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Elifas Andreato: redescoberta do carnaval perdido

21/02/2009 · Deixe um comentário

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Elifas Andreato é artista de muitos carnavais.

 

Mais de 62 desde que nasceu na pequena cidade paranaense de Rolândia.

 

Sua história tem muitas alas de destaque: a política, a musical, a teatral, a jornalística, a boêmia.

 

Andreato transbordou poesia nas capas de quase 400 discos do melhor da música nacional. E emoldurou seu nome no altar da arte plástica brasileira.

 

Os long plays de samba que assinou rasgam dor qualquer do coração.

 

Pintou e bordou para Chico Buarque, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Clementina de Jesus e Martinho da Vila. Entre centenas mais. Se falamos, contudo, dos dias de Momo e Colombina, a história precisa começar em 1976, quando ele foi carnavalesco da Camisa Verde e Branco, tradicional escola de samba de São Paulo.

 

Aquele carnaval ainda tinha a sombra mórbida do assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões do DOI-Codi em outubro de 1975.

 

A ditadura dividia a consciência.

 

A cena de Vlado dependurado pelo próprio cinto ficaria na cabeça de Elifas até pouco tempo.

 

Ele criou em 2008 a versão vitoriosa de Vlado.

 

Em bronze, com braços e mãos para o alto, a peça foi símbolo de um prêmio especial sobre direitos humanos.

 

O peso pesado de Vlado ainda era de defunto quente.

 

O carnaval precisava ser belo.

 

E foi.

 

“Fui tricampeão. Foi uma escola para mim, conviver com o barracão, com a comunidade, cuidar de tudo”, lembra Elifas.

 

Só depois da Camisa Verde e Branco que Elifas trabalhou com os sambistas Paulinho da Viola e Martinho da Vila, pintando aquarelas e pinturas a óleo com as marcas da cultura de raiz.

 

Abandonou as capas de disco porque, segundo ele, mídia e música mudaram.

 

“Não vale mais a pena fazer. Naquele momento em que produzi, a música era brasileira e ponto. Hoje não”, lamenta.

 

Às vésperas deste carnaval de 2009, Elifas atendeu Terra Magazine disposto a lembrar. Mais.

 

Reviver um carnaval perdido, guardado no seu baú. Melhor, numa caixa do ateliê.

 

- Vou te contar uma história que você vai ficar tão impressionado como eu ainda fico. É uma beleza.

 

Tudo começa com o convite de Rildo Hora, “o maior produtor e arranjador de samba no Brasil”, sentencia Elifas.

 

- No começo dos anos 90, a pedido a gravadora Sony, Rildo gravaria os melhores sambas da história das escolas do Rio para uma série comemorativa. As próprias escolas escolheriam seus sambas-enredo e ele gravaria. Fez um texto belíssimo para a coleção e me convidou para ser o capista.

 

Elifas faz uma pausa para inspiração.

 

“Fiz uma série de um marchetado em papel. Colagens uma a uma. Fiz uma pesquisa para descobrir qual ala era mais tradicional em cada escola. E trabalhei com um enredo diferente para cada uma”, explica.

 

- Fiz mestre-sala e porta-bandeira para a Vila Isabel; ala dos compositores para o Império Serrano; passistas para Estácio de Sá; as baianas na Mangueira; abre-alas na Beija-Flor.

 

A capa da Mocidade traz ala da bateria a percorrer uma avenida da direita para a esquerda. A sombra dos percursionistas ao fundo contrasta com serpentinas e confetes. Em primeiro plano, o tambor, a caixa, a cuíca e o pandeiro, todos tocados por músicos com a aura repetitiva da alegria.

 

Num clique de computador, as gravuras que tinham uma versão digital chegaram até Terra Magazine por e-mail. Os leitores poderão conferir aqui algumas delas aqui nestes dias de folia.

 

Para o artista plástico, só o resultado final do conjunto da obra é que decepciona:

 

- Tudo isso nunca foi lançado pela gravadora. Tanto para mim, quanto para o Rildo Hora, nunca deram uma razão sequer. Uma coisa que ninguém jamais soube explicar. E criou expectativa também em todas as comunidades do Rio. Nada foi divulgado.

 

Uma baita ressaca de folião na quarta-feira de cinzas.

 

Ainda assim um belo carnaval.

 

Fonte: Terra Magazine

Categorias: Cultura
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