Morte de gaúchos no baú da guerrilha

Por Iara Lemos, no jornal Zero Hora

O estampido dos tiros foi seguido de silêncio. Colocado diante de um pelotão de fuzilamento, o gaúcho Cilon Cunha Brum tombou às margens da antiga rodovia PA-70, em região hoje situada no Estado do Tocantins. Foi no dia 5 de março de 1974. Aos 28 anos, Cilon, conhecido como Cumprido, deu seu último suspiro diante de um grupo de militares contra os quais lutou. Assim como outros 40 integrantes da Guerrilha do Araguaia, Cilon foi fuzilado pelos militares, e não morto em combate como se acreditava.

A informação consta dos arquivos particulares de Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o major Curió, um dos chefes da repressão na região do Araguaia. Desde que o militar decidiu abrir o baú e tornar públicos seus documentos, há duas semanas, voltou a ser colocada em discussão a necessidade de abertura dos arquivos do governo sobre a Guerrilha do Araguaia. Os corpos dos guerrilheiros mortos seguem desaparecidos. 

– Sabíamos que ele estava morto, mas saber que ele foi fuzilado é dolorido demais. Ele não foi morto em combate. Ele foi preso e executado, o que é um crime muito maior – avalia Lino Brum, irmão de Cilon.

Desde 1975, com o fim a guerrilha, as famílias dos quatro gaúchos que lutaram no Araguaia buscam informações.

– A única coisa que queremos é poder identificar o corpo do meu irmão e sepultá-lo com a nossa família. Perdi meus pais lutando por essa causa e vou lutar por toda minha vida – diz a médica Maria Helena MassaFerro Bronca, 72 anos, irmã do guerrilheiro José Huberto Bronca.

Tal como Cilon, Bronca, conhecido como Fogoió, havia sido visto pelos companheiros pela última vez no combate de 25 de dezembro de 1973. Um relatório da Marinha informa que Fogoió teria sido morto em março de 1974. Contudo, os arquivos de Curió trazem novos detalhes sobre a morte do guerrilheiro. Fogoió teria sido capturado vivo em abril de 1974 e executado.

Documentos apontam data de morte de guerrilheiro

Os documentos particulares de Curió também acrescentam novas informações a respeito da morte de Paulo Mendes Rodrigues. Nascido em Cruz Alta, ingressou na luta armada após deixar a faculdade de Economia da UFRGS. Sabia-se apenas que Paulo teria sido morto em 1973. Os arquivos de Curió especificam a data da morte, no combate de 25 de dezembro de 1973. João Carlos Haas Sobrinho, o quarto gaúcho a integrar a guerrilha, também aparece nos documentos. Até então, ele constava como desaparecido ou morto desde 30 de setembro de 1972. Agora, os familiares receberam indícios de que o guerrilheiro foi morto pelos militares.

A irmã de Haas, Sônia Haas, 51 anos, lamenta que o Brasil conheça a história por meio dos arquivos dos militares:

– O Brasil tinha de ter mais respeito pela sua história. Eles (guerrilheiros) são parte da história.

Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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