A Alba deve se preparar para o “the day after”

Por Martinho Júnior, no Juventud Rebelde

O peso do Mundo cai sobre os golpistas das Honduras, sobre aquela parte da oligarquia fundamentalista e conservadora incapaz de aceitar a mudança dos paradigmas globais, sobre aquela parte das Forças Armadas do país que cristalizaram na década de 80 do século XX arreigadas aos ensinamentos da Escola das Américas de sinistra memória, sobre todos aqueles que por egoísmo, por arrogância, impõem leis obsoletas que limitam a democracia, ao invés de tratar do seu aprofundamento pela via responsável da participação cidadã, em nome da paz e do sentido da vida, (1).

Há quem tenha medo do Poder Popular, num momento em que a tecnologia pode favorecer mais que nunca a tomada de decisões de forma cada vez mais colectiva, consensual, solidária, filosoficamente equilibrada e consciente.

Há quem procure impor a democracia representativa, ainda por cima na sua versão mais restritiva, julgando que assim a sustentabilidade sócio-política será garantida, que conseguirá iludir a vontade dos povos, que lhes assiste ainda qualquer tipo de legitimidade quando esse “modelo” petrificado só desemboca no cadáver do neo liberalismo e dos cada vez mais limitados interesses que ele gere, (2).

O século XXI finalmente está aí e a crise pode ser o parto doloroso dum renascimento global, que passa desde logo pelos recantos mais obscuros da Terra e é a partir daí que se ergue a orientação da Alba, a partir “dos debaixo” quando se recorda por exemplo o discurso de Miguel d’Escoto, o Presidente da Assembleia Geral da ONU reflectindo sobre a actual estado do mundo.

A Alba pode ser ainda incipiente, aparentemente desconexa e longe da sua ambição de Pátria Grande, integração e socialismo, pode ainda viver muito do entusiasmo de alguns, quando outros se mantêm em expectativa, pode ainda ter de enfrentar os riscos próprios do crescimento e da burocracia, mas possui excepcionais qualidades ético-filosóficas e morais que rompem não com cem, mas com duzentos anos de solidão vividos pelos povos da América, (3).

Esse património colectivo nunca antes experimentado que já não é só da América, acredito que pode de facto remover montanhas e os golpistas de hoje, são tristes figuras quixotescas, perante as evidências e as alternativas que se abrem.

A Alba deve progredir pois com entusiasmo, alargando-se solidariamente aos povos de toda a América e transmitindo-se no seu exemplo a outros continentes, todavia com a criatividade e a inteligência possíveis perante os muitos riscos e desafios que ainda persistem e sempre tendo em conta o estádio de subdesenvolvimento que atinge uma boa parte da humanidade.

O golpe nas Honduras, julgo eu, será a breve trecho ultrapassado, mas que fazer daqueles que o realizaram sob os pontos de vista institucional quanto sob o ponto de vista militar?

É legítimo que os dinossauros tenebrosos, restos do sanguinário feudalismo da década de 80 do século XX continuem com acesso ao poder?

É legítimo que aqueles que foram preparados para desestabilizar, para actuar de forma terrorista contra os povos da América, aqueles alguns dos quais foram assassinos, foram torturadores, detenham ainda hoje e desta maneira as armas e assim garantir poder, qualquer que ele seja, mesmo num recôndito obscuro do Mundo, num estado cujo destino parece perpetuar-se na “república das bananas”? (4).

Essas questões e muitas mais colocam-se hoje às Honduras, como a todas as nações e estados sobre a Terra e desde logo também aos Estados Unidos.

Os riscos e desafios que se devem prever em relação aos cenários nas Honduras, dos cenários em relação à ALBA no seu conjunto e em cada um dos seus componentes, dos cenários em relação aos próprios Estados Unidos, devem estar “na ordem do dia”.

Para as Honduras parecem desenhar-se muitas incertezas, mas também há certezas e elas advêm do seu próprio povo, das organizações sociais, dos sindicatos, dos camponeses, dos funcionários públicos, dos trabalhadores, da intelectualidade progressista, do resgate do muito que há a usufruir, quando foi durante tanto tempo tão pouco o que se alcançou…

Com o povo deverão cerrar-se fileiras, quer José Manuel Zelaya volte a assumir a Presidência, quer isso lhe seja impedido, para que as oligarquias tenham um aprendizado de responsabilidade e possam ser induzidas da arrogância, do ódio, do egoísmo, à solidariedade, ao amor, à justiça social, ao aprofundamento da democracia para que ela não seja feita de seus “lobbies” mesquinhos e à paz.

