríssimos

Temos sempre de ter em mente que uma coisa é teorizar sobre complexas relações sociais a partir de modelos que, em essência, são simplificações, mesmo que dotados de uma elegante estrutura matemática.

Outra coisa é analisar situações específicas do mundo real, que podem ou não ser previstas a partir dos modelos supracitados.

Os modelos, seja em teoria econômica seja em qualquer outra ciência, são representações. A matemática, por sua vez, é apenas a linguagem utilizada para dar corpo ao modelo. O grau de complexidade do modelo depende do grau de complexidade do problema, e não é raro um tema de discussão passar a ser tratado em um grau de abstração tal que se cria uma barreira entre o sujeito comum e o acadêmico.

Isto não é uma particularidade dos modelos que usam matemática, pois o mesmo problema se encontra nas ciências jurídicas, na filosofia, na sociologia, apenas para citar alguns.

É também particularidade das ciências, ou dos ramos de estudo que tentam se aproximar do método científico, a preocupação com formalismos que são em geral desprezados pelo senso comum ou pelo homem comum, mas que são essênciais dentro da avaliação rigorosa das proposições.

Logo, embora a prova da existência de equilíbrio único e estável de Debreu para o modelo de economia em concorrência perfeita, e a prova de existência deste equilíbrio no mesmo modelo mas com estados contingentes feita por Debreu e Arrow, tenham aplicabilidade prática nula, são essenciais para dar consistência ao modelo de análise da teoria econômica.

Em resumo, há o joio e há o trigo, não confundir.

__

Germano disse:

vc quer dizer, ao modelo deles de teoria econômica. Há tantos e tais… Uma coisa é certa impressionam e ajudam a engordar o currículo Lattes e até na venda de uma outra consultoria, para órgãos do governo, claro (vejam as aplicações dos chamados modelos de equilíbrio geral computável). De minha parte, fico com os homens comuns, como eu mesmo. Aqueles não sabem falar javanês. Acreditando que assim como deve-se separar o joio do trigo, há “ciências” e ciências. Assim como há muita conversa mole, travestida de ciência, financiada com recursos públicos, os quais não param de crescer.

__

andrei barros correia disse:

É interessante, André, como um sujeito que tem a memória ligada ao apelativo termo liberdade, dedicou-se muito especialmente à formulação de controles sociais de padrões reputados desviantes.

Eu estava lembrando de um pensador interessante, Henry Shue, que utilizou um pouco o acervo utilitarista para subverter uma das postulações clássicas.

Shue diz que há três direitos básicos, apenas: subsistência, segurança e liberdade. E essa ordem não está à toa.

Ele põe os direitos básicos como supostos do exercício de todos os outros, mais ou menos fundamentais. E a subsistência como antecedente de qualquer outro.

Do ponto de vista formal, é de uma simplicidade desconcertante, pois modelos aristotélicos sempre dão certo.

O que há de interessante materialmente é a assertiva de que sem o mínimo de subsistência não se exercem quaisquer outros direitos.

E esse subversivo foi publicado pela Universidade de Princeton, mais seleta e menos conhecida que Harvard, onde muito político brasileiro sem mandato passa férias.

__

André Raboni disse:

Germano e Andrei,

A seletividade sempre ataca. E é óbvio que subsiste um viés da econometria ideológica nisso tudo – especificamente quando dirigido às atividades acadêmicas.

Um caso muito curioso pude constatar aqui na UFPE. Tenho vários amigos do curso de Ciências Sociais (que engloba Antropologia, Ciências Políticas e Sociologia), tanto na graduação, como no mestrado e também no doutorado.

Por puro acidente, certa vez, descobri, em uma conversa informal sobre sistemas prisionais, que nenhum desses amigos (um por findar a graduação, e o outro no mestrado) sequer tinha ouvido falar no nome de Gabriel Tarde.

