Domenico Losurdo: “O socialismo é uma necessidade”

Artigo originalmente publicado no Portal Vermelho no dia 11 de novembro de 2005

 

O Instituto Maurício Grabois (IMG) e o Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) promoveram ontem (10/11) a conferência “O Socialismo no Século 21″, com o professor titular de filosofia da história na Universidade de Urbino (Itália), Domenico Losurdo, que proferiu palestra no auditório do Sindicado dos Engenheiros de São Paulo, na capital paulista. Antes, ele foi recebido por representantes do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e concedeu entrevista exclusiva à revista Princípios.

 

Por Osvaldo Bertolino

 

Em sua passagem pela capital paulista, o professor Domenico Losurdo enfatizou a importância do estudo do marxismo, procurando sempre invocar o seu tempo histórico. Para ele, o mundo hoje vive um impasse decorrente do triunfo do imperialismo no final da Guerra Fria. Losurdo explicou que o cenário mundial é definido como se a “democracia” tivesse se livrado de duas anomalias: o nazi-fascismo e o comunismo. A jovem senhora “democracia” finalmente se casou com o senhor capitalismo e o casal consolidou o seu sonho de amor. Mas, segundo o professor, o que existe de fato é uma regressão ao conceito de democracia existente antes da revolução socialista na Rússia em 1917.

 

Losurdo explicou que até então prevaleciam basicamente três grandes preconceitos em relação à democracia. Primeiro, o cerceamento do direto de voto às mulheres. Segundo, a exclusão dos não brancos do direito de votar. E, terceiro, a não participação eleitoral dos desprovidos de propriedades. Esses preconceitos foram superados pela revolução russa. Ele lembra, por exemplo, que os negros norte-americanos só começaram a votar nas décadas de 40 e 50. Losurdo recordou a formulação do principal teórico do neoliberalismo, Friedrich von Hayek, segundo a qual direitos sociais são uma catastrófica invenção da revolução marxista na Rússia. Daí a ofensiva contra as conquistas democráticas do século 20 após o fim do bloco soviético.

 

Um ponto de vista histórico

 

Ele lembrou também a regressão democrática no terreno político. Segundo Losurdo, o cientista social Albert Hirschman, alemão radicado nos Estados Unidos, diz explicitamente que o processo eleitoral norte-americano exclui de qualquer cargo político aqueles que não dispõem de muito dinheiro. Quando o assunto é levado para a relação entre países ricos e pobres, a situação é ainda pior. Losurdo recorda que Lênin definiu o imperialismo como a pretensão de que o conceito de Estado nacional só serviria para poucos países centrais. Os demais países deveriam renunciar às suas soberanias. Com o fim do bloco soviético, essas poucas nações imperialistas se tornaram uma só: os Estados Unidos. Daí a luta do imperialismo norte-americano para expandir a “globalização” capitalista.

 

Losurdo diz que há alguns pontos que param a ofensiva norte-americana. O principal deles é a China. Ele explica o fenômeno de um ponto de vista histórico. Para ele, os Estados Unidos pretendiam estabelecer um controle mundial de forma rápida. E a esperança era a derrocada do socialismo na China em 1989, no episódio das manifestações da Praça da Paz Celestial (Tiananmen). O aparato mobilizado pelo imperialismo ali incluía desde armas militares até a impressão de jornais em versões falsas. O objetivo era deflagrar um golpe de Estado para assegurar a expansão planetária do domínio norte-americano. Losurdo vê essa lógica pelo fio da história. Segundo ele, o imperialismo se mantém na ofensiva desde o Plano Marshal, supostamente concebido para reconstruir a Europa e que foi recusado pela União Soviética, em 1947 — o que lhe custou um cerco brutal.

 

A mãe de todas as desigualdades

 

Havia o fato de o bloco socialista ter saído da Segunda Guerra Mundial ensangüentando, enquanto os Estados Unidos estavam intactos. Formaram-se, então, dois mercados: um grande, comandado por Washington, e outro restrito, dirigido pela União Soviética. O cerco imperialista impôs ao campo socialista severas restrições, o que lhe custou uma enorme defasagem tecnológica. Desde então, o cerco se fechou até a vitória do imperialismo. Para Losurdo, portanto, não se deve falar em dissolução do bloco soviético, porque ele foi vítima de um histórico processo de estrangulamento. Com a fim da Guerra Fria, aparece a questão chinesa.

 

Os chineses viam como estava acabando a Guerra Fria, com o ocidente monopolizando a tecnologia avançada — segundo Losurdo a mãe de todas as desigualdades. Não havia sentido em um isolamento do mercado ocidental. A China então optou por um caminho diferente de resistência ao imperialismo: atrair investimentos baseados em tecnologia avançada. Daí o desenvolvimento chinês num ritmo inédito na história. O determinante nesse fenômeno, segundo Losurdo, é a direção do processo pelo Partido Comunista Chinês. “Fico feliz e orgulhosos por isso”, disse ele. Segundo o professor, não se trata de desenvolvimento econômico, no sentido banal do termo, apenas. Está havendo na sociedade chinesa mudanças radicais.

