Por Rafael Hernández*
“Ideólogos: todos os jornalistas o são”.
Gustave Flaubert, Dicitonnaire des idées reçues.
“Os pobres cubanos estão desconectados do mundo, não têm CNN nem Internet”. Esta frase, que circula por toda parte sem maiores detalhes nem copyright, e sem que ninguém a comprove, pertence ao gênero de verdades recebidas às quais se referia Flaubert. A CNN e a Internet são o que demanda a maioria dos cubanos quando discute sobre a qualidade da informação e dos meios de comunicação na ilha? Está proibido criticar as políticas governamentais? Cuba está tão isolada do mundo como se diz?
O debate nacional desenvolvido em setembro e outubro de 2007, a partir do discurso do então presidente interino Raúl Castro no dia 26 de julho desse ano, demonstrou que a opinião crítica da sociedade civil cubana não só existe e se manifesta sem barreiras como, também, canalizá-la reforça o consenso. Este debate mostrou que os cubanos estão muito descontentes com os meios de comunicação de massa, que criticam por não refletir a realidade nacional nem dar espaço suficiente à opinião pública; por sua retórica e repetição de lemas, e lhes atribuem uma “excessiva politização”.
Para que esta consulta democrática fosse sistemática, o recurso mais óbvio seriam esses meios de massa, que pertencem em sua totalidade ao Estado. Entre estes, o mais popular, dinâmico e eficaz embora o menos ouvido pelos que escrevem e opinam sobre Cuba no mundo continua sendo o rádio. De fato, está difundindo programas de opinião e debate, alguns tão antigos como Hablando claro, da Rádio Rebelde, ou Alta tensão, da CMHW (Santa Clara). Especialmente com a abertura de canais de televisão educativa e provinciais diversificou-se e melhorou a programação, incluídos espaços de opinião, como Triangulo da confiança (Canal Havana).
Algumas mudanças recentes incluem os próprios meios impressos. Além da precursora seção de cartas ao editor “Acuse de recibo”, a edição dominical do jornal Juventude Rebelde pública reportagens de análises, da mesma maneira que a revista semanal Bohemia, enquanto o jornal oficial Granma, em sua edição das sextas-feiras, publica opiniões críticas da população. Os órgãos estatais, em alguns casos, se vêem forçados a responder, como parte de um mecanismo que ainda não se tornou funcional.
As deficiências dos meios e estilos da comunicação social não são atribuíveis à falta de talento profissional, nem de recursos técnicos ou financeiros, mas a concepções estabelecidas. Assim como ocorre em outros setores – agricultura, serviços, construção de moradias – impõe-se a necessidade de um projeto menos centralizado e uniforme; um sistema de difusão coerente com o projeto socialista e, ao mesmo tempo, diverso, plural, onde intervenham ativamente não apenas os organismos estatais e políticos, mas também as instituições e organizações sociais estabelecidas.
Mudar estruturalmente o funcionamento dos meios de comunicação, sem afetar sua natureza pública, diferenciando dentro deles quais são os porta-vozes oficiais do Estado e do Partido, ficar claro na teoria, não tanto na prática. Mas, o reconhecimento desta diferenciação já existe, de fato, em alguma medida. Na verdade, o jornal Granma, órgão do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, as revistas de instituições culturais Catauro, El Caimán Barbudo ou a Gaceta de Cuba; Caminhos, do centro cristão Martin Luther King, ou Alma Máter, da Federação de Estudantes Universitários, respondem a um leque de setores sociais e visões diferentes.
Segundo o Ministério da Cultura, há 67 publicações culturais eletrônicas registradas, acessíveis a qualquer pessoa dentro e fora de Cuba. Os dados do Ministério de Informática de 2006 contabilizava 260 mil usuários de Internet (a maioria instituições, escolas, universidades, associações juvenis, etc) e quase um milhão de contas de e-mail; bem como aproximadamente 1.400 domínios cubanos registrados (.cu) na rede. Um bom começo, embora ainda insuficiente para a demanda.
Quais obstáculos limitam a ampliação da diversidade e o acesso aos grandes meios de divulgação? O debate democrático, com plena confiança e clareza por parte do Estado, não pode limitar-se por medo de que no exterior tentem tirar partido, afirmou Raúl Castro no dia 26 de julho — pois “cedo ou tarde, a verdade se impõe”. A implementação desta política contribuiria para que a Cuba real, uma sociedade civil diversa e vibrante, alheia à uniformidade com que costuma ser pintada, possa se reconhecer plenamente.
* Rafael Hernández, especialista em política e diretor da revista Temas, em Havana. Seu último livro é The History of Havana (Palgrave, 2006).
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