Tarde foi um pensador e sociólogo de fins do século XIX (cuja obra é vasta), contemporâneo e antípoda teórico de Durkheim. Deste último creio que não exista no mundo inteiro, um único estudante de sociologia que não tenha estudado-o (ao menos por atravessadores de peixe, os chamados “comentaristas”). Durkheim é tido como o “pai da sociologia”. Tarde,não passa de um nobre desconhecido.

O amigo citado, do doutorado, que conhece bem a obra de Tarde (sua graduação e mestrado não foram em Ciências Sociais) tentou se basear nos postulados de Tarde (um deles, a teoria das mônadas elaborada por Leibniz, e rearranjada por Tarde na teoria sociológica que fundou), para elaborar sua tese.

O resultado é que a tentativa de inserir Tarde em seu trabalho foi um fracasso, pois não era uma área de domínio dos doutores, e, no fim das contas, visto como secundário para um planeta durkheiminiano…

Com isso quero dizer que a eleição de modelos não se trata apenas de meros recortes sem finalidade. Tarde está muito próximo dos pós-estruturalistas, ou mais adequado seria dizer o inverso, e isso assusta muita gente, que sequer consegue lidar com textos deleuzianos (G. Deleuze) e derridianos (J. Derrida).

Para mim parece claro que existe uma política do recorte na Universidade. Um aluno deveria no mínimo sair da graduação conhecendo as possibilidades analíticas, mas não, a impressão que se tem é que saem adestrados (pensem nas menções a Foucault do comentário anterior, e das operações disciplinadoras da sociedade capitalista) em determinadas “correntes” (não duvidem do poder dessa palavrinha…) epistemológicas.

Não acho que estas críticas sejam alucinações minhas. Acredito, em contrário, que tudo isso certamente faz parte do projeto capitalista que objetiva tornar a Universidade um pesque-pague do mercado.

__

andrei barros correia disse:

Fez-me lembrar que conheci Tarde por acaso, há sete anos, fuçando uma livraria em Capina. É um pensador muito inteligente.

Um volume daqueles vermelhos, da Martins Fontes, A opinião e as massas.

__

André Raboni disse:

Andrei,

As conversações dentro de computadores parecem ter elevado a um nível altíssimo todas as possibilidades de expressão monadológicas da palavra escrita.

O que Tarde não previu foi essa invenção maluca chamada “internet”!

Sendo assim, quando depositou no contato a causa de provocação de conversações entre indivíduos (podemos entendê-los, aqui, como mônadasdo tecido social em ambiência digital), Tarde não levou Leibniz até o limite, já que não levou em conta os encurtamentos dos espaços próprios da Rede.

Mas ele já visualizava a obsolescência da Imprensa enquanto principal veículo formador de opinião.

Essa discussão está muito viva hoje em dia, mas ainda não chegou nos ambientes de sacerdócio.

Não desta forma.

__

Fernando Dias disse:

Caro Germano

De fato há um pequeno punhado de escolas de teoria econômica, marxismo incluso, mas no mainstream domina a concepção simples do racionalismo a la Bentham, destarte as filósificas acepçòes de seu significado.

Quanto a sua concepção que isto venha a alimentar o Lattes de nossos pesquisadores, bem, lamento informar mas não há quase publicação nacional em teoria econômica pura, muito menos em relação a modelos de equilíbrio geral.

Discordo por fim, de sua posição ao questionar a validade de análises que ficam distantes do homem comum. Muito do que temos hoje como do homem comum foi, a seu tempo, parte de elocubrações de acadêmicos sem fim, perdidos em suas divagações e em modelos incompreensíveis.

Mas, para fazer também o mea culpa, pretensas ciências sociais como a Economia necessitam da ponte entre a geração do conhecimento e sua aplicabilidade as análises sociais, mesmo que estas ocorram com algum gap de tempo. A negligência dos economistas em relação a este tema, geralmente associado a economia-política, vem apresentando um alto custo em credibilidade.

No caso das ciências sociais este tipo de distanciamento as vezes contribui para crendices tolas, ou discussões inúteis sobre o óbvio. O título deste post é um exemplo destas situações.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
Esse post foi publicado em revolução e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s