
Por Aloisio Milani, na Terra Magazine.
O começo oficial das eleições presidenciais de 2010 ainda vai demorar mais de um ano. Nos bastidores da política, contudo, a articulação partidária está nas ruas com os nomes de Dilma Rousseff, José Serra e Aécio Neves encabeçando os cenários de disputa. No caso do PT, partido do presidente Lula, o desafio central é superar diferenças regionais e trazer o maior número de apoios do PMDB para engrossar a campanha.
Em entrevista a Terra Magazine, o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini, conta como está sua caravana de negociações partidárias com lideranças nacionais e regionais. Sobre os objetivos maiores, não titubeia. Além de aglutinar os partidos mais próximos, como PCdoB, PSB e PDT, sonha com o apoio formal do PMDB, hoje a “namorada” que todos flertam para um “noivado” partidário.
- O ideal é ter o apoio formal. É estar o PMDB na coligação, inclusive com a possibilidade de compor a chapa.
Na análise histórica da estrutura nacional do PMDB, contudo, Berzoini acha difícil a obtenção de um apoio formal. “O PMDB nunca esteve nas últimas eleições unido em torno de uma candidatura só. Não acredito que o PMDB, do ponto de vista de sua estrutura nacional, vá 100% para um dos projetos que vão disputar o Brasil em 2010″, diz.
O nome da ministra Dilma Rousseff já é certo nos bastidores. Nas entrevistas, líderes do PT apresentam todos os argumentos. Só não reconhecem a candidatura oficialmente porque seria um acinte ao calendário eleitoral. Nesse tom, Ricardo Berzoini diz:
- Num curto espaço de tempo, (Dilma Rousseff se constituiu) numa alternativa concreta e que me parece consolidar a cada dia, sem o risco que tenhamos problemas na constituição do seu nome (para ser a candidata).
Leia a seguir a íntegra da entrevista:
Terra Magazine – A articulação da campanha está nas ruas a toda já no início de 2009. A ministra Dilma Rousseff desponta como a favorita do presidente e do partido. Como o PT se movimenta para construir essa candidatura?
Ricardo Berzoini – Como você bem disse, a articulação começou com uma distância bem grande da campanha. Um ano e três meses quase do início do processo eleitoral. Mas é óbvio que as conversas já se fazem. Estamos conversando com todos os partidos da base. Estou fazendo um processo de conversas e consultas com minhas direções regionais no sentido de, a partir de um diagnóstico, explorar possibilidades e conversas nacionais e regionais.
De que forma concretamente?
Primeiro com os partidos tradicionalmente aliados ao PT, como PSB, PCdoB e PDT, que já estiveram conosco em algumas eleições, outras não. PCdoB esteve em todas nacionais, por exemplo. Esses partidos, portanto, são alvo de uma conversa mais detalhada. Logicamente, também com o PMDB, até pelo peso que tem no Parlamento hoje. Mas todos os partidos da base são alvo dessa conversa do PT, obviamente levando em conta que as decisões mesmo vão se tomar em 2010. Ninguém tem a ilusão de que vão se firmar alianças em 2009. Só em 2010 é que o quadro político vai permitir que os partidos tomem decisões mais consistentes.
Na sua visão de presidente do PT, por que o debate se antecipou tanto?
Ao fato de que o ano anterior à eleição (e isso acontece em eleições estaduais e municipais), já existe um grau de ansiedade do mundo político para imaginar cenários. Isso aconteceu de 2005 para 2006, aconteceu agora de 2007 para 2008. Na verdade, o mundo político é muito ansioso. Muitas vezes as pessoas antecipam questões que não podem ser deliberadas nesse período. Esse é um trabalho exploratório de conversas e articulações buscando construir e constituir cenários para 2010.
