Sobre o congresso da CTB

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Acompanho com particular atenção o processo de congresso da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). Participei da concepção da central, integrei o núcleo fundamental da sua pré-organização e contribui para que ela desse os seus primeiros passos. Eram tempos difíceis — não havia recursos e a alma militante foi convocada para dar conta das tarefas. Os muitos anos atuando diretamente na frente sindical, passando regularmente pelo crivo das bases, assumindo responsabilidades como dirigente executivo numa área estratégica — a comunicação —, foram cruciais para a montagem de um sistema de comunicação à base da cara e a coragem.

Em pouco tempo a CTB passou a contar com o seu sistema de imprensa, que foi crucial para os seus primeiros suspiros e se mantém como importante vetor da sua construção. Minha compreensão era a de que a CTB nascia com um projeto estratégico, decisivo para os trabalhadores brasileiros. Em um dos documentos fundantes da CTB que escrevi, explicitei esse ponto de vista (leia aqui), traduzido neste trecho:

“A fundação de uma central com perfil plural, democrático e classista é a forma mais adequada de inserir as propostas da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) no debate que hoje se desenvolve no país. O cenário de mudanças progressistas que emerge na América Latina abre espaços para a formação de um pólo com condição de ampliar e unir mais o movimento sindical. Mais do que isso: esse novo pólo pode descortinar horizontes estratégicos e apontar para os trabalhadores, na batalha antiimperialista e anticapitalista, o caminho da superação do neoliberalismo e a abertura de clareiras rumo ao socialismo.”

Era uma opinião que procurei fundamentar na realidade do nosso país e nas circunstâncias que o rodeiam. Lembrei de George Wilhelm Friedrich Hegel, que certa vez disse com ironia que só os inteiramente ignorantes raciocinam de modo abstrato. A formulação cabe para o movimento sindical porque ele talvez seja o setor da sociedade que mais precisa debater este tema. Isso porque a abordagem da realidade social não pode se dar sem uma formulação conceitual — isto é, sem uma teoria da vida social, com as suas categorias básicas, os seus pontos-de-vista, os seus princípios e processos metodológicos daí decorrentes. Mesmo o defensor mais empírico da luta social já parte para o trabalho com um estoque de conceitos e julgamentos — geralmente errados —, ainda que somente para justificar o seu empirismo.

O movimento sindical é um terreno fértil para o empirismo. O problema é que o empirismo leva ao pragmatismo. E o pragmatismo gera o caudilhismo, o mandonismo. Em lugar da atitude positiva, de enfrentamento dos problemas e da garimpagem de soluções, apareceram o autoritarismo e a procrastinação. Essa condição exalta os valores da competitividade, do individualismo e da concorrência entre os próprios trabalhadores. É um instrumento para se pisar em cabeças, não assumir falhas e jogar erros nas costas de quem está em posição mais frágil. Enfim: são valores opostos às concepções classistas e se contrapõem à solidariedade, à coletividade e à perspectiva transformadora da sociedade.

Nova postura

O pragmatismo apenas se aproxima da solução dos problemas, sem atingi-los. Fica a meio caminho. Não serve sequer à unidade efetiva do movimento sindical. Um pragmático vai defender a unidade em torno de quê? Para qual objetivo? Um pragmático pode até defender a necessidade de instrumentos teóricos para o estudo da realidade social. Mas se atém à subordinação da luta a sistemas apriorísticos ou à fixação das categorias teóricas em moldes imutáveis. O conhecimento atinge essências sempre mais profundas e exige a constante incorporação de novas categorias. A meta estratégica é a mudança da estrutura social.

Se recorrermos à história da ciência social no Brasil, veremos que foram grandes os esforços para transformar a estrutura de classes existente em nosso país. Esforços guiados pelas idéias de superação das contradições sociais — o que significa luta pelo poder. O sindicalismo classista, portanto, precisa sempre ascender a planos teóricos mais elevados, onde se possa pôr constantemente em xeque a estrutura da sociedade. Não serve, para este pensamento, um aparelho conceitual de tipo imediatista, que resulta, no fim das contas, em mais fragmentação da vida social ao focalizar isoladamente aspectos de curto alcance. A unidade só serve de fato aos trabalhadores se for fundada na compreensão das categorias e princípios metodológicos para o conhecimento da vida social.

