Contra golpe, Via Campesina pede greve em Honduras

“Estou sendo perseguido, ameaçado com capturas. Estamos todos nos movendo com medo da polícia, mas seguimos adiante”, diz Rafael Alegria, coordenador da Via Campesina da América Central e hondurenha, entidade que está à frente das mobilizações contra o golpe de estado em Honduras, no último domingo, 28. 

Mesmo sob a ameaça de ser detido, o presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, aceitou a proposta feita pelo secretário geral da OEA, José Miguel Insulza, para voltar ao seu país com ele e representantes de governos amigos.

O intuito é recuperar o poder que passou para as mãos do Roberto Micheletti, ex-presidente do parlamento, um conhecido empresário e político do Partido Liberal, que assumiu graças ao golpe.

“Estamos nos preparando para esta chegada e ver no que resulta”, diz Alegria, sem esconder a apreensão.

“Paralisação nacional” é o grito de ordem dos hondurenhos. Serviços públicos pararam e os professores não estão dando aula nas escolas nem universidades.

“E assim esperamos que (o movimento) seja mantido”, afirma em entrevista a Terra Magazine.

Honduras está entre os países mais pobres das Américas.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (Pnud), o país possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) médio de 0,7 numa escala de 0 a 1.

Ocupa a posição 115 na lista mundial. No continente, só está acima de Bolívia, Guatemala e Haiti.

E o PIB per capita de Honduras é de 3,4 mil dólares, cerca de três vezes menor do que o do Brasil.

O presidente deposto anunciou que o povo está se armando. Isto gera preocupação entre os grupos de resistência:

“Temos que tomar cuidado com isto. Acredito que se nos armássemos estaríamos justificando a violência do Exército e das Forças Armadas. Sofreríamos uma repressão mais violenta ainda. Mais de 50 pessoas ficaram feridas. Até agora.”

Zelaya foi levado para a Costa Rica por soldados hondurenhos.

Lá, se reuniu em Manágua com vários presidentes latino-americanos solidários a ele. Rafael Alegria ressalta ser muito significativo o bloqueio comercial promovido pelos governos da Nicarágua, Guatemala e El Salvador contra a administração golpista.

“Este é um governo espúrio e que não poderá sobreviver ante as pressões das comunidades internacionais”, ataca.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Terra Magazine – Como foi arquitetado o golpe?

Rafael Alegria – O presidente Zelaya anunciou em março a realização de uma consulta popular para saber se o povo queria uma nova Constituição e articular uma constituinte com representantes dos povos indígenas, camponeses, operários. Isto porque precisávamos fazer uma nova Constituição mais democrática e participativa.

A antiga não correspondia aos anseios da população hondurenha?

Não. Muito antiga, obsoleta. Foi elaborada, reformada, condicionada e a serviço do Partido Liberal, do Roberto Micheletti. Eles reformaram e violentaram a Constituição somente a seu serviço. O presidente Zelaya mostrou que as relações com o neoliberalismo fracassaram e que se fortaleceram as relações com a Alba e com os países mais progressistas da América Latina.

Isto gerou o golpe?

Zelaya apontou para a possibilidade de uma reforma econômica, política e constitucional no país e isto causou a raiva e ódio do grupo no poder de Honduras. Eles então começaram uma enorme campanha de desinformação para deslegitimar essa consulta popular de Zelaya. Passaram a manipular as forças armadas hondurenhas e os conduziram, no domingo, ao golpe de estado, caracterizado por ser de ultra-direita, fascista. À sua frente está o Micheletti, ex-presidente do parlamento hondurenho.

Existe alguma resistência organizada ao golpe?

No mesmo dia, quando assistimos ao golpe, por volta das sete da manhã começamos a nos concentrar em frente à casa do governo. Perto de 20 mil pessoas. Estávamos lá para resistir ao golpe. As pessoas permaneceram toda a noite lá. Seguíamos mobilizando a população em todo o país. Decretamos paralisação nacional dos serviços públicos e esperamos que assim fosse mantido e de maneira indefinida. Os professores não estão dando aula nas escolas nem universidades. Está tudo parado.

Qual o papel da Via Campesina nesta mobilização?

Estamos à frente desta mobilização de resistência. Claro, juntamente com outros companheiros de movimentos sindicais e populares. Estou sendo perseguido, ameaçado com capturas. Estamos todos nos movendo com medo da polícia, mas seguimos adiante. A Via Campesina internacional já se solidarizou conosco.

O que pretendem fazer agora?

Zelaya pretende voltar ao país na quinta-feira acompanhado pelo secretário geral da OEA e comissões dos governos amigos. Estamos nos preparando para esta chegada e ver no que resulta.

A luta armada é uma opção de resistência?

O presidente da república anunciou que o povo está se armando. Temos que tomar cuidado com isso. Acredito que se nos armássemos estaríamos justificando a violência do Exército e das Forças Armadas. Sofreríamos uma repressão mais violenta ainda. Mais de 50 pessoas ficaram feridas. Até agora. Esta é a situação…

Como avalia o posicionamento dos organismos internacionais? E o do presidente Obama?

Muito positivo. A comunidade internacional rechaçou de maneira contundente o golpe de estado e se solidarizaram com o governo eleito de Honduras. Deixaram claro que só reconhecem o governo do presidente Zelaya e acordaram com a restituição imediata. Inclusive, o embaixador dos EUA anunciou a medida do presidente Obama e pediu a liberdade dos que foram detidos na manifestação pública. Isto é muito significativo. Este é um governo espúrio e que não poderá sobreviver ante as pressões das comunidades internacionais. Os governos da Nicarágua, Guatemala e El Salvador cortaram já as fronteiras e as relações comerciais com Honduras. Isto é muito significativo.

Estão em contato com Zelaya?

Estamos em contato permanente com Evo Morales, com Hugo Chávez e também com o presidente Zelaya.

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Sobre Osvaldo Bertolino

Jornalista, natural de Maringá — Noroeste do Paraná.
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