Não há a menor possibilidade de alguém tomar uma decisão definitiva agora de que vai apoiar candidato A ou B, mesmo tendo afinidades políticas e ideológicas. Até na oposição, onde, por razões até históricas, há mais estabilidade na relação entre DEM e PSDB, mesmo eles têm dificuldades regionais que são difíceis de serem resolvidas. Eles terão que trabalhar até o ano que vem para consolidar uma base e uma plataforma de oposição para enfrentar a plataforma de continuidade do governo, que é a nossa plataforma.
A ministra Dilma Rousseff é o nome certo para a disputa de 2010?
A ministra Dilma Rousseff hoje tem um apoio muito grande do PT a partir do seu próprio comportamento, que é de lealdade e muita firmeza na condução da Casa Civil. E também pelo fato de ter o apoio do presidente Lula. São referências que a constituíram num curto espaço de tempo numa alternativa concreta e que me parece consolidar a cada dia, sem o risco que tenhamos problemas na constituição do seu nome.
A militância histórica do PT se identifica com o perfil partidário da ministra?
A ministra Dilma vem do PDT. Ela se filiou ao PT no governo Olívio Dutra. Ela era secretária de governo e, no momento em que o PDT se dividiu em termos de avaliação de permanência ou não do governo Olívio, ela optou por ficar e acabou se filiando ao PT. Independente de ela ter ou não esse tempo de filiação e participação, ela rapidamente conquistou o apoio e a simpatia de praticamente todo partido.
De toda a cúpula?
Tanto é que assim que hoje não temos nenhuma candidatura alternativa colocada – coisa que seria natural, a julgar pelo PT e o tempo da eleição. Mas nós não só não temos, como os principais nomes nacionais nossos estão manifestando publicamente o apoio à candidatura da ministra Dilma Rousseff. Ela é solidária ao partido. Demonstrou isso nas eleições municipais.
Demonstrou isso nos momento em que precisamos discutir os rumos do governo, ela sempre se colocou à disposição para vir ao partido. Isso reforçou muito esse apreço, esse carinho da militância do PT e a convicção de que ela tem capacidade política, não só administrativa, para ser a candidata que simbolize a continuidade de um projeto que fez o Brasil crescer, gerar emprego. É isso que, na minha opinião, o Brasil precisa.
E a relação com o PMDB? Qual a estratégia para ter o partido nas eleições de 2010?
Em primeiro lugar, o PMDB nunca esteve nas últimas eleições unido em torno de uma candidatura só. Não acredito que o PMDB do ponto de vista de sua estrutura nacional vá 100% para um dos projetos que vão disputar o Brasil em 2010. Isso também aconteceu em 2002 e 2006. Portanto, não é possível imaginar que haja uma total unidade.
Salvo uma mudança radical de comportamento do PMDB. Mas é possível primeiro discutir o apoio formal, ou seja, a participação formal na coligação. E para isso há uma maioria no PMDB, a se verificar na convenção, que tem apreço pelo projeto encabeçado pelo presidente Lula. E outra questão é ter o apoio efetivo das principais lideranças de governadores, prefeitos, ministros, parlamentares da Câmara e Senado, deputados estaduais. Esse também é um público numeroso e influente nos estados.
E boa parte bem boa relação com o PT, o que gerou várias alianças nas eleições municipais. Então, é um quadro em disputa. Ninguém tem a certeza do apoio do PMDB. Isso vai depender da convenção do próprio PMDB no ano que vem, mas temos hoje laços que nos permitem ser otimistas sobre esse apoio.
Na visão pessimista, então, o PMDB pode pelo menos apoiar a ministra Dilma de maneira mais regionalizada, onde a aproximação é mais fácil?
O ideal é ter o apoio formal. É estar o PMDB na coligação, inclusive com a possibilidade de compor a chapa. É óbvio que há outros partidos que poderiam compor a chapa. Mas o PMDB é um grande partido e tem grandes influências nos estados e municípios. Um apoio que prezamos muito para o cenário das eleições de 2010. Queremos, sim, o apoio do PMDB.