A questão é aprender a manejar este instrumental na análise concreta da realidade concreta e assim criar as condições para a formulação de propostas factíveis. Aqui está a chave para a disputa típica entre capital e trabalho no Brasil de hoje. Nesta disputa, é necessário abrir espaços para a participação dos trabalhadores de maneira efetiva, não apenas retórica. A realidade brasileira exige das organizações sindicais uma nova postura, que incorpore a contribuição das bases, que estimule o debate franco — fazendo críticas responsáveis e autocríticas sinceras.

Revolução burguesa

Essas organizações, em sua maioria, ainda são verticalizadas — concentram as decisões nas cúpulas e desestimulam a colaboração das bases. Em muitos casos, suas ações não sensibilizam o conjunto dos trabalhadores e inibem a formação do pensamento coletivo, gerando um ambiente de indiferença e uma cultura de comportamentos pragmáticos e de performances recolhidas. Um sindicalismo que enfrente este desafio deve ter sempre presente a determinação de romper o círculo do pragmatismo e do corporativismo.

O fato de a teoria fundamental das forças que expressam a luta por mudanças estruturais em nossa sociedade ter sido duramente atingida pelo turbilhão pós-Muro de Berlim não é algo inexplicável. Essa derrota em larga escala decorre fundamentalmente das deficiências no plano teórico. Portanto, só a reanimação teórica e prática do movimento transformador pode dar um sentido real de mudanças para a nova correlação de forças políticas e sociais que vai se formando no país. E nela não cabem caudilhismo, sectarismo doutrinário e estreiteza política. Muito menos politicagem.

Em grande medida, nosso atraso econômico e social se deve ao fato de a maioria dos governos da República ter excluído os trabalhadores de seus projetos. Mesmo no período em que o país deu um passo importante para o seu desenvolvimento, depois da revolução de 1930, o governo tentou realizar a “revolução burguesa sem o proletariado” — segundo Nelson Werneck Sodré. O pano de fundo do problema tem coloração liberal. E um dos pré-requisitos para esse modelo é o de garantir força de trabalho barata — incluindo nesse conceito, além do achatamento salarial, o enfraquecimento dos sindicatos e a “flexibilização” das leis trabalhistas.

Luta comum

Mas a mobilização popular em torno de um grande projeto como este, num processo de prazo longo, só pode se desenvolver num ambiente de unidade verdadeira. Por isso, o debate sobre essa questão é tão premente. Qualquer proposta de solução da crise fora desse ambiente seria aventureirismo inconsequente. É, sem dúvida, uma engenharia de grande envergadura, que exige flexibilidade tática para fazer os objetivos encadear sempre na perspectiva da solução que preconizamos, acompanhando a vida e suas nuances.

A busca por um patamar mínimo de unidade de ação de forma sólida — não apenas retórica — dever ser uma constante para o sindicalismo classista. Não atingiremos esse patamar com comportamentos imediatistas, corporativistas e economicistas. Para enfrentar essas contradições com eficiência, a realidade exige desprendimento, serenidade e uma boa dose de disciplina política. Fora disso, a unidade não passa de papo furado.

Agora de fora, torço para que o Congresso da CTB enfrente essas questões. E que no debate a democracia avance para enfrentar também outras deficiências do movimento sindical, como o caudilhismo, o autoritarismo, a politicagem de dois ou três. O sindicalismo precisa de uma democracia que permita ao coletivo coibir abusos e oportunismos de um ou outro. A verdadeira democracia dos trabalhadores tem de ser construída com fraternidade, companheirismo e respeito de fato aos interesses dos trabalhadores. Companheiro vem do latim “compane”, que significa “com pão”. Que a consciência de que nós trabalhadores temos uma luta comum, a luta pelo pão nosso de cada dia, seja elevada nesse congresso da CTB.

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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