 

A universalização da luta nacional

 

Depois da Guerra Fria, diz ele, o desafio chinês era superar o atraso tecnológico em relação ao ocidente. O socialismo precisava, urgentemente, desenvolver suas forças produtivas. Tudo isso num mundo castigado pelo que Losurdo classifica de “Hiroshima ideológica”. Os Estados Unidos fazem uma pressão enorme para que a União Européia (UE) mantenha o embargo de armas à China — o que na realidade é um embargo tecnológico. O professor explica que toda tecnologia avançada tem um caráter dual: serve tanto para fins militares como civis. Como a UE tem praticado uma política subalterna em relação aos interesses norte-americanos, por esse meio o imperialismo atinge a China nessa questão crucial.

 

Mas o país socialista tem sua política centrada na questão nacional, que, segundo Losurdo, é central na luta antiimperialista. Ele lembra o papel desempenhado pelos partidos comunistas na defesa dos interesses nacionais. A universalização da luta nacional hoje decorre de uma configuração geopolítica na qual nenhum país — nem mesmo os da UE — está imune a um ataque norte-americano. Um perigo que ameaça a China é a ofensiva pelo controle do petróleo. Daí a invasão do Iraque e as campanhas contra países como Irã e Síria. Segundo Losurdo, se os Estados Unidos conquistarem o controle do petróleo, eles têm total condição de manobrarem contra a China e mesmo contra a UE.

 

Previsão de Gramsci na Itália

 

O governo norte-americano, lembra o professor, já chegou ao ponto de declarar que, à revelia da ONU, pode fazer ataques atômicos “preventivos”. E isso põe na ordem do dia a questão nacional como uma luta estratégica. Ela é, segundo Losurdo, a forma mais aguda de luta de classes. Ele lembra dois exemplos históricos: a batalha de Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial, quando os soviéticos se uniram contra o agressor nazista que intentava fazer daqueles povos escravos; e a luta chinesa contra o imperialismo japonês, que tinha a mesma intenção. Em ambos os casos, a luta foi pela sobrevivência nacional. Losurdo lembra que Josef Stalin, discursando no 19° Congresso do PCUS em 1952, disse que a burguesia se mostrava incapaz de garantir a soberania nacional e que, portanto, essa tarefa cabia aos partidos comunistas. Foi o que aconteceu em muitos países da Europa no decorrer da Segunda Guerra Mundial.

 

Ele cita o caso da Itália, que após ser ocupada pela Alemanha nazista foi salva basicamente pelas ações de resistência comandadas pelo partido comunista. Segundo Losurdo, o dirigente comunista italiano Antônio Gramsci foi o primeiro a estudar a centralidade da questão nacional. O professor lembra a previsão profética de Gramsci quando ele foi preso pelos fascistas. “Vocês, fascistas, conduzirão a Itália à ruína; caberá a nós, comunistas, salvá-la.” Esse foi um grande feito do partido comunista, que passou a ser reconhecido como o partido da causa nacional italiana. O professor também comentou a situação da América Latina e a sua histórica luta contra o imperialismo norte-americano. “O socialismo é uma necessidade histórica”, disse ele.

 

Imprensa pró-Estados Unidos

 

Por fim, Losurdo anunciou que mais dois livros de sua autoria deverão ser publicados no Brasil. Um, intitulado Antônio Gramsci – do liberalismo ao “comunismo crítico”, que aborda exatamente a centralidade da questão nacional; e outro, intitulado Contra-história do liberalismo, que aborda as sociedades liberais e suas contradições. Ele ressalta que um dos assuntos tratados é o fato de o Estados Unidos terem, entre os seus primeiros 36 presidentes, 32 proprietários de escravos. Na conversa com representantes da direção do PCdoB, Losurdo ouviu de Renato Rabelo, presidente nacional do Partido, considerações sobre o estudo da realidade brasileira pelos comunistas, tarefa iniciada no 8° Congresso. “Estamos fazendo esforços para compreender melhor nossa realidade e o período histórico em que vivemos”, disse Renato Rabelo.

 

O professor titular da Unicamp, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, João Quartim de Moraes, participou da conferência e classificou a palestra de Losurdo como uma visão completamente oposta à que é apresentada oficialmente. Para ele, o professor italiano mostrou uma reviravolta na forma de entender a história do século 20. Quartim de Moraes ressaltou o papel dos comunistas na difusão desses conhecimentos, uma vez que a imprensa pró-Estados Unidos não tem limites em sua sua missão de intoxicar as pessoas com falsas informações. “Se essa hipocrisia, esse massacre midiático, atinge a nós que somos comunistas e vacinados de forma violenta, imaginem os outros”, disse ele.

 

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