Militantes do PSTU criam “nova UNE”, mais radical

Eles defendem invasões e rejeitam o ProUni, programa federal de bolsas a alunos

Por Pedro Venceslau, no jornal O Estado de S. Paulo

A septuagenária União Nacional dos Estudantes (UNE) não é mais a única entidade nacional que representa os universitários brasileiros. Depois de uma década tentando conquistar o comando da entidade, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) mudou de estratégia e fundou sua própria UNE, a Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL).

O nascimento oficial aconteceu no dia 15 de junho, exatamente um mês antes do 51 º Congresso Nacional da UNE, que esse ano será em Brasília e contará com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura. É a primeira vez desde sua fundação, em 1937, que a UNE ganha uma concorrente.

Foi na plenária final de um evento com 2 mil estudantes no câmpus da Universidade Federal do Rio de Janeiro que a ANEL desfraldou suas bandeiras: ocupar reitorias em defesa da radicalização da democracia universitária, com eleições diretas para reitor, combater o ProUni – programa federal que oferece isenção fiscal para instituições privadas que oferecerem 10% de vagas para estudantes pobres – e fazer oposição ferrenha e sistemática ao governo.

“A UNE de hoje é chapa-branca e corneteira do governo. Além disso, está burocratizada. O ProUni tira responsabilidade do governo de financiar o ensino. Defendemos a ampliação de vagas nas universidades públicas”, diz Camila Lisboa, estudante de Ciências Sociais da Unicamp e principal liderança da organização. Ela explica que não é presidente de nada, já que seu grupo é contra “personalização de lideranças”.

A ANEL, que ainda não conta com CNPJ, avisa que não quer saber de dinheiro do governo. “Também somos contra o monopólio da meia entrada, mas ainda estamos avaliando se vamos emitir uma carteirinha própria. De qualquer forma, o financiamento da entidade será por meio de recursos de Centros Acadêmicos e DCEs”, explica Camila. Além do PSTU, o único partido que enviou representantes para o congresso foi o PSOL, de Heloísa Helena.

“Algumas correntes do PSOL estão conosco.” Quem mais? “A Liga Estratégia Revolucionária, a Liga Bolchevique Internacionalista, o Coletivo Marxista, o Comitê Anarquista do Ceará, os DCEs da USP, UFMG e Puccamp, além de várias executivas de curso, como Educação Física e Letras”, contabiliza a líder da “nova UNE”.

Desdém

A cúpula da original reagiu com desdém à novidade. “A ANEL não terá futuro, já que é uma entidade de um partido só (o PSTU)”, diz a presidente, Lucia Stumpf, que é do PCdoB. Pelas suas contas, o congresso da entidade em Brasília vai contar com 10 mil estudantes, sendo 5.250 delegados. “Eles representam 2 milhões de estudantes. Houve eleição para delegados em 92% das universidades brasileiras”, afirma. 

“A criação da ANEL é lamentável. Fere a história dos 70 anos da UNE, uma entidade unitária reconhecida no mundo inteiro”, afirma Fabiana Costa, presidente do Centro de Memória da Juventude, ONG que cuida da memória do movimento estudantil.

Mensalidade e inflação

Dentro do congresso de Brasília, também ocorrerá o 1º Encontro Nacional do ProUni, que reunirá bolsistas de todo o País para elaborar e enviar ao Ministério da Educação um documento com sugestões para aprimorar o programa.

A UNE defende sua ampliação. Quer que 20% das vagas nas universidades privadas fiquem obrigatoriamente com estudantes que ganham até três salários mínimos. A entidade também defende uma nova lei de mensalidades, que limite os aumentos de acordo com inflação.

Apesar de ser adversário histórico do PCdoB no movimento estudantil (os comunistas dirigem a UNE desde os anos 70), o PT recusou-se a embarcar na ANEL. “Criar outra entidade não é a saída. Reconhecemos a UNE como ferramenta e nossa opção é disputar a entidade por dentro”, afirma Severine Macedo, secretária nacional de Juventude do PT

“Não vejo razão para disputa, já que estamos juntos na defesa mais ampla de um campo”, avalia a presidente Lucia Stumpf.

“Queremos fechar com todo o PT. Mas também estamos conversando com as juventudes do PSB, PDT e PPL (antigo MR8)”, diz Augusto Chagas, dirigente da UJS, a juventude do PCdoB.

Pela programação da UNE, o Congresso de Brasília começa dia 15 com uma homenagem na Câmara ao Congresso da Reconstrução de 1979, realizado em Salvador. No dia seguinte, uma passeata sairá pelas ruas da capital com o slogan o “O pré-sal é nosso”.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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