Araguaia: sobreviventes recontam guerrilha

Frederico Lopes e Adalgisa Silva deram apoio aos guerrilheiros

Frederico Lopes e Adalgisa Silva deram apoio aos guerrilheiros

A guerrilha do Araguaia não foi apenas um confronto entre militares e idealistas do PCdoB que queriam derrubar a ditadura.

Foi também um momento em que, no meio de um fogo cruzado, camponeses viriam a sofrer a repressão militar vigente do período.

Muitos foram presos, torturados, obrigados a servir aos interesses militares e perderam tudo o que tinham à época.

Dois nomes sempre são lembrados como exemplos dessa participação camponesa na guerrilha.

O casal Frederico Lopes, 62 anos, e Adalgisa Moraes da Silva, 76.

Sebastião Moura, o major Curió, considerava que eles eram apoio forte. Nos relatórios do Exército no período da guerrilha, os nomes de Frederico e Adalgisa são citados como moradores que ajudavam os combatentes do PCdoB.

Os dois conheceram os guerrilheiros Zé Carlos (André Grabois), Sônia (Lúcia Maria de Souza), Fátima (Maria Célia Correa), Piauí (Antonio de Pádua Costa) e Maria Diná (Dinaelza Soares Santana Coqueiro).

Adalgisa lembra os primeiros contatos.

“O Zé Carlos chegou em casa de óculos, montado num burro. Pediu rancho. Perguntamos onde morava e ele respondeu que era no ‘Chega com Jeito’. Informaram que haviam comprado uma terra, mas que ainda não tinham quase nada. Três dias depois ele voltou, pediu mandioca. Depois disso, todo dia passava em frente de casa. Quando fui ganhar filho ele foi buscar a Sônia e a Fátima para ajudar o parto. A Fátima chegou com espingarda e facão. Depois os meninos foram deixá-la até a entrada da mata fechada”, conta.

Envolvimento com a guerrilha punido com marcas para sempre

Por conta do envolvimento com a guerrilha, Adalgisa e Frederico pagaram caro. Adalgisa lembra que em 1973, chegou um homem perguntando pelo marido dela. “Mandaram eu ir atrás dele. Quando eu saí para ver quem era a tropa do Exército entrou. Eram mais de dez homens, perguntando pelo ‘povo da mata’”.

Antônio Melo, hoje cego e acamado, foi acorrentado e jogado num camburão

Antônio Melo, hoje cego e acamado, foi acorrentado e jogado num camburão

Adalgisa conta essa história no quintal de casa, no município de São Domingos do Araguaia, sob o olhar das filhas e do marido Frederico. É ele quem completa as lembranças. “Tocaram fogo na minha casa, destruíram o paiol de arroz, o bananal, tudo o que a gente tinha”.

Frederico ficou preso durante 60 dias. Apanhou, levou choque elétrico e durante o dia comia apenas as três bolachas que lhe davam como refeição.

Frederico diz ter visto a guerrilheira Fátima morta atrás de uma porta, em uma lona preta, toda coberta de sangue. O camponês foi posto dentro de um buraco.

“Me ‘cangaram’ feito um porco nesse buraco, me botaram numa gangorra e me bateram com uma borracha”, lembra.

Durante o período em que Frederico ficou preso, Adalgisa tentava cuidar dos filhos quebrando coco, fazendo serviços na casa de outras pessoas, morando de favor ‘em casa alheia’.

Quando Frederico voltou para casa, estava perturbado, ‘meio doido’.

Nunca mais conseguiu trabalhar. Atualmente anda com dificuldades e quase não consegue elaborar uma linha de raciocínio completa. Fala devagar, buscando as palavras certas.

Frederico está na lista dos camponeses anistiados e que receberá a pensão vitalícia.

A indenização, ainda não recebida, é de R$ 107 mil. A pensão é de dois salários mínimos mensais.

“Vamos conseguir uma casa. A que nós moramos hoje é emprestada”, diz Adalgisa.

 

Sinésio Martins, mateiro, foi obrigado a lutar contra os guerrilheiros

Sinésio Martins, mateiro, foi obrigado a lutar contra os guerrilheiros

Mateiros: reféns da luta contra a guerrilha

Assim como Frederico, Sinésio Martins Ribeiro, hoje com 85 anos, é outro camponês que diz ter sofrido nas mãos do Exército. Sinésio teve que servir de guia para os soldados. Forçado. Sinésio não tinha nada contra o ‘povo da mata’.

“Eles chegaram dizendo que estavam com fome. Era um sábado. Como eu matava uma rês todo sábado, servi comida a todos eles”.

Sinésio lembra de Maria Diná.

“Era uma enfermeira que atendia a todo mundo, aliás como todos eles”.

Sinésio era compadre de Arlindo Vieira, o mateiro responsável pela morte de Osvaldão, o mais mítico de todos os guerrilheiros do Araguaia. Osvaldão impunha medo nos soldados e se tornou praticamente uma lenda na região.

Foi Arlindo que também disse ao Exército que Sinésio ajudava o povo da mata. Sinésio foi preso e levado para um curral de arame farpado, junto a mais 30 homens, que depois passou para 40, numa base montada em Xambioá.

“Judiavam com os homens, botavam eles em formigueiros, penduravam as pessoas, batiam nelas”.

Como conhecia a região, Sinésio foi escolhido pelos militares para servir de guia nas incursões pela mata para identificar os locais onde os guerrilheiros poderiam estar.

“Não tinha como não obedecer. Me deram um fuzil e eu tive que entrar na mata com eles”. Sinésio ficou entre seis, sete meses com os soldados.

“Eu nada tinha, mas o pouco que eu tinha, me tomaram. Eu não fui guia porque quis. Fui obrigado. Passei 18 dias preso sob sol e chuva”, diz.

Sinésio mora ainda em São Domingos do Araguaia, um dos locais onde a presença de um dos destacamentos de guerrilheiros foi intensa.

E é em um quarto escuro e úmido, que Antonio de Melo passa os dias, cego e acamado.

Antonio tem dificuldades para contar a própria história. Foi preso e acorrentado.

“O Exército achou que eu tinha envolvimento com o povo da mata. Me jogaram num camburão”. Antonio diz que conhecia de vista Osvaldão e Gilberto (Gilberto Olímpio Maria, morto em 1973).

“Eles não eram pessoas ruins não”, diz Antonio.

Fonte: Diário do Pará

 

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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