Artigo originalmente publicado no Portal Vermelho no dia 2 de março de 2005
Por Osvaldo Bertolino
Em política e economia, os conceitos costumam variar de significado ao sabor da corrente de pensamento que as analisa. É certo que a multiplicidade de definições torna a maioria dos conceitos de sociedade imprecisos, pouco científicos. Um dos pilares básicos de qualquer área de conhecimento, no entanto, em especial das ciências, é a delimitação clara de suas fronteiras. Isto posto, quero dizer que poucos conceitos têm tantos e tão distintos predicados quanto a luta social. Apesar destas arestas epistemológicas por aparar, ela sempre funcionou como base da luta de classes — fosse diferente, não haveria tanta gente tentando acertar a canela de seus protagonistas. Então, qual seria o escopo das atividades sociais? Como defini-lo? Revisitemos algumas opiniões que freqüentaram este debate durante o recente 5° Fórum Social Mundial (FSM).
José Luiz Del Roio, membro do Comitê Internacional do FSM, disse que a 5ª edição do evento entraria em nova fase porque ele se tornaria mais propositivo. “Passamos quatro anos pondo as redes de movimentos sociais em contato. Havia países e movimentos que não passavam um na cabeça dos outros que existissem. Agora eles se conhecem. O sujeito do Burundi conhece o do Nepal, o do Senegal conhece o do Paraguai. Agora começa uma nova fase”, disse ele. Para Del Roio, o FSM é um momento dentro de um processo. “Muitos pensam que é só vir, falar, ouvir e depois voltar para casa”, afirmou. Essa mudança de foco, não há dúvida, é fundamental para a definição de um novo caminho para o FSM. Até uns tempos atrás, cada organização gerava suas propostas e as divulgava com uma boa dose de exclusivismo. E assim a coisa ia.
Ausência da luta contra a guerra
O escritor português José Saramago também defendeu que o FSM se torne mais propositivo. “(Hoje) é como se Porto Alegre fosse uma espécie de Meca, onde os crentes — que somos todos nós — peregrinam uma vez por ano, ou de dois em dois anos, atirando pedras, como no caso de Meca, supostamente ao diabo”, afirmou ele. Desde o início, em 2001, o FSM foi, por assim dizer, um tiro no escuro. E o fato de ter acertado no alvo revelou que estava no ar, em diferentes partes do mundo, uma aspiração difusa à construção de um movimento de resistência à hegemonia neoliberal. Para Saramago, o FSM precisa procurar respostas mais efetivas. “Alguma coisa que torne o FSM visível nos meios de comunicação social. Daqui deve sair uma voz única — não no sentido absoluto, mas no sentido de voz consensual que se oponha às barbaridades do mundo”, disse ele.
Por fim, ouçamos o sociólogo Emir Sader. Em artigo publicado na agência Carta Maior, ele disse que a ausência da luta contra a guerra como tema central na programação oficial foi um dos pontos baixos do FSM. Uma das qualidades desta constatação é apontar a perspectiva histórica para condensar de modo bastante razoável um aspecto tremendamente negativo desse tipo eclético de evento social — ou seja, a falta de foco no que é essencial. Tanto Del Roio, um generalista, quanto Saramago e Sader, especialistas, pensam e escrevem a partir de uma realidade social bem determinada. Essa constatação leva naturalmente a uma pergunta: o que praticamos em nome da questão social corresponde ao que ela realmente é? O tema levantado por Emir Sader — a guerra — nos ajuda nessa análise.
Há uma tese de que o mundo enfrenta um tipo novo de “terrorismo”, com “tons” de guerra civil — como na Colômbia, no Iraque e na Palestina. Esse novo “terrorismo” seria produto direto da “globalização”. O desenvolvimento da comunicação eletrônica instantânea e do transporte de massa, somado aos novos fenômenos político e cultural, seria o responsável por esse novo “terrorismo”. É sobre essa pedra fundamental da nova face da ideologia do regime imperialista que se ergue toda a lógica do Estado terrorista preconizado pela ordem mundial hegemônica dos dias que correm. Conclui-se disso que qualquer organização política que luta contra a “globalização” é, em tese, inimiga desta ordem e portanto potencialmente “terrorista”. Então, como ser contra o neoliberalismo sem levar em conta a importância da unidade das forças que lutam por “um outro mundo possível” para estabelecer como meta principal a tomada do poder?
Estoque de conceitos e julgamentos
Mas há quem pensa assim. E, pode-se dizer, no FSM esse pensamento foi majoritário. Ouvi teses como a de que lá havia um campo de exuberante experimentação política e organizativa que contrastava com o “possibilismo estagnado e calculista dos velhos partidos de esquerda”. Dizem os apologistas desta tese que está em gestação uma nova cultura política, em substituição à “monocultura” do pensamento de esquerda. (Há outras formulações preconceituosas e peremptórias, que não vem ao caso citá-las mas que são da mesma estatura intelectual.) Apesar desse exclusivismo — que às vezes resvala para o hegemonismo autoritário —, viu-se nesta edição do FSM importantes feitos no sentido de politizar este debate. É daí que podem surgir as tais propostas efetivas reivindicadas por Saramago.
A abordagem da realidade social não pode se dar sem uma formulação conceitual — isto é, sem uma teoria da vida social, com as suas categorias básicas, os seus pontos-de-vista, os seus princípios e processos metodológicos daí decorrentes. Mesmo o defensor mais empírico da luta social já parte para o trabalho com um estoque de conceitos e julgamentos, ainda que somente para justificar o seu empirismo. A necessidade de instrumentos teóricos para o estudo da realidade social não significa, no entanto, subordinação obrigatória a sistemas apriorísticos de qualquer ordem ou fixação das categorias teóricas em moldes imutáveis. O conhecimento atinge essências sempre mais profundas e exige a incorporação de novas categorias. Há, portanto, um erro fatal na formulação segundo a qual existe “monocultura” no pensamento dos “velhos” partidos de esquerda.
Aparelho conceitual de tipo pragmático
Se recorrermos à história da ciência social no Brasil, veremos que foram grandes os esforços para transformar a estrutura de classes existente em nosso país. Mas, como se viu no FSM, o debate a respeito deste assunto ainda oferece guarida para idéias que, consciente ou inconscientemente, tem o propósito de não superar contradições — o que significa lutar pelo poder —, mas atenuá-las, anular ou limitar, tanto quanto possível, os seus efeitos. É perfeitamente compreensível, por isso, que este pensamento evita ascender a planos teóricos mais elevados, onde se possa pôr em xeque a estrutura da sociedade. Basta, para essas correntes, um aparelho conceitual de tipo pragmático, que fragmenta ao máximo a vida social e focaliza isoladamente aspectos de curto alcance. Elas apenas se aproximam da solução dos problemas, sem atingi-los. Ficam a meio caminho.
Há, sem dúvida, o que aprender com os resultados parciais alcançados por estas correntes de pensamento digamos empíricas. A unidade de forças aparece como resposta a essa contradição. Isso, no entanto, não deve afastar os revolucionários da convicção de que a meta estratégica é a mudança da estrutura social. No Brasil, os que abraçaram esta causa nunca levaram uma vida dulcíssima. Muitos suaram lágrimas para realizar tal projeto e assim aprimoraram a compreensão das categorias e princípios metodológicos para o conhecimento da vida social brasileira. A questão é aprender a manejar este instrumental na análise concreta da realidade concreta e assim criar as condições para a formulação de propostas factíveis. Pois, como dizia Hegel com ironia, são os inteiramente ignorantes que raciocinam de modo abstrato.