Se com Zelaya como Presidente o aprofundamento da democracia deve ser conseguido com sensibilidade jurídica-institucional e com respeito por cada um, pelas minorias e por todos, a resistência popular dever-se-á impor se ele não voltar a assumir por qualquer tipo de impedimento prático, já que o “Comandante Vaqueiro” não tem impedimento em termos de legitimidade e de legalidade, parece não ter impedimento por falta de coragem, nem tampouco por insuficiências de ordem ética ou moral, (5).

Duma ou de outra forma as Honduras devem ser consideradas como um país enfermo pelas características traumatizantes que advêm do passado e atingem várias camadas de sua população, pela psicologia de alguns membros de sua oligarquia e forças armadas, pelo espectro do golpe, mas o renascimento a que se propõe a Alba parece garantir pedagogia, terapêutica e possuir cada vez “mais pernas para andar”.

Que elementos psicológicos por exemplo interessa estudar nesse sentido em relação a Roberto Micheletti, ou em relação ao general Romeo Vazquez?

A Alba por seu turno e antes do mais, deve garantir unidade inquebrantável, pois a posição norte americana deverá ser levada em conta com atenção e com cuidado nas repercussões a curto, médio e longo prazos e o seu seguimento deverá ser acompanhado, (6).

O fato de Cuba ser politicamente pelo não ao diálogo com os golpistas, corta uma das veleidades que poderia haver na posição norte americana ao condenar o golpe e destapa a seguinte questão: está ou não “oficialmente” o Pentágono implicado no golpe nas Honduras? Se não, que grupos à revelia, dentro ou fora do Pentágono têm mando ou ligação ao golpe, tendo em conta o histórico da Escola das Américas e dos “links” entre alguns oficiais norte americanos e os oficiais hondurenhos? Até que ponto esses falcões poderão influir nas posições da administração democrata de Barack Hussein Obama? (7)

Sob o ponto de vista geo estratégico e tendo em conta a efectiva tendência para o multipolarismo, o significado de Yekaterinburg está em balanço, em relação à aceitação do dólar enquanto moeda para as trocas em todo o mundo, quando isso significa alimentar a máquina de guerra dos Estados Unidos e dos seus aliados.

A firmeza norte-americana contra o golpe nas Honduras e no que há de consonância com a Alba, é fruto duma linha de relacionamento ético e moral prevista pela sua diplomacia, ou é imposta pela conjuntura cada vez mais desfavorável do dólar e em função da sua rejeição gradual e das características da crise?

Até que ponto os falcões estarão dispostos a aceitar e prolongar então este “alinhamento” com a Alba?

As provas virão de dentro dos próprios Estados Unidos e seria muito bom, entre os muitos sinais possíveis e necessários, que as premissas da democracia representativa começassem a ser revistas, de forma a darem espaço à democracia participativa e aprofundar-se a democracia no sentido da cidadania, da vida, do renascimento urgente que se precisa!…

São essencialmente os próprios norte americanos melhor que ninguém que poderão curar esse “enfermo-maior” que constitui os Estados Unidos da América e fazê-lo renascer numa forma digna, justa e solidária para com toda a humanidade e para com o planeta!

_______

Notas:

– (1) – Granma – Reacción mundial de condena al golpe en Honduras – http://www.granma.cu/espanol/2009/junio/mar30/reaccion.html ;

Repudio mundial a golpe militar en Honduras – http://www.granma.cu/espanol/2009/junio/domingo28/repudio.html ;

Ciranda – Somos todas Honduras! Estamos em resistência! – http://www.ciranda.net/spip/article2993.html

– (2) – La República (Uruguai) – Cristina Fernández: golpe en Honduras es

retorno a la barbárie – http://www.larepublica.com.uy/mundo/370738-presidenta-argentina-el-golpe-en-honduras-es-retorno-a-la-barbarie ; Aporrea – El espej de Honduras – http://www.aporrea.org/internacionales/a81040.html

– (3) – Fundação Lauro Campos – A CIA contra a integração latino-americana: nomes e sobrenomes – http://www.socialismo.org.br/portal/comunicacao-social/89-artigo/66-a-cia-contra-a-integracao-latino-americana-nomes-e-sobrenomes

– (4) – NSA Archive – Campaign for Declassification of Documents on Human Rights Abuses in Latin America – http://www.gwu.edu/~nsarchiv/news/19971017.htm

– (5) – Público – El oligarca que cambio de bando – http://www.publico.es/internacional/235385/oligarca/cambio/bando ; Rebelión – La conversión de Zelaya – http://www.rebelion.org/noticia.php?id=87924

– (6) – El Pueblo Presidente – Es un atentado a toda América Latina – http://www.elpueblopresidente.com/EL-19/4172.html

– (7) – Juventud Rebelde – Con los golpistas no hay negociación.

 

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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