Crise no Senado: procura-se otário — tratar com a mídia

Por Osvaldo Bertolino

Bem-vindos, prezados eleitores, à campanha eleitoral de 2010, na qual o que parece não é, e o que é hoje pode deixar de ser amanhã. Aquela gente da mídia que age como vendedores de produtos conhecidos nas farmácias por BO (bom para otário), mais uma vez tenta empurrar goela abaixo dos brasileiros grosseiras falsificações — como se fôssemos um país de bocas-abertas. Eles acham que para os brasileiros pensar dói. O bom mesmo, segundo seu cínico evangelho, é manter os eleitores na obscuridade política para, mais adiante, colher o voto manipulado, sem polimento e sem lapidação.

Como lidar com isso, neste momento em que as eleições do ano que vem entram na agenda de preocupações do país?  Da mesma maneira como se lida com um porco-espinho: com extremo cuidado. Diante da salada de falsas questões, idéias sem nexo e fatos incompreensíveis que é servida diariamente no noticiário político, o que se tem, na maior parte do tempo, é desinformação.

A saída é só dar crédito a alguma coisa depois que ela venha a ser comprovada pela realidade. Caso contrário, corre-se o risco de tomar por essencial o que pode ser apenas transitório e levar a sério fenômenos que, no fim das contas, só acabarão sendo lembrados pelos 15 minutos de fama que tiveram na sempre desonesta cobertura das mídia. No caso do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), a primeira coisa a ser comprovada será sua capacidade, pessoal e política, de não ceder às chantagens que pairam sobre si, o tempo todo, como uma nuvem carregada sempre pronta a despejar tempestade.

Provas de culpabilidade

É possível que Sarney consiga livrar-se dela, ou que seus acusadores acabem deixando o episódio no esquecimento. Tudo é possível, no longo prazo. No presente, o que se pode dizer é que as acusações não atraem muita simpatia; nem estão convencendo muita gente. O entendimento predominante parece que vem sendo o seguinte: se ele deve alguma coisa, que pague à Justiça e aos seus eleitores — não à mídia. O que vai ficando evidente é que o ataque inescrupuloso ao senador é o tipo da coisa que tem tudo para dar em nada nessa pescaria em que procuradores de escândalos vêm jogando muito anzol e pegando pouco peixe.

Mais uma vez, em nome da “liberdade de imprensa” os violadores da liberdade de imprensa se juntam a fim de “vazar” para o público “mais detalhes” sobre as falsidades e mentiras divulgadas diuturnamente pela mídia. É possível que eles levem essa rosca sem fim até às barbas das eleições do ano que vem. Em se tratando dessa gente, tudo é possível — menos a verdade. Trata-se de uma das piores pragas que envenenam os atuais usos e costumes do ambiente político brasileiro.

Acusações, suspeitas e indícios são divulgados como se fossem provas de culpabilidade — e a pessoa envolvida se vê condenada antes que consiga abrir a boca para dizer uma única palavra em sua defesa. É algo embrulhado em espetacular hipocrisia. Acusações como as atribuídas a Sarney, que são café pequeno perto do que se sabe de muitos parlamentares do campo conservador, deveriam ser examinadas com lupa de precisão. Mas, convenhamos, não se faz política com pé no peito e faca no pescoço. E muito menos justiça.

Enredo da ópera

O problema não está aí. Se estivesse, deveríamos proclamar: deixem os poderes da República trabalhar e noticiemos o que eles fazem. Os procuradores de escândalos e os promotores de injustiças não teriam vez. E aí sim teríamos toda razão do mundo para clamar por justiça para todos — independente da cor ideológica de cada um. Mas rigorosamente não é disso que se trata atualmente no Brasil.

Quando o assunto é tratado sem as bravatas e foguetórios da mídia, e sem o histrionismo dos grupos “esquerdistas” — uma poderosa arma da direita —, o que se vê é um panorama bem diferente. A briga real, com fichas de verdade na mesa, está no confronto entre duas concepções. As calamidades que a elite brasileira foi capaz de produzir ao longo da história e parece decidida a continuar produzindo, numa espécie de rosca sem fim, ilustram essa situação de modo exemplar. É uma situação que pode ser descrita como o retrato da morte moral de uma ideologia que vive na delinqüência e se agarra a todas as formas de poder para continuar a delinqüir em larga escala.

Todas essas coisas compõem o enredo da ópera, mas o seu melhor resumo não é o tamanho da vigarice, e sim a sua natureza: ela expressa, mais do que um espetáculo de má conduta, o funcionamento a todo o vapor do país do atraso. O Brasil que vive do passado vai muito além da mídia — inclui forças políticas e práticas elitistas que sempre estiveram presentes em toda a nossa história. Na verdade, essa opção preferencial pelo arcaísmo, pela imobilidade social e pelo que não funciona é simplesmente o que se poderia mesmo esperar de um setor da sociedade que carrega usos e costumes que chegaram com a turma que desembarcou por aqui junto com Pedro Álvares Cabral.

Miopia de oito graus

Conferir credibilidade ao seu projeto equivale a fundar, hoje, um partido a favor do colonialismo. Não é com o governo Lula que a direita realmente está em guerra. O seu problema é com o Brasil que não quer mais ser o mesmo. Ela guerreia com este Brasil em transformação pelo menos desde o início da década de 40 do século XX. O problema é que de 1950 para cá a direita tem obtido poucas vitórias. De meados dos anos 50 em diante, as forças populares deixaram de ser marginais para tornarem-se capazes de influir no grande jogo político do país.

Um exemplo disso foi a atitude de Juscelino Kubitschek que, em sua campanha eleitoral para a Presidência da República, conforme ele mesmo disse, foi forçado a reformular a sua proposta de governo sobre o petróleo por conta do sentimento patriótico entre o povo desenvolvido pelas forças progressistas. Fatos como este se repetiram nos governos Jânio Quadros e João Goulart, e refletiam o crescimento das correntes políticas populares.

Seria interessante que certas figuras do campo de apoio ao governo Lula revisitassem este cenário para, quem sabe, compreender melhor o que se passa com o país atualmente. As forças progressistas derrotadas em 1964 foram vitoriosas em 2002 e 2006 porque enfrentaram a ditadura militar, travaram uma dura disputa com a direita na Assembléia Nacional Constituinte de 1988 e nas eleições presidenciais de 1989, e resistiram ao projeto neoliberal. Os elementos desta trajetória estão presentes na atual disputa política que ganha cada vez mais ares de dramaticidade. Não enxergar isso é miopia política de oito graus.       

Tia Neurastênica

Essas patacoadas da mídia envergonham os jornalistas autênticos. É que, segundo as sempre bem informadas autoridades em abobrinhas desses veículos, o que importa é criar ondas de boatos de toda ordem. E, para além da eclética e deletéria boataria, dissemina-se pelo país um sentimento de Armagedon. As “investigações” da imprensa vão assim se transformando num dos episódios mais patéticos da história política moderna brasileira, com sua mistura de bravatas, foguetórios e pouquíssima substância.

O mais revoltante disso tudo é ver senadores petistas fazendo corpo mole em campo. É inexplicável, por exemplo, a entrevista de Tião Viana (PT-AC) à imunda revista Veja criticando a sábia condução da crise pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva. As piruetas retóricas do líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante, também são lamentáveis. Foi preciso a intervenção do presidente Luis Inácio Lula da Silva para que as coisas entrassem numa atmosfera mais ajuizada.

É possível que setores do PT entraram nesse jogo da direita por receio de perder espaços em alguns Estados. Isso pode acontecer, evidentemente. Mas ninguém precisa atear fogo às vestes, pois o próprio partido tem muito mais a ganhar do que a perder com a vitória de um projeto progressista amplo em 2010. A direita é previsível como aquela velha tia neurastênica que toda família tem. Já um governo de centro-esquerda tem um mundo para desbravar.

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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Uma resposta para Crise no Senado: procura-se otário — tratar com a mídia

  1. Não há lugar para ingenuidade nessa carnificina que será as eleições de 2010.

    Eu preferiria que não tivéssemos um aliado como Sarney. Mas temos. É a maldita governabilidade.

    Desde os anos oitentas o PT resolveu ser um partido “normal”: desmobilizou os chamados Núcleos de Base, retirou-se, parcialmente, dos movimentos populares.

    A intenção era “não assustar a classe média”. Essa mudança de rumo teve José Dirceu e seu grupo como um dos principais articuladores.

    Acho que o PT tem, sim, que retomar o contato com as bases populares, tem que se re-enraizar.

    Mas enquanto isso não acontece, o mundo continua a girar e a elite branca e racista do continente quer retomar o poder perdido. Vide Honduras. Vide tentativas de golpe na Bolívia e na Venezuela.

    Agora temos que lutar com as armas que temos. Uma das mais importantes é a das alianças. Abrir mão delas, cedendo à mídia golpista, é colocar a corda no próprio pescoço.

    Além da vitória de Dilma, o ideal é que também coloquemos maioria no Senado e derrotemos alguns governadores demotucanos, como Serra, Yeda e outros. Difícil? Sim, mas não impossível. Quem imaginaria que os EUA teriam um presidente negro com nome islâmico? Estamos num mundo em transformação, no qual tudo está se tornando mais possível.

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